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Rock in Rio Lisboa, dia 2, dia do rock: “Isto é ganda som, boy”

Os Linkin Park vieram picar o ponto ao Parque Tejo. No segundo dia do festival, a nossa devoção foi toda para Cypress Hill, Kaiser Chiefs e Blasted Mechanism. Já a frustração foi inteirinha para Sepultura.

Hugo Torres
Escrito por
Hugo Torres
Director-adjunto, Time Out Portugal
Linkin Park, Rock in Rio Lisboa
Lucas Coelho | Linkin Park
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Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um… O último concerto de Linkin Park em Portugal tinha sido em 2014, no Rock in Rio versão Parque da Bela Vista. A espera não acabou. No regresso ao festival como cabeça-de-cartaz do habitual dia dedicado ao rock, a banda californiana foi a única a começar fora de horas, para deixar as cerca de 90 mil pessoas que esgotaram o Parque Tejo desaguarem por completo diante do palco principal, gerações cruzadas, como é bom de ver, enquanto um relógio nos ecrãs gigantes fazia a contagem decrescente. Uma multidão de fãs pronta para um esconjuro colectivo, para fazer o luto de Chester Bennington, que morreu em 2017, ali, olhos nos olhos, verter umas lágrimas talvez, e aceitar por fim que a vida segue. Mas não foi bem assim – e ainda teremos muito que aguardar.

Tal como há mais de uma década, os Linkin Park dividiram o espectáculo em actos. Resultado? Intervalos dolorosamente longos e anti-climáticos entre canções. Estas, por sua vez, raramente levantaram voo. A expectativa era mesmo essa: que voassem, que fossem a catarse confessional que os Linkin Park têm inscrito no seu ADN e que os tornou uma das bandas inultrapassáveis do nu metal. Emily Armstrong não servirá de bode expiatório. Toda a banda estava em modo cumprimento de contrato e marcas de adesivo no palco. E no entanto a performance da vocalista que tomou o lugar de Chester não ajudou. “Crawling” é a primeira prova de que Emily está desconfortável a interpretar os temas do antecessor. Não ataca os temas, baixa a voz, estende o microfone ao público para que seja este a cantar.

“Papercut” e “In the end” sofreram do mesmo mal. Esta última exige uma contracena tensa entre Mike Shinoda e Emily, mas o parceiro de cena do rapper é o público e não é com pulinhos e gritinhos de alegria porque uma celebridade tocou na mão de alguém que o tema de Hybrid Theory chega aonde deve chegar. Em “A Place for My Head”, do mesmo disco – o disco da banda, editado em 2000 –, Emily libertou-se pela primeira vez numa canção da herança pesada que lhe caiu nas mãos. E que promissor! Em “IGYEIH”, do mais recente álbum, que já é seu, Emily rasga tudo de cima a baixo. Grande entrega. Tema seguinte? “One step closer” e estamos de volta à posição defensiva. “Numb”, idem. Os melhores momentos são aqueles em que perde – e bem – o respeito à memória de Chester.

“Heavy is the crown”, um dos novos temas (com uma leitura muito óbvia no seio da banda e, aparentemente, bastante certeira), volta a mostrar outra desenvoltura. Embora nem sempre pareça, pela reacção esfuziante do público aos temas mais antigos, do lado da banda as partes mais bem conseguidas do concerto são mesmo as canções upbeat de From Zero (2024). Por alguma razão insondável, os fãs até com “Burn it down”, de 2012, parecem agradados. A nostalgia exerce uma força que nem as óperas espaciais compreendem. E temos logo a seguir a contra-prova, quando assoma ao alinhamento um tema de Fort Minor, projecto paralelo de Shinoda (“a pedido da Emily”). Uma dupla de canções que parecem mais um período de espera (e são tantos). Em “Bleed it out”, de 2007, Emily já está em descompressão (abençoada) e acaba mesmo o tema com Whitney Houston (louvada seja). Para fechar, “Faint”. Podemos estar a alucinar, mas se isto não é Emily a libertar-se após quase duas horas de concerto… “Don’t turn your back on me, I won't be ignored// No, hear me out now/ You're gonna listen to me, like it or not”. Quem dera que tivesse sido sempre assim.

