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Com o fiasco Megadeth a pesar sobre o Evil Live, Marilyn Manson foi “dope”

Quando achávamos que os problemas de consciência seriam o principal estorvo no regresso do Evil Live à Meo Arena, Dave Mustaine decidiu cancelar em cima da hora o concerto de despedida de Megadeth em Portugal. Mastodon, Converge e Cavalera ficam na gaveta das boas memórias.

Hugo Torres
Escrito por
Hugo Torres
Director-adjunto, Time Out Portugal
Mastodon no Evil Live
DR | DR
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Conhecido por Marilyn Manson, a figura bizarra que construiu para a sua persona artística, Brian Warner está habituado a ser cancelado. Há cerca de 30 anos, quando ser cancelado ainda não se chamava assim e não era o tribunal popular da internet a decidir a sentença, que o músico se vê assim. Na altura, era a sociedade preocupada, os pais incrédulos com os heróis da juventude (curiosamente, hoje são as gerações mais velhas que não entendem que tudo seja passível de se tornar problemático). Warner era o anti-Cristo, um demónio, o responsável moral pelo massacre de Columbine (ele e os videojogos, nunca o fácil acesso a armas e uma cultura bélica inoculada na americana desde o berço). Era até o protagonista de um mito urbano que envolvia cirurgias de remoção de costelas e auto-suficiência sexual.

No entanto, o primeiro caso sério a envolvê-lo realmente não gerou a onda de indignação de outros tempos. Aconteceu em 2021, quando se viu a braços com acusações de violência e abuso pela actriz Evan Rachel Wood, com quem tinha mantido um relacionamento de alguns meses dez anos anos antes, e por outras mulheres. Os tribunais arquivaram a investigação, por falta de provas concludentes. Warner aceitou pagar centenas de milhares de dólares em custas judiciais e o caso foi encerrado. Sendo certo que culpa e absolvição não são conceitos auto-excludentes, o que parece inquestionável é que Warner não é flor que se cheire. Nisso é fácil de acreditar. Mas o lastro de décadas com meio mundo a olhá-lo de lado deu-lhe pele grossa e o caso judicial parece não o ter afectado em absoluto. Pelo menos em palco: continua provocador, intenso, lascivo, despudorado. Já não arrasta a multidão que acorreria para o ver noutra altura. Isso, sim, mudou. Mas foi ele que, perante uma multidão sem problemas de consciência com o ídolo imperfeito, salvou o Evil Live de um desfecho ainda mais soturno, após o cancelamento de última hora de Megadeth.

“I’m not fucking disposable”, gritou do palco da Meo Arena, ao final da noite deste domingo, abrindo caminho para “Disposable Teens”. A reacção dá-lhe claramente razão. Foi um dos dois temas de Holy Wood (In the Shadow of the Valley of Death) (2000) que trouxe a Lisboa – o outro foi “The Nobodies”. Manson centrou o espectáculo na segunda metade da década de 1990 e primeira da década de 2000, o seu auge. De Antichrist Superstar (1996) vieram “Angel With the Scabbed Wings” “Dried Up, Tied and Dead to the World”, a inevitável “The Beautiful People” e “Tourniquet”, canção em que o músico assume o seu papel de válvula de escape (“Take your hatred out on me/ Make your victim my head/ You never ever believed in me/ I am your tourniquet”), embora não lhe falte um toquezinho de vitimização. De Mechanical Animals (1998) vieram “Great Big White World” e o clássico “The Dope Show”, ao passo que de The Golden Age of Grotesque (2003) tocou “This Is the New Shit”  e “mOBSCENE”, dois momentos altos. No entanto, foi com “Sweet Dreams (Are Made of This)” que o pavilhão se entregou por completo – e bem. A última vez que tínhamos visto Marilyn Manson em Portugal tinha sido em 2003, em Alvalade. Estávamos convictos de que teria perdido qualidades. O que vimos ensinou-nos a deixar preconceitos idadistas em casa.

