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As queixas vão da praça pública aos cafés, das redes sociais aos jornais. Na mira está a saúde dos jardins. Traçamos o diagnóstico a quatro, da Estrela à Graça.

“Voto em quem trate do Jardim da Estrela. Em quem demonstre que está realmente interessado nos serviços municipais, no espaço público, na beleza das cidades, no conforto dos cidadãos (...).” A inclinação é do sociólogo António Barreto, que em Julho escreveu um artigo no jornal Público mostrando a insatisfação quanto a um dos seus lugares favoritos da cidade.
Nos meses quentes, os jardins são a salvação de muitos lisboetas. Na cidade das ilhas de calor, desde o Parque das Nações até à Baixa, é em zonas de sombra como o Parque Florestal de Monsanto que as temperaturas máximas conseguem reduzir em cerca de dez graus. É nos jardins que se procuram as sombras, mas também a beleza (elencada por António Barreto), a sensação de bem-estar, a maior qualidade do ar, o conforto. Mas na Estrela o professor encontrou “relva queimada”, “erva seca”, “flores murchas e mortas”, o coreto histórico que há anos aguarda obras.
Também entre vizinhos, as queixas relacionadas com jardins públicos multiplicam-se: da parca limpeza à insegurança, passando pela falta de relva para estender a toalha, pelos cães sem trela, pela ausência de casas de banho, pelas estranhas opções de iluminação e mobiliário, da Estrela ao Torel, do Príncipe Real à Graça.
Voltando ao Jardim da Estrela, este Verão, são vários os canteiros delimitados por fitas de plástico do departamento de Espaços Verdes da Câmara Municipal de Lisboa (CML), a entidade que o gere . Junto à entrada próxima da Basílica, um exército de plantas de folha longa parece cabelo por lavar, desgovernado e sem brilho. Mais à frente, onde um dia terá existido erva fresca e verde para estender a toalha, jaz um pedaço de terra árida e estéril. “Nota-se um esforço de intervenções cirúrgicas, aqui e ali. Mas falta uma visão mais ampla”, critica Nuno Prates, jardineiro autodidacta e autor da página The Lisboan Gardener, onde frequentemente critica a gestão dos espaços verdes da cidade, da poda das árvores à fraca aposta em arrefecer o ambiente.
Na Estrela, são várias as áreas de “solo muito compactado, cansado, que já não tem capacidade para absorver e em que a quantidade de plantas também não é suficiente para criar ali um ecossistema saudável”, analisa. Em vez de um espaço verde, está-se perante terra seca, com os amantes da Estrela aglomerando-se, sentados e deitados, nos dois ou três tapetes de erva que restam.
Além do desgaste do solo, o jardineiro acredita que também poderão estar em causa situações de “falta de rega ou má rega”. A alegada e crónica falta de recursos humanos e técnicos no departamento da autarquia tem sido um álibi para aquilo que muitos consideram desmazelo ou abandono.
Por outro lado, a frequência dos jardins aumentou exponencialmente nos últimos anos. “Culturalmente, não tínhamos o hábito de fazer piqueniques na relva.” A imigração e os nómadas digitais trouxeram isso, nota Nuno Prates. “Há uns oito ou dez anos, o Jardim da Estrela passou a ser um espaço com uma utilização intensiva, o que é óptimo. Mas isso trouxe uma pressão adicional a um tipo de relva que, ainda por cima, não era o adequado”, concorda Luís Newton, presidente da Junta de Freguesia da Estrela, que chegou a reivindicar a responsabilidade pela manutenção daquele espaço verde. Em reacção a esta elevada pressão, a CML desenvolveu recentemente sinalética específica "que alerta os utilizadores do jardim para alguns comportamentos inadequados", informa a autarquia.
“Há áreas que precisam de estar fechadas de tempos em tempos [para poderem regenerar]. Não há outra forma”, responde Nuno Prates, que também coloca a tónica no civismo. Em algumas cidades europeias, recorre-se a períodos de pousio mas “também há uma maior exigência em termos de cidadania”, defende. “Em Madrid, não há cães soltos nem se joga à bola nas áreas de erva. As multas são pesadas. Isto são tudo questões ambientais, e de gestão, mas também cívicas.”
Em vias de ser classificado como monumento nacional, o Jardim da Estrela viu aprovado em Maio um plano de reabilitação que inclui o coreto (está entaipado há meses, mas as obras ainda não começaram), o mobiliário urbano (alguns bancos foram danificados durante a Depressão Martinho, em Março), a biblioteca-quiosque (que muitas vezes está fechada e apresenta um estado de conservação longe do desejável), os dois lagos actualmente desactivados (que "apresentam há vários anos patologias que causam perdas de água", segundo a Câmara), as vedações e também as plantas. A manutenção, essa, tem de existir sempre.
