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Em Alvalade, há um Casulo de encontro, cultura e resistência

Rita tinha um sonho, juntou camaradas e fez nascer um colectivo num antigo café. A programação e as empadas já fazem sucesso.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Casulo – Associação Cultural
Fotografia: Rita Chantre/ Time Out Lisboa | Casulo, na Rua Moura Girão 3A
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Quando chegamos ao Casulo, um novo centro comunitário no bairro de Alvalade, Rita Bourbon está a colocar empadas no forno e a preparar-se para descascar cenouras. “Tenho de ter a sopa pronta ao meio-dia”, justifica, antes de sair detrás do balcão para nos dar a conhecer os cantos à casa. O espaço não é muito grande – um piso no rés-do-chão, com uma zona de café e esplanada, e outro na cave, com uma ludoteca e uma mesa de jantar que “serve para tudo” –, mas não temos dúvidas de que acolhe muitas vontades. A de Rita, claro, mas também a dos camaradas e restante comunidade que foi aparecendo para fazer acontecer. Era um sonho antigo e está finalmente de pé. A programação regular inclui desde um clube de costura a aulas de árabe.

“Um dia recebi uma chamada de uma psicóloga que tive quando era pequena e ela perguntou-me se já tinha realizado o meu sonho. Não fazia ideia do que estava a falar. ‘Que sonho?’ ‘Então, o teu sonho de criar uma associação cultural, onde as pessoas se sintam em casa e possam aprender umas com as outras. Sempre que falávamos sobre o que querias fazer, era isso que me respondias. Já concretizaste?’ ‘Não, ainda não.”, recorda Rita, que ainda demoraria a cumprir o que mais tarde se revelou vocação.

Casulo
Fotografia: Rita Chantre/ Time Out Lisboa| Rafael Matos e Rita Bourbon, no Casulo

Estamos no número 3A da Rua Moura Girão. Foi aqui, onde antes era “o café da Andreia”, que Rita e o namorado, Rafael Matos, encontraram um lugar para cuidar e ser cuidados, para estar e para receber. Manteve-se a esplanada lá fora e metade do balcão cá dentro, e remodelou-se tudo o resto. Chamaram-lhe Casulo. O nome vem da “ideia de acolhimento/recolhimento” e contrasta de propósito com a identidade visual muito colorida, que inclui diferentes pessoas-borboleta. Porque ser um espaço seguro também é ir à luta, explicam-nos. Por exemplo, pelos direitos da comunidade LGBTQIA+ e pela libertação da Palestina. Há bandeiras na parede e um cartaz da Palestine Cola mesmo à entrada. “É o único refrigerante que temos à venda”, diz Rita, que descobriu a marca sueca através do movimento Parents for Peace.

A declaração de interesses estende-se ao resto do menu de cafetaria (0,90€-5,50€), onde predominam produtos de marcas portuguesas, como a portuense Aquela Kombucha, e de pequenos negócios locais, como a Florescente (pão), a Cafélia (café), a Matuta (pão de queijo) e o restaurante Rasoi (chamuças). As empadas, que têm feito sucesso, também são de fabrico artesanal: é Clarisse Galego que as faz, doces e salgadas. Tanto funcionam como entrada ou como sobremesa, depois de uma sopa ou de uma tosta. “Começamos a ter clientes habituais [por causa disso]”, partilha Rafael Matos, apontando para o outro lado da rua, onde se encontra a Igreja Paroquial de Santa Joana Princesa. Rita acrescenta: “No início, por exemplo, não tínhamos queques, mas houve uma senhora que nos disse que a Andreia tinha uns queques muito bons e estava habituada a comê-los sempre ao pequeno-almoço. Então agora já os tenho, e a palavra espalhou-se entre os vizinhos.”

Casulo
Fotografia: Rita Chantre/ Time Out Lisboa| As empadas de Clarisse Galego (1,80€-2€)

Tem sido muito bonito, o encontro de gerações, e o café – que é, na verdade, a grande fonte de financiamento da associação – tem ajudado. Mas foi para isso mesmo que se criou o Casulo. “Queremos que seja um espaço onde toda a gente se sente bem-vinda, que junte e integre. Há quem ache que isso é um sonho meio naïf, mas eu acredito, e parece-me que é muito importante – mais do que nunca, aliás – que espaços como este existam. Infelizmente, a maioria dos que conhecemos estão a fechar, como aconteceu recentemente com a Zona Franca. São gente muito boa, que não tem a sorte de ter uma senhoria como nós temos, que nos deu a oportunidade de ocupar este lugar com uma renda acessível”, revela Rita, que também tem contado com o apoio de amigos, de dentro e de fora do país.

