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Esta não-editora estreia-se com um livro filosófico (e cheio de estrelas)

Chama-se Cebola, é um atelier-loja e agora também um projecto editorial. Falámos com o responsável, o ilustrador Sérgio Condeço.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Sérgio Condeço
Sérgio Condeço | Eu sou uma estrela, de Ana Luísa Arcaro
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Estávamos em Maio de 2023 quando o ilustrador Sérgio Condeço decidiu plantar uma Cebola em Entrecampos, um atelier que também é uma loja, no espaço de uma antiga mercearia na Rua António Ferreira. Três anos depois, anuncia o primeiro livro da Cebola Edições, um projecto editorial sem qualquer estratégia, só a vontade de fazer nascer coisas bonitas de outras coisas bonitas. Com texto de Ana Luísa Arcaro, que o escreveu aos dez anos, Eu sou uma estrela é um álbum ilustrado “poético-filosófico”, para pôr pequenos e grandes a pensar no que é uma estrela, o que nos faz brilhar e o que fazer quando nos sentimos mais ‘apagados’.

“Não somos uma editora”, assegura Sérgio, que tem aberto o seu atelier a outros artistas, incluindo outros autores e ilustradores de livros para a infância, como Adélia Carvalho e Kiara Terra, com O Que É a Família?, ou Dora Santos Rosa e Felisbela Fonseca, que assinam Inácia, a Galinha Sindicalista. Claro que, entre posters e cerâmicas arrojadas (não, a Cebola não é uma loja para crianças, embora abrace o espírito curioso dos mais pequenos), também surgem os cerca de 17 títulos que o próprio Sérgio ilustrou, de O Som das Coisas Leves Quando Caem até ao novo É uma estrela, do qual também é editor – desconfiamos que prefira a palavra “pai”, no seu sentido mais afectivo, de quem cria e cuida.

A verdade é que não acordou um dia e pensou ‘vou criar uma editora’. O que aconteceu foi um acaso e remonta a Agosto do ano passado. Estava no Brasil, em casa de Ana Luísa Arcaro, quando a amiga “tomou coragem” – é a própria que o recorda – e lhe mostrou um recorte da Folhinha de São Paulo, com uma composição que escreveu aos dez anos e que a professora da escola primária acabou por enviar para publicação. “[O Sérgio] comoveu-se com a simplicidade da história, assim como com ‘a história da história’”, conta Ana Luísa Arcaro, que – apesar do gosto pela escrita e de ter chegado a cursar letras – exerceu advocacia durante 16 anos e é até hoje assistente de desembargador, no Tribunal Regional do Trabalho da 15.ª Região, em Campinas, São Paulo.

Ana Luísa Arcaro
DRAna Luísa Arcaro, no atelier-loja Cebola, em Lisboa

Meu pai, em um domingo, foi surpreendido com a publicação no tal periódico e emoldurou o recorte, que me foi oferecido assim que eu retornei de uma viagem de férias. Foi assim que o texto ficou eternizado, a despeito de o meu pai ter morrido exactamente um mês após a publicação. Mais tarde, já adulta, compreendi isso como um legado, hoje retribuído no formato de um livro, que encontrou o encantamento das ilustrações do Sérgio Condeço. Presentes e ‘orquestras’ da vida!”, partilha a autora, que o vai apresentar no sábado, 30 de Maio, às 17.00. Antes, Sérgio já teve oportunidade de o ler aos mais novos. Costuma dinamizar uma Hora do Conto todas as quartas-feiras, às 17.45.

“Não é necessariamente pedagógico – não tem essa linguagem, nem foi obviamente escrito com essa intenção –, mas é perfeito para explorar esta ideia de que todos somos estrelas e cada um de nós brilha de forma diferente. E que ser feliz às vezes é só brilhar, é só estar presente, é só estar em grupo e fazer parte do céu”, diz-nos Sérgio, que na hora de dar vida à história de Arcaro optou por produzir um livro cartonado e cruzou ilustração com fotografia. “Fotografei as pedras que costumo trazer das minhas viagens e transformei-as em pequenos planetas”, revela-nos. “Já as estrelas, procurei que não fossem todas iguais, que tivessem diferentes cores, diferentes espessuras, e que começassem pequeninas e fossem aumentando.”

Eu sou uma estrela
DREu sou uma estrela, de Ana Luísa Arcaro (texto) e Sérgio Condeço (ilustração)

O objectivo é que as crianças se questionem sobre igualdade, diferença e, acima de tudo, beleza interior. “Eu ficaria feliz se crianças e adultos percebessem, no livro e no contexto da sua origem, exactamente aquilo que meu pai me mostrou ao eternizar a história da menina que gostava de ser estrela, ou seja: não se apague! Não se deixe apagar! Todos temos nossas próprias luzes interiores. São elas que iluminam o melhor de nós”, procura lembrar Arcaro, que vai ter o seu livro à venda no Cebola, em Lisboa; na Papa-Livros, no Porto; e na Lar Doce Livro, em Angra do Heroísmo, nos Açores. Em breve, haverá também lançamento em São Paulo, promete Sérgio, que crê haver não só espaço como urgência para “livros mais filosóficos”, que provoque mais perguntas do que dê respostas.

“O que é ser uma estrela? Será que brilhamos todos os dias? Será que há dias em que estamos apagados? Se calhar estar apagado também pode ser importante, para deixarmos outras pessoas brilhar? Brilharmos todos juntos também pode ser muito bom, é o que faz um céu estrelado. O que é que nos faz felizes? Pode ser estar só na aldeia dos nossos pais, sentarmo-nos a olhar para o céu e percebermos ‘caramba, um céu tão estrelado’! Já nos esquecemos como é ver um céu tão brilhante”, provoca Sérgio, que já tem outro texto em mãos. 

“Escrever para crianças é extremamente difícil, muito mais difícil do que para adultos, mas descobri um autor que nunca publicou e me mandou vários textos, que li e disse ‘eu tenho de publicar isto’. E o que tenho vontade é precisamente de publicar autores que saiam desta lógica das grandes editoras, que têm sempre um objectivo comercial e dizem ‘agora vamos falar sobre isto, agora sobre aquilo’. Eu quero coisas simples, poéticas, que apelem à imaginação. A próxima história é sobre um robô que está no Espaço, a consertar satélites, e que, quando deixa de ser necessário, descobre que a sua bateria está a terminar e perde um parafuso, de que vai à procura.”

Eu sou uma estrela, de Ana Luísa Arcaro (texto) e Sérgio Condeço (ilustração). Cebola Edições. 12 pp. 15€ | Lançamento: Rua António Ferreira, 5 (Entrecampos). 30 Mai, Sáb 17.00.

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