[category]
[title]
Os 50 anos da grande banda do metal britânico foram celebrados em Lisboa como se exigia, ao ataque, sem hesitações. O público, alegremente intergeracional, recebeu-os de braços abertos. Se o clube da casa fizer como eles, entreguem já as faixas de campeão.

O ambiente à volta do Estádio da Luz era quase de dia de jogo. Com algumas roulotes (não muitas) tanto no Alto dos Moinhos como junto ao Colombo, a multidão vestida a rigor, de camisolas negras inconfundíveis, começou a ocupar as imediações do recinto logo à hora de almoço e por ali foi ficando e engrossando fileiras até ao final da tarde, hora da abertura de portas para a catedral benfiquista. Mas quem ali estava não era adepto de futebol – ou, pelo menos, não era nessa condição que se apresentava. O motivo da romaria eram os Iron Maiden, banda seminal da New Wave of British Heavy Metal, que traziam a Lisboa a digressão dos 50 anos de carreira e que acabariam por demonstrar, pela enésima vez, que estão vivíssimos, sem queda para despedidas e que ainda se divertem a tocar ao vivo.
Ao entrar e ao descer as bancadas em direcção à zona do relvado, a imagem que se espraia diante de nós suga-nos imediatamente para um lugar de alegria e camaradagem, um lugar onde o vizinho não vai deixar de nos dizer que o estamos a pisar – olha aí, pá, cuidado – para depois nos abrir passagem com um palmadinha nas costas e sorriso aberto; um lugar onde o vizinho vem meter conversa só para reconhecer que os amigos nos estão a passar à frente na fila para o bar, para depois verter no nosso copo um terço da sua cerveja acabada de tirar e pagar, para aguentarmos a espera mais fresquinhos. E isto é reportagem na primeira pessoa (cumprimentos para o companheiro de Alvalade do Sado). Um público cheio de pessoas de outro tempo, com roupas de outro tempo, penteados de outro tempo, tatuagens de outro tempo, cigarros de outro tempo, amizades de outro tempo e filhos e netos de agora.
Entre as dezenas e dezenas de crianças e adolescentes de todas as idades, entre dezenas e dezenas de grupos de amigos em evidente reencontro, o Estádio da Luz tornou-se esta terça-feira num espaço de celebração e de memória, do que veio e já foi, e do que ainda está por vir. O ambiente dificilmente poderia ter sido mais festivo, mais familiar, mais apropriado à celebração a que se propunha e mais capaz de provar que os Iron Maiden não são uma banda perdida no tempo, mesmo com um alinhamento integralmente feito de temas editados entre 1980 e 1992 (dos nove primeiros discos, só o mal-amado No Prayer for the Dying ficou de fora). “Number of the Beast”, “2 Minutes to Midnight”, “Run to the Hills”, “The Trooper”, “Hallowed Be Thy Name”, “Fear of the Dark” e “Wasted Years” foram canções recebidas por um estádio de peito aberto e coração cheio. Esta multidão nunca foi triste.
Mas voltemos ao princípio. A banda de abertura era um luxo. Apenas dois dias depois de uma das “Big Four” do thrash metal ter frustrado os fãs portugueses ao cancelar o concerto em cima da hora, os Megadeth, no Evil Live, eis que outra dessas quatro bandas que definiram o subgénero, na América do início dos anos 1980, estava diante de nós. Eis os Anthrax. Joey Belladonna, Scott Ian, Frank Bello e Charlie Benante (e também Jon Donais, na última década) nunca atingiram os níveis de adesão dos outros três – Metallica, Megadeth e Slayer –, mas não deixam de ter fiéis a adorá-los e a divertirem-se com eles. No início, a maioria parecia aguardar pacientemente que terminassem, como se se tratasse de um banal espectáculo de abertura, para poderem finalmente ver as estrelas da noite. O facto de o vocalista nem saber em que cidade – em que país! – estava também não ajudou. Mas assim que Belladonna percebeu que estava em Lisboa, Portugal, foi como se tivesse passado o resto do concerto a compensar a confusão. E ainda bem. A actuação dos Anthrax foi num crescendo que acabou a levantar o estádio.
