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A sala subterrânea da Estação de Metro do Terreiro do Paço é o ponto de partida para uma nova viagem em realidade virtual.

Não é a primeira vez que o Terreiro do Paço é palco de uma experiência imersiva. Desde Novembro do ano passado que a sala subterrânea da estação de metro serve de “portal” para uma viagem ao Antigo Egipto, em particular à Grande Pirâmide de Gizé. Mas agora há uma nova expedição em catálogo. Desenvolvida pelo estúdio Virtual Worlds e apresentada pela Fever, “Machu Picchu: Viagem à Cidade Perdida” transporta-nos até ao alto da Cordilheira dos Andes, acima do vale do rio Urubamba. A estreia faz-se esta quinta-feira, 18 de Junho, e os bilhetes já estão à venda online. Antes de colocar os óculos de realidade virtual, revelamos um pouco sobre o que vai encontrar.
Se enjoa facilmente, talvez queira repensar o programa. Caso contrário, esta aventura é para si. Como poderá imaginar, bastará colocar uns óculos imersivos para, de repente, estar noutro espaço e tempo. O mérito é todo da tecnologia de realidade virtual de grande escala e de uma narrativa cinematográfica, que recria paisagens, templos sagrados e antigos caminhos incas, permitindo aos visitantes explorar “a cidade perdida dos Incas”, a 2400 metros de altitude. Construída no início do século XV, por volta de 1420, sob as ordens do estadista e guerreiro Pachacuti, Machu Picchu é o maior símbolo do império Inca e uma das sete maravilhas do mundo moderno, estando também classificado como Património Mundial da UNESCO. Mas já lá vamos.
Tudo começa no que parece ser uma agência de viagens no tempo. Jessica, uma televisão falante, e TERI, um pequeno robô que voa, recebem os visitantes e prometem momentos inesquecíveis. Enquanto os ouvimos, é possível circular pela sala e admirar a decoração que, na realidade, não está lá. À nossa volta, vemos um vulto lilás – por cima da sua cabeça diz ‘Carolina’ e sabemos que é a nossa amiga, que faz parte do grupo que escolhemos criar à entrada –, mas também vários vultos brancos. Estes últimos não têm nomes e um círculo rodeia a cintura de cada um, para nos ajudar a manter a devida distância de segurança. São pessoas reais, a viver a mesma experiência, e se nos esticarmos para as alcançar, sentiremos os seus corpos. Fazemos o melhor para nos desviarmos.
Neste mundo virtual, há liberdade de movimentos, mas também um guia, o robô TERI, e linhas orientadoras, que nos indicam se estamos ou não perto de tropeçar num obstáculo real, como uma parede, ou de sair da experiência. Por exemplo, se ousarmos sair de uma sala pela janela ou saltar de um precipício, a ilusão quebra-se. Continuamos a ouvir o TERI a falar connosco, mas já não vemos o que é suposto vermos, temos de dar um passo atrás. Assim fazemos. Estamos no meio de uma ponte de pedra – as construções são todas de pedra, principalmente granito – e TERI explica-nos como a cidadela de Machu Picchu era um local sagrado de peregrinação, que servia de observatório astronómico e centro de culto aos deuses criadores.
A cosmovisão dos Incas merece destaque porque atravessa toda a experiência. A partir do conceito de Pacha (tempo-espaço), divide-se o universo em três planos interconectados, diz-nos TERI: o mundo celestial (Hanan Pacha), o mundo terreno (Kay Pacha) e o mundo subterrâneo (Ukhu Pacha). Cada um é casa de diferentes divindades, desde o deus criador Viracocha à mãe-terra Pachamama, e todos são passagem da chamada Trilogia Andina – a serpente, o puma e o condor. Vemo-los agora a sobrevoar, em forma de vultos, por cima das nossas cabeças, mas mais tarde, quando não estivermos à espera, vão parecer-nos muito mais reais. Por agora, é preciso continuar.
No total, a viagem dura cerca de 40 minutos e permite-nos explorar a antiga civilização inca, com construções em trapézio, a partir de rochas cortadas que encaixavam umas nas outras, pensadas para resistir aos terramotos, até ao sistema de drenagem e irrigação, já bastante avançado, que ajudava na distribuição da água potável e dos processos agrícolas. Pelo meio, não só descobrimos a importância das janelas e a forma como, no Templo do Sol, estão posicionadas de modo a permitir que nos solstícios a luz solar entre sem criar sombras, como temos oportunidade de entrar numa habitação inca e até assistir a um raro eclipse solar, o que para os incas era sinal de ira divina.
A interacção com os espaços é limitada – só podemos andar e olhar –, mas é fácil deixarmos cair o queixo e convencermo-nos de que poderíamos de facto estar nos Andes, a ver o voo de condores, uma das maiores aves voadoras do planeta, conhecida por planar por horas sem precisar de bater as asas. Ao fim de uns minutos, talvez até sintamos as pernas bambas de vermos as vistas a partir de terraços incas. Não faz mal, podemos sentar-nos e levantarmo-nos. A experiência – criada por mais de 50 engenheiros, a partir de acesso exclusivo ao Machu Picchu durante a pandemia, através de drones, fotogrametria e tecnologia óptica de detecção remota – é acessível para todos, a partir dos 12 anos de idade. Além disso, a organização também está a trabalhar para poder garantir acesso a pessoas com mobilidade reduzida.
“A experiência em si é acessível e nós também temos uma cadeira de rodas cá, até para pessoas mais idosas que não consigam aguentar 40 minutos em pé, mas não podemos assegurar que o elevador estará a funcionar, porque essa competência é do metro”, explica-nos Pedro Borges, site manager da Fever, que aproveita para nos deixar descansados: “As paredes são suaves de propósito, para não termos acidentes tristes e não estragarmos a experiência aos outros, mas os visitantes estão numa realidade completamente diferente e às vezes podem sentir tonturas. Claro que também há quem tenha pensamentos intrusivos [e queira experimentar atirar-se dos precipícios]. Curiosamente, o que tem mais piada não são essas pessoas, porque vistas de fora estão só a dar um passo em frente, mas as pessoas que andam mesmo muito devagarinho porque têm medo de cair. E isso é o que tem mais piada, perceber que as pessoas estão mesmo a sentir o que estão a viver.”
Sobre o futuro, Pedro antecipa uma nova aventura “de outro mundo”. Quem sabe se a próxima expedição não envolverá extraterrestres ou outras criaturas dignas de ficção científica ou fantasia. A inteligência artificial é o limite. “Que este modelo resultou? Resultou”, afirma. Afinal, desde que abriram a primeira experiência, já se venderam “cerca de 30 mil bilhetes”, com grande adesão de uma faixa etária mais velha, que não esperavam atrair, “por serem mais reticentes às tecnologias” – “O meu avô tem 86 anos e mobilidade reduzida, veio ver o Antigo Egipto de cadeira de rodas e adorou.” “Estamos cá para ficar.”
Sala Subterrânea da Estação de Metro do Terreiro do Paço. A partir de 18 Jun, vários horários. 15€-21€ (salvo descontos online)
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