Manson subiu ao palco ligeiramente antes do previsto. Não foi pelos nossos lindos olhos. O concerto anterior, de Megadeth, foi cancelado em cima da hora, quando há muito que estava tudo pronto para os receber. Tínhamos nas notas uma brincadeirazinha: íamos dizer que não esperávamos tanto por um artista na Meo Arena desde Madonna, em 2023, e que Dave Mustaine e companhia, sabendo do gosto nacional por futebol, nos tinham deixado ver o arranque do Brasil-Noruega, ainda por cima com um início tão prometedor (o golo anulado aos noruegueses, a grande penalidade falhada pelos brasileiros). Mas o caso, afinal, não era para brincadeiras. Era assunto sério. Às 21.25, após 40 minutos de espera, a organização anunciou que a banda norte-americana, históricos do thrash metal, não iria actuar, remetendo explicações para mais tarde. Quando começaram a desmontar o palco, sem culpa nenhuma, os roadies foram vaiados, os copos começaram a voar, dois minutos depois taparam o palco com uma cortina e a vaia foi ainda maior. Não faltava na plateia quem, envergando camisolas de Megadeth, dissesse que ia pedir o dinheiro de volta. Outros, também vestidos a rigor para ouvir “Peace Sells”, “Symphony of Destruction” ou “Holy Wars... The Punishment Due”, permaneciam em silêncio, incrédulos. Incluindo jovens adolescentes. Dez minutos depois, o palco estava despido de qualquer vestígio de Megadeth e, acto contínuo, o cenário começou a ser montado para Marilyn Manson.

Esta deveria ser a despedida de Megadeth dos fãs portugueses. A banda tinha tocado aqui, neste mesmo pavilhão, neste mesmo festival, em 2024. Na altura, um concerto sem chama nem comunicação. Enquanto ainda estávamos a tentar perceber o que tinha acontecido para o concerto ser cancelado (a culpa começou por recair sobre uns vagos problemas técnicos, o que a banda confirmava num comunicado já durante o concerto de Manson), chegava-nos de Londres uma notícia com um extraordinário sentido de oportunidade: os Metallica tinham acabado de tocar no estádio de Stratford, casa do West Ham, “The Call of Ktulu”, instrumental que raramente integra os alinhamentos da banda. A parte curiosa é que este é o último tema composto em parceria com Dave Mustaine antes de este ser despedido, em 1983. O facto de ter integrado Ride The Lightning, álbum dos Metallica de 1984, irritou Mustaine, que reinventaria aquela sequência de acordes para criar um dos grandes sucessos de Megadeth: “Hangar 18”. O beef entre Mustaine e os antigos companheiros é provavelmente o mais conhecido no seio do metal, apesar de oficialmente ter sido dado como um capítulo fechado. Nesta tour, os Megadeth têm tocado uma versão de "Ride The Lightning", o tema que deu título ao referido disco, com o propósito de “fechar o ciclo”, nas palavras do próprio Mustaine. Não tivemos oportunidade de ouvir a sua versão.

Na banca do merchandising, a frustração pelo cancelamento virou-se contra os funcionários da loja, a Unkind. Os clientes exigiam a devolução do dinheiro pelas camisolas que haviam comprado apenas horas antes e as dificuldades ao balcão geraram até um episódio de ameaças e violência física. De uma forma mais geral, a ausência de Megadeth provocou uma situação inusitada para um festival: duas horas sem música ao vivo. Além de que muitos foram aqueles que abandonaram o recinto, dispensando assistir ao concerto de Marilyn Manson. No final da noite, abundavam fãs perdidos na sua decepção entre a Meo Arena e o centro comercial Vasco da Gama, com ar de quem ali estava há muito.

Já esta segunda-feira, a organização, a Prime Artists, informou que o concerto “não se realizou na sequência de uma decisão comunicada pelos representantes da banda, momentos antes da hora prevista para o início do espectáculo”. “Ao longo de todo o dia, a organização assegurou o cumprimento de todas as condições previstas para a realização da actuação e manteve total disponibilidade para colaborar com todas as equipas envolvidas, desenvolvendo todos os esforços no sentido de encontrar uma solução que permitisse a realização do concerto”, lê-se no comunicado da promotora. “Apesar dessas diligências, os representantes da banda mantiveram a decisão de cancelar a actuação.”

