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Sara Carinhas criou um espectáculo, Joana Botelho documentou o processo. ‘Estava Escuro na Barriga do Lobo’ estreia-se no DocLisboa a 21 de Outubro. É uma memória do que foi, e é também outra coisa, para mais tarde recordar.

Não é descabido dizer que Joana Botelho tem descoberto um certo prazer em perseguir lembranças (capturá-las, fazer sentido delas, recontá-las). Basta lembrar Coney Island – As Primeiras Vezes, uma pequena obra documental sobre memórias incompletas que lhe valeu o Prémio Sophia para Melhor Curta Metragem de Documentário, em 2024. Um ano depois, o seu novo filme, Estava Escuro na Barriga do Lobo, continua a falar-nos do acto de recordar, mas também o investiga como motor da criação.
O ponto de partida foi o espectáculo de Sara Carinhas Última Memória, estreado em Março de 2023, no Teatro São Luiz. Mas o filme de Joana é muito mais do que um making of tradicional: é um olhar cúmplice sobre as dúvidas e assombrações criativas de Sara, e é também a sua memória sobre os acontecimentos que documentou. A realizadora segue a actriz-encenadora nesse território entre o pensamento e o corpo, onde o teatro ainda é hipótese e a memória começa a inscrever-se.
“Este filme foi uma descoberta. A peça da Sara fala muito da memória e penso que essa temática também influenciou as minhas escolhas e a própria maneira de fazer. Às vezes lembramo-nos de coisas que, se calhar, não aconteceram bem como nos lembramos, e depois há uma música ou uma imagem que nos aponta o caminho. Mas, sinceramente, quando comecei, não fazia ideia do que viria a ser”, confessa Joana, que não costuma trabalhar com guiões. Para si, o cinema constrói-se muito mais do que se planeia.
Ao revisitar experiências – e as emoções, gestos e sons que as compõem –, tanto Sara como Joana transformam recordação em impulso para novas formas, deixando que o que foi vivido sirva de matéria-prima para o que ainda está por vir. “Acabei a explorar muito mais de onde é que as ideias vêm, que é muitas vezes da memória, porque é assim que a nossa cabeça funciona, que armazena e processa informação, e penso que isso é muito mais poético e interessante do que um making of convencional”, diz.
Primeiro foi filmando, depois sentou-se a reflectir no que, por um lado, aconteceu e, por outro, ficou registado. Já o tinha feito em Coney Island e não hesitou em ceder, mais uma vez, a essa espontaneidade. “É um processo que resolvo na montagem. Sinto-me confortável nesse lugar. Recentemente realizei outra curta onde escrevi primeiro o guião e não me sinto, de facto, tão à vontade”, admite. “Quando já está tudo escrito, não posso inventar muito. Ao contrário, há mais liberdade e o trabalho de som e mistura [de Gil Amado] também ajuda.”
Para Joana, a montagem é o que era escrever para Virginia Woolf: “como entrar numa sala escura e ter na mão uma lamparina para iluminar o que já lá está”. Coincidência ou não, essa ideia – de que não se começa com uma ideia “mas com vozes, cenas, objectos” – não só se evoca, como também se diz no próprio filme. As histórias vêm depois. Antes, o que lhes dá origem. A vida, no fundo; os pequenos momentos entre os grandes: o chão que se aspira, a plateia que se imagina, a toalha de mesa que se dobra, os cartazes que se imprimem, a música que se ouve, que se assobia, que se dança, as memórias disso tudo.
“Há sementes que vão ficando e o que tentei, como observadora, foi estar atenta a esses momentos, que depois fizessem sentido mostrar”, partilha. “Lembro-me da primeira vez que a Sara leu um poema, que é um poema que se ouve no filme, e o que se ouve é precisamente a primeira vez que ela o leu, e lembro-me perfeitamente de ter a sensação de ‘meu deus, isto está a andar para trás’, e ao mesmo tempo pensar que é um texto com o qual todos nos podemos identificar. Mesmo que seja sobre ela, também é sobre nós.”
Um espelho para o interior. É o que Joana espera ter conseguido criar. Foi, aliás, por isso, que procurou focar a câmara em Sara. “Comecei o meu trabalho só com ela e só depois chegou o resto da equipa, e a equipa está lá, no filme, mas fui bastante consciente em manter-me na cabeça dela, que não é a cabeça dela, é a minha, sobre o que eu vi”, explica. “Depois é engraçado porque não são as memórias da Sara, nem se vêem imagens do espectáculo que ela criou. É a minha memória sobre o que passou. Outra pessoa teria feito outro filme. Incluir stills, por exemplo, foi uma forma de assinar, de certa forma, porque já o fiz, e pensei que talvez quem estiver a ver possa pensar ‘ok, isto é um filme da Joana’.”
A estreia está marcada para terça-feira, 21 de Outubro, no DocLisboa. A proposta é um encontro invulgar entre cinema e palco: Sara Carinhas estará presente e fará uma pequena performance antes e depois da projecção. “Acredito que pessoas que viram o espectáculo, gostem do trabalho da Sara e tenham curiosidade pelo meu, vejam com mais facilidade, mas acho que o filme, apesar de tudo, funciona de forma independente. Espero que gostem, é uma sessão especial, para ficar de recordação”, diz Joana, antes de voltar à sala de montagem. “Agora é difícil pensar noutras coisas, porque tenho de terminar isto”, justifica, entre risos. “Preciso de fazer sentido do que aconteceu.” Não precisamos todos?
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