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Gravado com a London Symphony Orchestra e com colaborações de Björk, Carminho e Yves Tumor, ‘Lux’ é o quarto álbum de Rosalía. Neste guia, respondemos a todas as perguntas – e mais algumas – sobre este novo e épico trabalho.

Sim, todos ficámos boquiabertos quando ouvimos “Berghain”, a primeira música de Lux, o quarto e mais recente disco de Rosalía. Seja pela orquestração instrumental, pela temática religiosa, pela colaboração com Björk e Yves Tumor ou por a voz de “Saoko” estar a cantar em alemão. O certo é: ninguém ficou indiferente a este novo “delírio de grandeza” da artista catalã.
Já a ouvimos a explorar o flamenco e folk em Los Angéles (2017), a transcender os limites da tradição espanhola e da pop em El Mal Querer (2018) e a subir a batuta das possibilidades do reggaeton em Motomami (2022). No entanto, ainda não tínhamos ouvido com tanta proeminência estas influências da música erudita no seu trabalho.
A Time Out teve acesso a uma sessão de escuta pré-lançamento de Lux e, em vez de se estar a gabar, decidiu deixar aos leitores um guia com tudo aquilo que precisa de saber e que poderá ouvir neste disco. Se não se importa com os spoilers, esta leitura é para si.
Rosalía Vila Tobella nasceu em Sant Cugat del Vallès, na Catalunha, em 1992. É cantora, compositora, produtora e uma das figuras mais inovadoras da música contemporânea. Formou-se na Escola Superior de Música da Catalunha e começou por se destacar pela forma como reinventou o flamenco tradicional, misturando-o com géneros como R&B, pop, reggaeton e electrónica.
Cada lançamento desta artista é uma nova proposta estética e sonora – e Lux é, até agora, o seu projecto mais ambicioso. Depois de ter conquistado o mundo com Motomami e de ter colaborado com nomes como The Weeknd, Billie Eilish, Travis Scott e Bad Bunny, a artista regressa com uma proposta orquestral e conceptual quase inédita na música pop.
Sim. Este novo capítulo na carreira da artista mostra uma faceta mais complexa e arriscada ao promover um divórcio com a típica forma comercial de fazer música pop. Mas pode também estar apenas entusiasmado para ouvir as músicas novas.
Por enquanto, só pode ouvir "Berghain".
A data de lançamento é 7 de Novembro.
Há uma versão digital, com 15 faixas, e física. Esta última tem mais três canções, “Focu ‘ranni”, “Jeanne” e “Novia Robot”.
Antes de Lux, Rosalía lançou três álbuns de estúdio: Los Ángéles (2017), um registo minimalista e profundamente ligado ao flamenco e às suas guitarras; El Mal Querer (2018), a obra que a projectou para o estrelato internacional; e Motomami (2022), um manifesto que mistura reggaeton, jazz, electrónica experimental, bolero e música electrónica. Entre discos, colaborou lançou o EP RR (2023) com o ex-noivo, Rauw Alejandro.
Sim. Com o El Mal Querer conquistou a crítica e despertou a atenção de um grande número de fãs. Com o Motomami chegou a um número de fãs ainda maior e tornou-se viral com canções como “Despechá”. Quando esteve em Portugal a actuar em nome próprio, na MEO Arena, a sala parecia uma lata de sardinhas.
É um trabalho completamente diferente. Em El Mal Querer a tradição da música espanhola e as suas muitas vertentes foram reescritas com linguagens pop mais contemporâneas. Em Motomami percebemos que o reggaeton, com a dose certa de experimentação, consegue esticar-se e metamorfosear-se de forma a permitir expressar um grande arraial de sentimentos complexos. Em Lux, ouvimos apenas alguns rasgos desta tradição (as palmas servem muitas vezes como instrumento rítmico e temos uma rumba) e não cheiramos o reggaeton (ainda que haja uns quantos momentos de música electrónica e de influências de hyperpop).
Existe uma grande dimensão religiosa em Lux, mas é sobretudo simbólica. A artista usa imagens e referências da iconografia católica – como a luz divina, o arrependimento e a redenção – para falar de temas humanos como o desejo, a culpa, a fé, a carne e a espiritualidade feminina. Mas não é a primeira vez que estes sons e temas surgem na sua música. De recordar que, no final de “G3 N15”, de Motomami, a artista inclui na canção um áudio da avó a falar sobre a importância de Deus.
Sim.
No total, podemos ouvir Rosalía a cantar em 13 línguas. Espanhol, catalão, português, italiano, siciliano, francês, alemão, inglês, ucraniano, árabe, hebraico, latim e mandarim.
A sério.