Há dois anos, os portugueses Hybrid Theory trouxeram as músicas de Linkin Park ao Rock in Rio. Agora, perante o real deal, o Parque Tejo não pareceu muito mais entusiasmado do que nessa noite de 2024. Com a diferença evidente do número de pessoas na audiência, o espectáculo – o único da noite com envergadura suficiente para não parecer perdido no enorme Palco Mundo – nunca chegou a passar de um alegre exercício sing-along. Por oposição a Emily, Mike Shinoda e a restante banda estão muito confortáveis nos seus papéis, demasiado confortáveis. Portanto, o problema está muito para lá da nova vocalista. A propósito, vale a pena recordar que Chester não era apenas uma grande voz, havia uma verdade existencial no que tinha para nos dizer, independentemente da avaliação que cada um fizesse da banda e da sua música. Não estamos a enaltecer o sofrimento – e não sabemos se Emily tem essa verdade dentro dela. O certo é que não a passa cá para fora. Mas nem precisa. Ouçam-se de novo os vídeos de telemóvel feitos em “Up from the bottom”: qualquer um será capaz de reconhecer na cantora uma segurança que se traduz naquele grão na voz, prestes a fugir para a rouquidão, que lhe dá toda a sua força, e que certamente lhe abriu as portas para um lugar na banda. É disso que precisamos na próxima visita.

“Vamos sentir a vossa falta”

Imediatamente antes de Linkin Park, estamos de mãos na cabeça. “Can you take it?/ Can you take it?/ Can you take it?/ Can you take it?” Não, Derrick, we can’t take it. Como é que o concerto de despedida em Portugal de uma das mais importantes bandas de metal do planeta (não é só do Brasil, Rock in Rio) acontece num palco secundário, com um alinhamento cronometrado, pensado para acabar no segundo em que os cabeças-de-cartaz da noite vão entrar em palco lado outro lado da mastodôntica tenda VIP? Os Sepultura mereciam outro cuidado, outro público, outro fim. A audiência começou a abandonar o palco Music Valley a meio do concerto, e cada vez em maior número, inclusive antes da assombrosa sequência final, com “Territory”, “Arise”, “Refuse/Resist”, “Ratamahatta” e “Roots Bloody Roots”. E já depois de a organização do festival ter decidido fazer o seu espectaculozinho de fogo-de-artifício a meio do concerto. Incompreensível. Desrespeitoso.

Sepultura, Rock in Rio Lisboa
Lucas CoelhoSepultura

Os Sepultura mereciam outra coisa. E mereciam também que os elementos da formação clássica estivessem à altura do próprio legado e tivessem chegado a um entendimento para se apresentarem condignamente: Andreas Kisser e Paulo Jr., que se mantêm na banda, e os irmãos Cavalera, que actuam no Evil Live dentro de duas semanas. Quando se diz que os Sepultura mereciam outra coisa, não se está a falar dos músicos que fazem parte da banda agora, é de tudo o que o nome Sepultura significa para a música pesada. Mais de 40 anos que a banda tentou celebrar em Lisboa, tal como o vem fazendo desde 2024, quando anunciou esta digressão de despedida. Até foram a “Escape to the Void”, de Schizophrenia (1987), com objectos voadores não identificados a sobrevoarem a multidão, à antiga, e a “Inner Self”, de Beneath the Remains (1989). Tocaram Arise (1991), Chaos A.D. (1993), Roots (1996), Kairos (2011) e o derradeiro EP, The Cloud of Unknowing (2026). Tudo certo, mas pouco.

