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Na era mais veloz de sempre, o feito à mão (e sem pressa) marcou o ritmo da ModaLisboa

Béhen voltou a enaltecer o valor do feito à mão, enquanto o upcycling continua a ser uma das técnicas utilizadas pelos designers nacionais. Escolhemos estes e outros destaques da 66.ª edição da ModaLisboa.

Mauro Gonçalves
Escrito por
Mauro Gonçalves
Editor Executivo, Time Out Lisboa
Mafalda Simões, ModaLisboa, AW 26/27
Luís Miguel Fonseca | Mafalda Simões, vencedora do concurso Sangue Novo da ModaLisboa
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Durante três dias (de 13 a 15 de Março), a 66.ª edição da ModaLisboa permitiu medir o pulso à moda portuguesa. Foram 17 desfiles e apresentações, incluindo mais uma final do concurso Sangue Novo, cinco jovens designers da plataforma Workstation e nomes já consolidados na moda nacional. Muitos surgiram com as prioridades alinhadas. Entre as preocupações com a sustentabilidade e o trabalho árduo em torno de ofícios e labores, eis os destaques da última edição da ModaLisboa.

Mãos à obra

A assoalhada palaciana da Brotéria foi o cenário escolhido por Joana Duarte, fundadora e directora criativa da Béhen, para apresentar a colecção do próximo Outono/Inverno. Com apenas nove coordenados, a criadora voltou a afirmar a artesania como um dos pilares da marca. Entre bordados, contas, técnicas, remates, tecidos e fios, as peças exibiram a riqueza de labores manuais de aquém e além-fronteiras.

Béhen, ModaLisboa, AW 26/27
Alexandre AzevedoBéhen

O compasso foi o de um desfile de alta-costura parisiense, de meados do séculos passado – à semelhança do formato que já tinha sido escolhido na estação passado, quando se apresentou no último piso do MUDE. Com um extenso currículo em práticas de upcycling de toalhas e colchas, desta vez, Joana Duarte privilegiou materiais como o burel, entre outras lãs.

A par dos tecidos, também silhuetas e técnicas regionais portuguesas transitam para a contemporaneidade – na forma dos rabos de gato, remates em franja com lã de merino tradicionais de Nisa (onde também foi buscar o bordado em feltro), a aljibeira minhota, aqui bordada com missangas de vidro, ou as saias da Nazaré.

Ao mesmo tempo, o desfile revestiu-se de uma nova sobriedade. Em vez das silhuetas juvenis, minissaias e blusas cropped de estações anterior, a designer apostou sobretudo em calças e vestidos midi, sem nunca fugir ao preto e branco.

O encurtamento da distância entre manequins e público, dada a escala da sala, trouxe os detalhes mais para perto. Às técnicas do património bordadeiro português, Joana Duarte juntou uma outra, vinda de longe e há muito na mira da designer: o bordado de espelhos típico da região indiana de Gujarat. Não foram as peças que foram ao encontro das artesãs, mas sim o contrário. A marca colaborou com um colectivo de artesãs migrantes, sediado em Lisboa, o Homelore Project, no qual várias artesãs executam técnicas dos respectivos países de origem. Um brilho extraordinário, sim, mas também uma nova manualidade para juntar ao arquivo da Béhen.

Arndes, ModaLisboa, AW 26/27
Alexandre AzevedoArndes

Quem voltou a pôr mãos à obra foi Ana Rita de Sousa, a designer por trás da etiqueta Arndes. Mestre do upcycling, sobretudo pela via da reconstrução de peças, explorou desta vez uma nova técnica de reaproveitamento têxtil, ao recuperar manualmente seda danificada. Esfiar, cortar e coser – um trabalho de minúcia e também de paciência, recompensado pelo volume e movimento das peças finais.

A diversidade de materiais fala por si. Se os couros e as gangas são velhos conhecidos da criadora de moda, o amadurecimendo da marca levou-a agora a explorar novas matérias-primas. Em 18 coordenados – a maior colecção que apresentou até hoje –, brilharam também os tricots, em peças de conforto, suficientemente minimais para resistirem ao tempo.