Quem estava em sintonia com a banda cantava desde o início, desenhava cornaduras com os dedinhos no ar e sorriso estampado no rosto, e ensaiava um headbang respeitável para quem sabia que o resultado de todo aquele desprendimento era acabar com uma dor na cervical para os próximos dias. Tudo bem, estava a valer a pena. Essa ligação entre o público e a banda, ou a memória da banda, era melhor do que a performance em si? Sim. E no entanto isso não é de somenos. Afinal, é precisamente o que se pretende de um concerto: a redução ao mínimo do que separa o povo dos seus ídolos, essa partilha, essa comunhão. Quem quer ouvir a melhor execução, o melhor som, a melhor versão de cada músico, pode ficar a ouvi-los em casa. A vida prossegue fora dessas cápsulas do tempo que são os discos e as ideias de juventude. Obrigado, Anthrax, pela sessão de terapia.
Como os Iron Maiden fizeram questão de nos recordar nas despedidas, já no fim de uma noite em cheio, passando uma gravação de um tema dos humoristas Monty Python, “always look on the bright side of life”. A lição é esta: a vida é um absurdo, uma merda, e vamos todos morrer, portanto divirtam-se enquanto dura. Pelo menos para quem esteve no Estádio da Luz, essa mensagem final não trazia nada de novo. Não se fez outra coisa nestas quatro horas de música. E se a sintonia com Anthrax se foi construindo, com Maiden foi absoluta. Ainda nas despedidas, o vocalista Bruce Dickinson disse convictamente que a banda voltaria a Portugal (onde é sempre bem recebida), como que a garantir aos fãs, embora também a si próprio, que isto não era uma despedida. “Até lá, tenham uma grande semana, um grande mês, um grande ano, uma grande vida. Vocês merecem!” Pois merecemos.
Sabemos que merecemos. E que aqueles que não estavam no estádio, mas que queriam ter estado, também merecem. Em “Number of The Beast”, a nossa primeira reacção, herege, foi escrever “aleluia” nas notas; a do nosso vizinho da frente foi ligar para o grupo da rapaziada para partilhar o momento. Um atende na cama, outro pára a mota na estrada, outros estão sabe-se lá onde, mas todos aproveitam o live caseiro e privado. Em cima do palco, um grupo de sexagenários e septuagenários com uma postura dedicada, dir-se-ia de artesãos de peças finas, contrastam com a agitação das bancadas. Vão dedilhando com uma mestria bem estudada as canções, uma após outra, sem falhas. Às tantas, damos por nós a pensar em como é que é possível essa postura tranquila, senhorial, casar com a sensação de galope permanente que perpassa o alinhamento. A resposta tem um nome: Steve Harris. Enquanto os outros se protegem e se chegam à frente à vez, como se funcionassem em rede (e funcionam), o baixista serve de espinha dorsal e, mesmo que de forma discreta, é a ele que devemos essa agitação permanente. Fica aqui a devida vénia.
Depois de “Run To The Hills” ter provocado uma satisfação instantânea na plateia, logo ao primeiro ao acorde (e que coro!), a banda fez uma maldade à casa que os recebeu: em “Seventh Son of a Seventh Son”, pintou a Luz de azul. Por outro lado, o Benfica bem pode aprender alguma coisa com este concerto (que acontece em plena pré-época): solidez, intensidade, vitória. É assim que ganha neste relvado. É essa a táctica. Se durante a próxima temporada o clube conseguir arrancar das bancadas um cântico em uníssono como o que nesta noite proporcionou “Wasted Years”, o mais provável é que a equipa esteja a fazer as coisas muito bem. Por agora, as faixas de campeão ficam para os Iron Maiden. O resto logo se vê.
📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn
Discover Time Out original video