Os Sepultura estão em boa forma (ou será, porventura, aquele assomo de vitalidade que precede a morte?). Por outro lado, se o vocalista, que por muitos anos que passem continua a ser “novo” vocalista, não tinha bigode e agora passou a ter, e esse bigode é grisalho, talvez esteja mesmo na hora da reforma. Inclusivamente para o mais jovem dos quatro, o baterista Greyson Nekrutman, de 24 anos, que apesar da tenra idade foi o que mais esteve em esforço (em “Arise”, julgamos tê-lo visto a pedir ajuda aos céus para chegar ao fim). Se Igor Cavalera não era uma hipótese, é uma pena que Eloy Casagrande (hoje nos Slipknot, uma proposta que não podia recusar) não tenha chegado até aqui. “We’re gonna miss you guys”, diz Derrick Green no final, já depois de um “puta que pariu” de Kisser. O público não quis saber, nem da oferta da praxe de baquetas e palhetas, atiradas para uma audiência minguante, em acelerada debandada para Linkin Park.

Voltemos a “Attitude”: “So in the end, I want to see some respect/ (I said) you better show some respect/ (I said) attitude and respect”. Ora bem. Um apontamento anedótico para a posteridade: grandson, um arrazoado mastigado e regurgitado dos anos de chumbo de 2000, que abriu o Palco Mundo, tinha o som mais alto – muito mais alto – do que Sepultura. Uma desgraça.

Um bocadinho de rock n’ roll

O dia começou com Tara Perdida (que não apanhámos) e com Dealema, que deram umas boas-vindas bastante familiares a quem chegava ao recinto numa tarde de intensíssimo calor. Ajudaram a engolir melhor as imperiais a cinco euros. Veio então grandson e foi como se tivéssemos descoberto que Brian Molko, dos Placebo, com aquela sua voz que nos agarra nos tímpanos e os aperta bem apertados (um fofo) tinha agora uma banda de metal. “God is an animal” ainda nos captou a atenção, mas fomos para a fila dos gelados. Depois ficamos pelo Palco Super Bock para ver Blasted Mechanism, ainda na ressaca dos concertos celebratórios dos 30 anos de banda. E o futurismo tribal dos lisboetas pareceu-nos muito mais autêntico do que aquele o tal “neto” a fazer música em terceira mão. Com máscaras de Namaste (2003) e Sound in Light (2007) no centro da mise-en-scène, continuam a parecer berberes que, numa viagem para a Índia, se apaixonaram por Adis Abeba – e por lá ficaram o suficiente para nos trazerem boas-novas.

Blasted Mechanism, Rock in Rio Lisboa
Gonçalo SilvaBlasted Mechanism

Será que Blasted Mechanism mereciam palco principal, ou assim é que é bom, com a multidão bem juntinha a dançar “Blasted empire” e “Sun goes down”? Ocupados nestes pensamentos, chegámos muito atrasados a Sam The Kid, que acompanhado dos Orelha Negra e de uma orquestra se preparava já para as despedidas, com “Poetas de karaoke”, perante uma generosa multidão. Só por este tema já valeu a viagem até ao Music Valley. Sam The Kid em grande forma.

Prosseguimos para o palco principal, onde The Pretty Reckless debutava nos palcos nacionais. A banda de Taylor Momsen, que há coisa de uma década prometeu vir a ser a próxima grande cena do rock, sem nunca cumprir essa expectativa, deu um concerto competente, dividindo o alinhamento por quatro dos seus cinco discos (ficou de fora Who You Selling For, de 2016). Compensaram com algum nervo o que lhes falta em originalidade (se bem que alguma dessa falta de originalidade, a que se pode ver como homenagem à grande Courtney Love – cabelo descolorado, vestido de noite – mereça o nosso aplauso).

De regresso ao palco Super Bock, um bocadinho de rock n’ roll. O diminutivo pode fazer parecer que é assim poucochinho e que não é digno de nota. Desenganem-se: quando tudo está tão redondinho, previsto, ideal, rigorosamente determinado, é com uma satisfação que carrega gerações que vemos Ricky Wilson, o vocalista dos Kaiser Chiefs, desatar a correr pelo corredor que separa o público diante do palco e subir a estrutura que protege a mesa de som, e depois a torre de iluminação. “I predict a riot”, diz ele. Promete e cumpre, já depois de ter posto toda a gente a cantar com “Everyday I love you less and less” e “Ruby”. “Isto é ganda som, boy”, ouve-se ao nosso lado. É mesmo. Durante muitos anos, os britânicos foram presença assídua em Portugal. Não vinham cá desde 2018. Está mal.