Mafalda Simões, ModaLisboa, AW 26/27
Alexandre AzevedoMafalda Simões

A 66.ª edição da ModaLisboa também premiou novos talentos da ModaNacional. Na fase final do concurso Sangue Novo, destaque para Mafalda Simões, vencedora do Prémio ModaLisboa x IED - Istituto Europeo di Design. A importante conquista da jovem designer natural de Coimbra na noite de sexta-feira representou uma vitória do saber-fazer e da manualidade – a colecção, repleta de volumes e textura, era maioritariamente composta por peças e tricot e crochet. A habilidade e o pensamento criativo valeram à vencedora um ano de formação no IED Roma ou no IEAD Milano e ainda uma bolsa de 4000€.

Here comes your man

Em noite de Sangue Novo, houve mais do que uma vencedora. Ariana Orrico, outra das cinco finalistas do concurso, venceu o Prémio ModaLisboa x Burel Factory, que inclui uma residência criativa de um mês em Manteigas e uma bolsa de 1000€. Na passerelle do Pátio da Galé quis falar da masculinidade enquanto performance. No centro da colecção “Macho Alfa” esteve o couro, símbolo de virilidade, aqui aplicado a peças fora da norma e combinado com materiais mais fluidos, como as malhas e as rendas.

Num quadro em que a moda masculina tem assumido um novo relevo nas propostas dos designers nacional – não apenas em espaço no calendário de desfiles, mas também na diversidade de abordagens ao guarda-roupa masculino, outros criadores reforçaram o ênfase no menswear.

Ariana Orrico, ModaLisboa, AW 26/27
Alexandre AzevedoAriana Orrico

Na ModaLisboa, enquanto uma nova geração de designers tende a desmontar os padrões da moda masculina, outros deitam mãos a peças e silhuetas clássicas. No desfile de Gonçalo Peixoto, vimos peças de alfaiataria e camisaria entrar num léxico hiper feminino e de festa. Luís Carvalho voltou a trabalhar de forma exímia os moldes clássicos, marcando a diferença através dos detalhes.

ModaLisboa, Março 2026
Alexandre AzevedoÇal Pfungst, Gonçalo Peixoto e Luís Carvalho

Na plataforma Workstation, Çal Pfungst tem-no feito nas últimas estações. Ora inspirado por aspectos bucólicos do mundo rural, ou por ideais poéticos, o resultado passa muitas vezes pelo exagero de proporções e por uma certa teatralidade. No último fim-de-semana, fez desfilar folhos e mangas cheias de volume, veludos, fazenda e bombazine, numa colecção deliberadamente sem género.

Up up up

O aproveitamento de tecidos que já ninguém quer e a transformação de peças que já existem têm crescido em popularidade entre os designers portugueses. Desde a sua passagem pelo Sangue Novo que Bárbara Atanásio, nome que actualmente integra a plataforma Workstation, incorpora o upcycling, mas também o uso de materiais de dead stock no processo criativo. O resultado tem sido consistente, estação após estação: propostas de menswear fortemente marcadas pela estética grunge e uma exploração constante de novas técnicas e manipulações de tecidos.

Bárbara Atanásio, ModaLisboa, AW 26/27
Alexandre AzevedoBárbara Atanásio

Se as gangas são já uma imagem de marca da jovem designer, desta vez Atanásio submeteu este material a diferentes processos industriais de tingimento, nomeadamente de tingimento vegetal. Ao mesmo tempo que a marca ganha margem para produzir em série algumas das peças – mantendo sempre a pequena escala –, as novas técnicas possibilitam ganhos ecológicos, nomeadamente ao nível da poupança de água.

Dino Alves, ModaLisboa, AW 26/27
Alexandre AzevedoDino Alves x Humana

A sustentabilidade continua no topo da agenda da indústria e as lojas em segunda mão e vintage ganham terreno no mercado. Dino Alves, além da sua colecção Outono-Inverno 2026/27, apresentou na ModaLisboa uma colecção cápsula em colaboração com a Humana. A partir de peças em segunda mão, o designer criou novas silhuetas, reimaginando a roupa através de um processo de upcycling.

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