Mais ou menos. A grande maioria das canções tem estes arranjos épicos, orquestrais e grandiosos. Por exemplo, “Sexo, Violencia y Llantas”, faixa que abre as hostilidades, é um tema pujante e que nos deixa em sentido, a sinalizar o que aí vem, tanto em termos instrumentais como temáticos. No entanto, existem também espaço para outros elementos mais modernos, como é o caso de “Reliquia”, onde o som angelical de violinos abre espaço para um delírio hyperpop.
Isso é subjectivo. Tudo dá para dançar.
Em 2018, assistimos a um grupo de pessoas a twerkar ao som de “Amanhã Tou Melhor” dos Capitão Fausto, por isso existe pessoas para tudo. Mas voltando a Lux... A maior parte dos arranjos pede uma contemplação atenta, existe uma grande camada de instrumentos e detalhes para prestar atenção. Mas também temos momentos em que Rosa parte para o rap, como em “Porcelana” ou “Dios es un Stalker”. “La Perla” é o momento mais descontraído e divertido do álbum, “Novia Robot” faz-nos recordar os momentos mais excêntricos de Motomami, e “La Rumba del Perdón”, a música mais assumidamente espanhola do álbum, EFECTIVAMENTE, dá para dançar.
É muito provável. Atenção a “Yugular” e “Memória”
Há.
"La Perla” é o momento em que este sentimento mais se destaca. Não só pela graça de muitos dos versos (falamos nisso mais à frente), mas porque, em dois momentos desta canção, Rosalía despe este véu de seriedade e conseguimos ouvi-la a rir-se na gravação (enquanto nos rimos com ela). “La Rumba del Perdon” é demasiado dançável para nos deixar tristes (ainda que aborde uma temática relacionada com o abandono).
Sim, é a “Novia Robot”. É nesta canção que a Rosalía canta em mandarim.
Lux foi gravado em colaboração com a London Symphony Orchestra, sob a direcção do compositor islandês Daníel Bjarnason, e inclui colaborações com Björk, Carminho, Yves Tumor, Estrella Morente e Sílvia Pérez Cruz. Participam também o coro infantil da Escolania de Montserrat e o Coro de Câmara do Palau de la Música Catalana.
Não nos lembramos bem, estávamos demasiado ocupados a chorar.
É impressionante. Rosalía canta num português (respeitável) sobre como às vezes as boas memórias nos pregam partidas e atraiçoam. Carminho continua a provar que é uma das melhores fadistas da actualidade, oferecendo intensidade e dramatismo ao álbum. Quando as duas vozes se cruzam em dueto é de arrepiar.
Diríamos que sim. Há muitas farpas para os ex-amores. Apesar de não ser proferido nenhum nome, alguém ficou com as orelhas a ferver depois de ouvir “La Perla” (“deviam construir-te um monumento para a infidelidade”) e “Reliquia” (“perdi o meu amor em Madrid”). Estamos a olhar para vocês, C. Tangana e Rauw Alejandro.
Há muitas opções. “La Perla” (como já devem ter percebido) foi uma das favoritas e tem muitos momentos memoráveis, mas deixamos-vos uma (em tradução livre): “Mereces a medalha de ouro olímpica de maior cabrão”. Menções honrosas para: “no soy una santa, pero estoy blessed”, em “Reliquia”; “Não tenho tempo para odiar Lúcifer”, em “Yugular”; e “Quando chorares, guarda a tua lágrima, lava a tua cara, independentemente do teu pecado”, em “Mio Cristo”.
O primeiro momento que nos vem à cabeça é o dueto e encontro de vozes de Rosalía e Carminho, em “Memória”. A ego trip em “Dios es un Stalker”, acompanhada pela linha “En tus sueños cazadora/ Una sniper, francotiradora”. A bizarria de “Novia Robot”. A parte em que se faz silêncio em “Berghain” e entra a voz de Björk. Rosalía a cantar a palavra “siempre” em “Mio Cristo”, quando a voz lhe falha, mas depois recupera com todas as forças.
Ainda não há datas para novos concertos. A última actuação ao vivo de Rosalía foi a 16 de Novembro de 2023, na cerimónia dos Grammy Latinos.
Este é um disco muito complexo, intenso e com muitas camadas. As letras são difíceis (e nem estamos a falar da questão de usarem 13 línguas) e os instrumentais fundem instrumentos orgânicos e analógicos com elementos digitais. Se não conseguir digerir tudo de uma vez ou se não gostar muito, não desista. Volte a ouvir, com atenção, de preferência com uns bons fones ou um bom sistema de som, com as letras à frente, e dedique a atenção que este trabalho merece.
Azar.
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