Kaiser Chiefs, Rock in Rio Lisboa
Gonçalo SilvaKaiser Chiefs

Os Kaiser Chiefs vão estar sempre no nosso coração. Fizeram parte do melhor festival de que há memória em Portugal: Paredes de Coura 2005 (e não estamos sozinhos nisto). Mas o quê que esperávamos de Kaiser Chiefs em 2026? Nada. O quê que eles deram? Tudo. E, com isso, só perto do fim nos decidimos a espreitar P.O.D., banda cristã de nu metal, muito apropriada para actuar num recinto que recebeu um Papa. Ponto prévio: nunca ninguém jamais em tempo algum ousou apodar os P.O.D. de banda cool, mas quando lá chegámos eram eles próprios quem estavam a incentivar um olé, olé, P-O-D. Triste. Logo depois veio um dos grandes êxitos: “Youth of the Nation”. A nossa companhia nota, dolorosamente, que é caricato ver tantas cabeças grisalhas a cantar que são a juventude da nação. “Alive”, uma explosão dentro e fora do palco, podia deixado uma boa memória. Mas lá vieram os olés… 

Cringe? Sim. E no entanto, pensando melhor, está tudo bem. O tempo passa por todos. Mais olheiras, menos cabelo, os rockeiros terão sempre um dia no Rock in Rio para se encontrarem e para combater fantasmas a entoar hinos de outrora. Este dia. A provar que as pessoas são de outro tempo, ainda há quem apareça nos ecrãs gigantes a fazer coraçõezinhos com as duas mãos – mas que raio, no peito dos desafinados também bate um coração, quem não domina a hermenêutica dos jovens também tem direito à diversão.

Olhemos para Cypress Hill. B-Real tem 56 anos. Sen Dog, 60. A idade é um número, pá! Que bonito ver o povo descer a colina para o Palco Mundo, ainda com alguma luz, a dançar ao som “How I could just kill a man”. A dançar? A tarraxar. “Welcome to the party, motherfuckers!”, dizem já depois da primeira sequência de temas, chamando os stoners para a pista do seu gangsta rap com mais de 30 anos de provas dadas, e sem problemas de convocarem outras antiguidades. “Hits from the bong” teve direito a sample de “The next episode”, de Dr. Dre e Snoop Dogg; houve cover integral de “Bombtrack”, dos Rage Against The Machine; os amigos Slayer também tiveram o sample habitual; e somos capazes de jurar de ter ouvido a voz de Ozzy lá pelo meio. “Can’t get the best of me”, “(Rock) Superstar” e a inevitável “Insane in the membrane” (olá, tiktokers, bem-vindos de novo à arqueologia musical) provam uma e outra vez a vitalidade do grupo, que parou o tema final, “Jump around”, de House of Pain, para permitir que uma pessoa que se sentiu mal fosse assistida. Afinal, ao contrário do que sugere a canção, podemos ter – tivemos – o melhor deles.

Cypress Hill, Rock in Rio Lisboa
André SaudadeCypress Hill

À segunda edição do Rock in Rio Lisboa no Parque Tejo, o recinto adaptou-se e consegue acomodar muito melhor as dezenas de milhares de pessoas que vão diariamente ao festival. Continuam a faltar sombras, embora os inúmeros pontos de água gratuita mereçam a devida vénia. Em sentido contrário, diametralmente contrário, vale a pena dizer que para um evento que tem como slogan “Por um mundo melhor”, em 2026 certamente que isso não significa queimar querosene sobre o estuário do Tejo numa demonstração de acrobacias de aeroplanos.

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