Não muito longe, na mesma freguesia, chegamos à Tapada das Necessidades, idealizada no século XVIII para a realeza, classificada como imóvel de interesse público em 1983, em decadência há largos anos, mais de 20. A casa de banho pública está fechada (por vezes, encerram a porta, simplesmente; nesta visita da Time Out, em Julho, um papel exibe a palavra “avariado”. A CML explica que "a casa de banho encontra-se temporariamente encerrada para reparação, devido a problemas ocasionais na rede de saneamento e abastecimento de água da Tapada, que é antiga e por vezes sofre entupimentos ou avarias"), a torneira não deita água, há plantas secas um pouco por toda a parte e o pavimento é um xadrez de buracos, difícil de percorrer por um carrinho de bebé ou alguém com pouca mobilidade.
Das mudanças de gestão ao uso, o caso é sui generis. Resumidamente e ultrapassando alguns episódios, antes de o espaço passar a ser gerido pela CML (na prática em 1990, formalmente desde 2008), a reabilitação da Tapada esteve em cima da mesa do Governo, que delegaria a tarefa ao Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico (IGESPAR). Não aconteceu. Mais tarde, seria a Associação Portuguesa de Sítios e Jardins Históricos (APSJH) a recuperá-la “em troca” da cedência dos três edifícios da mata a Casa do Regalo, a Casa do Fresco e a Estufa Circular, conta a professora Maria Isabel Roque, no blogue a.muse.arte. Ficaria tudo pronto em 2015, mas o acordo não foi cumprido e o plano caiu.
Em 2015, precisamente, a Câmara decidiu abrir um concurso para a concessão do espaço. Ganhou uma empresa privada, da área da restauração, sendo que o projecto envolveria demolições, o acesso a automóveis, um novo restaurante e a construção de edifícios que muitos consideraram desenquadrados. Revolta popular. Em Fevereiro deste ano, deu-se um novo ponto de partida: a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou o montante de 19 milhões de euros (provenientes de taxas turísticas) para devolver, até 2028, à Tapada das Necessidades a sua glória.
A pergunta que resta é sobre o que tem sido feito, em termos de manutenção da área verde, enquanto as decisões políticas se tomam. Hoje, nos cerca de dez hectares do antigo parque da realeza, há esculturas sem cabeça e chafarizes apoderados por plantas rasteiras. Mas também a área vegetal, e portanto, viva, experiencia abandono.
“Há aqui duas situações: uma tem a ver com as infraestruturas, que estão abandonadas e que é preciso recuperar. E a segunda dimensão tem a ver com os caminhos, muito danificados. Agora, se se vai mexer na canalização, tem de se intervir nos caminhos. Não faz sentido melhorá-los antes. Em suma, nós queremos as pessoas a usar o espaço, mas é preciso prepará-lo primeiro”, enquadra à Time Out o presidente da Junta de Freguesia da Estrela, nos últimos meses de mandato.
Apesar de a gestão da Tapada ser da Câmara e não da Junta, Luís Newton reconhece que, sendo este parque uma mata, “toda a estrutura exige meios especializados”. “Não vou dizer que não há insuficiências, limitações ao nível da manutenção...”, reconhece, de forma contida, o autarca.
Na área relvada, há quem durma uma sesta ao sol e quem almoce da marmita. Se a essência da Tapada das Necessidades ainda lá está, falta o resto.
Uma turista ajeita a toalha com mestria. Não é fácil encontrar espaço vago, uniforme e macio no Jardim do Torel, um lugar “totalmente escondido” junto à Avenida da Liberdade, “que há uns anos ninguém conhecia”, nota Vasco Morgado, presidente da Junta de Freguesia de Santo António nos últimos 12 anos. O lugar esteve na sombra até ao advento da famosa Praia do Torel, em 2014. Depois, tudo mudou.
No lago tornado a “piscina urbana” de Agosto (até 2017) chegaram a mergulhar 80 mil pessoas num mês (50 era a lotação máxima). No seu lugar está agora um ovo azul onde miúdos jogam futebol (a CML informa que "está a ser avaliada a reparação dos lagos"). “É por razões de segurança”, explica Vasco Morgado. “Para evitar questões de saúde pública, decidimos vazá-lo no Verão”, detalha. Mas a explicação para o fim da Praia do Torel é outra. “Só em polícia gastávamos oito mil euros por mês. Tivemos de terminar, não havia verba. E sem polícia é impossível, porque as pessoas saltam para dentro de água, às vezes de sapatos e com a roupa que têm vestida. Tem a ver com o lugar, porque na Praça da Alegria, onde também há um lago grande, não temos esse problema”, conta.