Mastodon no Evil Live
DRMastodon

Antes do fiasco Megadeth, a noite estava a correr bem. É certo que sem um grande afluência, com uma sala meio vazia, apesar de encurtada para dar uma sensação de maior proximidade. Os Mastodon deram um grande concerto. Mal entraram, ficámos com a sensação de que tínhamos chegado à primeira liga. O som abraçou o pavilhão e nunca mais o largou (ainda agora deve lá estar, a reverberar nas vigas de madeira da cobertura). Troy Sanders, com o seu ar de feiticeiro medieval, não é o frontman mais exuberante, nem precisa. Tem-nos na mão, na presa, na tromba, por onde quer que os mastodontes agarrassem as suas vítimas. “We fucking love to be in Portugal”, atirou. Pelo meio, houve espaço para apresentar o novo álbum com uma música dedicada ao malogrado Brent Hinds: “Your Ghost Again”. Contudo, quem conquistou a audiência foi o teclista brasileiro, João Nogueira, que garantiu a pés juntos que Lisboa é o melhor público que têm na Europa, listando os seus conhecimentos literários nacionais de seguida: Camões, Camilo, Pessoa, Eça. OK, João. Boas leituras. E depois? Depois rasgaram tudo com “Blood and Thunder”.

A propósito de grandes produções: os Converge provaram que cenários e luzes e guarda-roupa e caracterização não são, de todo, essenciais, para dar um concerto de antologia. Vamos abster-nos de transcrever toda a malcriação elogiosa que escrevinhamos nas notas, por uma questão de salubridade jornalística. Ao segundo tema, já um dos pratos da bateria tinha voado. As baquetas começaram a sair disparadas para a audiência a meio do set, a cortesia possível para uma banda de poucas falas e muito andamento. Os norte-americanos deram concerto a grande velocidade, sem tempo a perder, com a ferocidade que lhes é característica e da qual não abdicam. Benditos sejam. “Ainda estou aqui”, diz às tantas o vocalista Jacob Bannon, numa das pouquíssimas vezes em que se dirige ao público. Ainda estamos aqui. Aliás, com performances destas, estaremos aqui por muito, muito tempo.

The Converge no Evil Live
DRThe Converge

Uma banda de abertura pode calhar melhor ou pior a quem quer ver os cabeças-de-cartaz. Conseguimos pensar em algumas excepções, mas em princípio não é por elas que se vai a um festival. Ainda assim, os Converge dispensaram bem a condição de filler no cartaz, ao contrário dos antecessores, os neerlandeses The Gathering, cuja performance ecoou apenas junto de quem gosta da banda, e em particular de Mandylion (álbum de 1995 que o grupo anda a recuperar ao vivo pelos seus 30 anos), marcando a reunião com a vocalista Anneke van Giersbergen.

“Portugal, vamos detonar essa porra”

Este ano, o festival não só regressou ao Parque das Nações como reduziu o número de dias, de três em 2025 para apenas um em 2026. Mas o Evil Live teve direito a warm-up no sábado, na Sala Tejo, com saldo muito positivo – apesar do arranque. Os Okkultist abriram a noite, ainda com muita gente a chegar enquanto tocavam. A banda esforçou-se para dar um espectáculo à altura das circunstâncias, mas a massa disforme de som, no que pareceu ser uma forma de tentar disfarçar a falta de baixo com distorção, tornou muito difícil perceber um riff que fosse. Atitude não é tudo. Ao contrário de outras performances nacionais que já vimos no festival – com Gaerea, em 2025, à cabeça –, esta não ficará na memória.

Com Cavalera passou-se o oposto. Os irmãos Max e Iggor estão em grande forma, acompanhados em palco pelo filho mais novo do primeiro, Igor Amadeus Cavalera, no baixo, e Travis Stone, na guitarra principal. Vieram tocar Chaos A.D., um dos álbuns mais bem amados dos Sepultura, de 1993. Tocaram-no na íntegra, embora não pela ordem original. E acrescentaram três temas ao lote: duas versões de “Symptom of the Universe”, de Black Sabbath, e de “Polícia”, de Titãs, um dos momentos da noite, e ainda “Troops of Doom”, de Schizophrenia (1987), segundo álbum de Sepultura. Um presente para os fãs da velha guarda que os próprios Sepultura também ofereceram uma semana antes, não muito longe dali, no Parque Papa Francisco (a banda original optou por “Escape to the Void”). O que não fez parte da setlist foi “Ratamahatta”, mas isso não impediu Max de começar com uma referência directa ao tema: “Portugal, vamos detonar essa porra!” E detonaram.