Um espaço de encontro, cultura e resistência

A inauguração, no início de Setembro, foi tudo o que desejavam – três dias de agenda para todas as idades, origens e credos – e, a partir do momento em que abriram, foram sempre aparecendo pessoas, para pintar, para decorar, para contribuir de alguma forma. À entrada, por exemplo, já se afixou um “quadro para trocas”, que incentiva a economia circular, e os cravos de crochê, que se encontram dentro de um cestinho e podem ser levados em troca de um donativo, foram feitos por alguém que os aprendeu a fazer ali, numa oficina, e que quis retribuir à sua maneira.

Esse espírito colaborativo tem-se mantido também por causa da chamada aberta para actividades semanais ou pontuais. A ideia é que a programação se construa para, com e em comunidade (muitas das actividades funcionam por donativo, com a receita a reverter para quem dinamiza). Além das aulas de português para estrangeiros, que Rafael lecciona de segunda a sexta-feira, entre as 09.00 e as 13.30, a oferta regular inclui sessões de arte e terapia, horas do conto, oficinas de artes plásticas e de woodcarving, aulas de árabe e até clubes de pintura, cerâmica, crochê, costura e leitura.

Casulo
Fotografia: Rita Chantre/ Time Out Lisboa

“Há mais propostas do que espaço na agenda”, admite Rita, que se despediu para estar no Casulo a tempo inteiro. Afinal, em apenas uma semana, acontecem mais de dez eventos. Este mês de Outubro, destaca-se o jantar solidário por Gaza, no dia 31. A entrada é por donativo, mínimo de 10€ para adultos e 7€ para crianças, com os fundos a reverter na totalidade para apoiar famílias palestinianas através da ONG AMURTEL. “O Casulo não tem posição partidária, mas tem posição política, e essa posição é democrática”, afiança Rafael, que acredita que, só por ser um espaço de encontro entre pessoas, o Casulo também já é um espaço de resistência. Há pouco tempo dinamizaram-se inclusive conversas em torno de temáticas como as autárquicas e a ascensão do fascismo. É para continuar, claro. Sermos cidadãos participativos é a forma por excelência de cuidarmos uns dos outros.

Agora, resta perceber como atrair mais sócios (não há jóia, basta querer comer qualquer coisa no café e estar disposto a partilhar o nome e e-mail). “Há imensa coisa a acontecer na zona da Avenida de Roma, mas esta rua não é de passagem, ninguém vem para estes lados de propósito a não ser que se recomende. No outro dia alguém nos disse ‘ah, comecei a trabalhar ali na escola e as auxiliares disseram-me que este era o sítio para almoçar’. Mas é raro ser por estarem aqui a passar, até porque as pessoas olham e percebem que não é só um café e ficam assim meio desconfiadas”, explica Rita. “Precisamos que a malta venha, consuma, participe, mas sobretudo que permaneça. Isto é um sítio para estar, para jogar cartas, para ler um livro. Temos uma biblioteca. Há pessoas que ainda não sabem, mas há essa possibilidade. As possibilidades, na verdade, são infinitas.”

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Fotografia: Rita Chantre/ Time Out Lisboa| O Casulo tem uma ludoteca, com livros, jogos e brinquedos

A melhor maneira de conhecer o Casulo, somos nós a sugerir, é ir ao jantar comunitário que se realiza mensalmente. O próximo acontece a 24 de Outubro, a partir das 20.00, e a ideia é que cada um leve um prato típico do seu país, para que se partilhem sabores, histórias e culturas. A entrada é grátis, mediante inscrição prévia, e está previsto fazer-se uma playlist colaborativa, que convide a dançar. É verdade, também há espaço para dançar. É só querer abanar a anca.

Rua Moura Girão, 3A (Roma). Ter-Sex 11.00-18.00, Sex-Sáb 19.00-22.00

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