Ao lado da ex-praia, o quiosque está ao abandono, há anos. Rabiscado, encosta-se a um canto onde crescem ervas e pouco mais. Coisa que vai mudar em breve, garante o presidente em fim de mandato, já que a Junta está prestes a lançar o concurso público para a exploração do espaço.
Olhando para a vegetação, o mesmo problema. Mostramos fotografias do espaço a Nuno Prates, que diagnostica o que ali aconteceu: cães sem trela criaram buracos, tornando difícil a vida das plantas e o crescimento de um tapete de erva uniforme. “Não tenho nada contra animais, obviamente. Tem sobretudo a ver com responsabilidade e ter um cão solto não é permitido. Neste tipo de espaços, até há situações em que estragam os sistemas de rega automática…”, aponta o jardineiro.
Por outro lado, indica uma dispersão excessiva dos exemplares vegetais pelo espaço, o que os enfraquece. “Os jardins têm uma função social, mas também ambiental. Muitos técnicos aprendem que têm de deixar 30 cm entre as plantas. Mas a densificação é uma estratégia que as torna mais fortes, porque elas criam sombras entre elas, ajudam-se umas às outras”, defende.
Outra questão é o facto de, durante meses, as plantas viverem em condições ideais num viveiro, protegidas do sol forte e com regas pormenorizadas, passando, de um momento para o outro, a ter de sobreviver na selva urbana, debelando-se com os ventos, o sol, as pessoas, os dejectos de animais e muito menos cuidados. “É um ambiente completamente diferente”, vinca Nuno.
Avançando para a colina da Graça, um dos mais recentes e frequentados jardins de Lisboa vive um problema distinto, que se tem intensificado. Também há pedaços de erva solta e grandes buracos na área central do Jardim da Cerca da Graça, um espaço cujo declive torna mais difícil a manutenção. Mas o que mais tem afastado pessoas do local, sobretudo famílias com crianças, assenta na falta de limpeza e riscos para a saúde pública, nesta zona com ligação directa a um dos principais pontos de tráfico e consumo de droga de Lisboa, a Mouraria.
São vários e frequentes os relatos de quem encontra seringas no parque infantil, existindo ainda várias tendas instaladas um pouco por todo o jardim (na visita da Time Out, contaram-se sete). Nas encostas do parque, por sua vez, o lixo acumula-se em vários formatos, de pedaços de roupa a bolas de pilates rebentadas. Questionada pela Time Out, a CML refere estar a par da situação, "procurando soluções sociais que dignifiquem as suas vidas". Quanto à manutenção e limpeza do espaço, afirma apenas que as operações são "recorrentes" e "coordenadas com equipas municipais e associações de cariz social".
Ao pedido de contacto da Time Out a Junta de Freguesia de São Vicente, área em que se situa o jardim, não respondeu. Já a CML explicou, em resposta à Time Out, que é responsável pela manutenção de 1.894 hectares (enquanto as juntas de freguesia asseguram a saúde de 344 hectares), em 861 locais da cidade. "Anteriormente, foi tomada uma opção de gestão de manter os espaços verdes em regime outsourcing. Neste momento, a CML está a reforçar as suas equipas de jardineiros para melhorar a resposta", informa a Câmara, detalhando que, este ano, "entraram 50 novos jardineiros e está aberto um concurso para mais 30".
“Todos os anos ando pela cidade e faço um levantamento do estado dos jardins de Lisboa. Tenho mais de 10 mil fotografias”, relata Nuno Prates. O estado actual destes espaços, defende o crítico, não é um problema do Verão, das temperaturas altas ou de uma eventual contenção de água (embora a autarquia tenha decidido suspender a rega em algumas áreas). “A filosofia não está correcta: dizerem que não têm recursos humanos suficientes e que os que existem precisam de acudir a outras situações mais urgentes... O que acontece é que não se considera os espaços verdes uma prioridade. Se forem bem cuidados, se tiverem o seu tempo de regeneração, se os terrenos forem bem preparados e enriquecidos, eles conseguem suportar períodos de stress”, defende o jardineiro, para quem o balanço final é este: “Há muita falta de manutenção”, sim, mas também “de brio”.
Notícia actualizada no dia 1 de Setembro de 2025, às 17.29, com as respostas da Câmara Municipal de Lisboa.
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