O arranque mandou logo a casa abaixo: “Refuse/Resist”. Sorrisos por todo o lado, no palco e na plateia. Toda a gente a cantar do princípio ao fim. Que alegria! Que urgência! Que bonito de ver: o povo dança, balança, rodopia, entra no pit, a multidão esfuziante, uma bandeira do Brasil a esvoaçar lá pelo meio, cerveja a voar, Max a benzer o break da bateria do irmão, Iggor a mostrar como é que se faz isto de tocar música pesada (com um kit que não pertence a este palco menor da Sala Tejo, mas já lá vamos a essa conversa). Saltar? Não é preciso pedir duas vezes. Aliás, não é preciso pedir. Ainda por cima, alguém se lembrou de trazer um “ten ton hammer” insuflável para abençoar o regresso do festival ao Parque das Nações, depois de uma edição open air no ano passado, no Estádio do Restelo – e a nossa memória muscular desse concerto de Machine Head no Evil Live 2024 está bem fresca.

A propósito, não é por ser habitual que deixa de ser bonito um circle pit que aparenta estar tomado por um desvario absoluto a parar organicamente quando alguém vai ao chão e é preciso resgatá-lo. E as sequências de êxtase e catarse abundaram. Os momentos altos foram “Propaganda” (saudades dos tempos em que os conspiracionistas eram de esquerda), “Kaiowas”, “Biotech is Godzilla” e “Territory”. Poderia dizer-se que assim aconteceu sem surpresa, mas a verdade é que ver Max, sobretudo, com uma fome de palco quase juvenil não deixa de ser admirável. “Agora é que o bicho vai pegar”, disse o vocalista e guitarrista antes de “Territory”. Pegou mesmo. A sensação clara com que ficámos é, porventura, uma evidência: os irmãos Cavalera tocaram numa sala que não faz jus à sua dimensão. Se a passagem do tempo e os desentendimentos com os antigos companheiros de Sepultura tiveram algum efeito nocivo sobre eles foi este, o de acantonar duas figuraças do metal num lugar secundário que não é de todo o que lhes pertence.

No concerto dos cabeças-de-cartaz do warm-up, os norte-americanos Trivium, a notícia é que Toy, o nosso Toy, não compareceu. O cantor português fez-se ouvir nas colunas de som antes do concerto, mas, ao contrário de 2019, quando se juntou aos Trivium em palco para uma versão metaleira de “Coração Não Tem Idade (Vou Beijar)”, não apareceu em palco. Aconteceu no VOA, a vida passada deste Evil Live, igualmente na Meo Arena (na altura, Altice Arena). Com concertos neste mesmo dia em Águeda e Lousada (explicou-o nas redes sociais), Toy viu-se impedido de repetir o número este ano, para desalento de toda a gente. “Desta vez não pôde vir, mas manda todo o seu amor”, disse o vocalista e guitarrista Matt Heafy.

Com uma entrada a matar com “Pull Harder on the Strings of Your Martyr”, um dos primeiros êxitos da banda, o alinhamento tocou em grande parte da discografia dos Trivium, de Ascendancy (2005) a Shogun (2008), de In Waves (2011) a Vengeance Falls (2013), de Silence in the Snow (2015) a The Sin and the Sentence (2017) e a What the Dead Men Say (2020). Curiosamente, o álbum mais recente, In the Court of the Dragon (2021), muito bem recebido no geral, ficou de fora (ainda acalentámos a ideia de que poderíamos ouvir a versão que os Trivium fizeram de “Slave New World”, tema dos Sepultura incluído em Chaos A.D. e que os Cavalera haviam tocado na hora anterior, repetição que certamente seria bem-vinda na plateia, mas estávamos só a viajar na maionese).

A produção dos Trivium foi, sem dúvida, a maior da noite. Insistindo que havia uma única regra a cumprir (“toda a gente a mexer”), apresentaram-se com um intenso jogo de luzes, explosões de serpentinas e jactos de fogo (fica aqui o nosso agradecimento aos técnicos do ar condicionado da Sala Tejo, sem o seu valoroso trabalho não teríamos aguentado esta calorosa provação). Musicalmente, e voltando ao futebol, pareciam a França a jogar: entrosamento perfeito, imaculado, sempre ao ataque. O único problema deste concerto às dez da noite foi não termos trazido os óculos de sol. Isso e, mais uma vez, meia sala por encher – aliás, a julgar pela afluência, o Evil Live, que está claramente a passar por um processo de redefinição, precisa de fazer contas à vida e ponderar um formato mais aliciante.

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