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É uma loja, mas também um café-bar e espaço de convívio. Fomos conhecer o negócio de José Janeiro, que também já chegou à Margem Sul e à aldeia de Lousa.

Quem está por dentro da comunidade de TCG – trading card games, para os leigos –, conhece bem a Mercadia. Em Lisboa, o negócio de José Janeiro abriu pela primeira vez há quatro anos, na Rua dos Arneiros. Mas a loja foi ficando pequena à medida que a clientela foi aumentando. Agora na Rua Cláudio Nunes, que está cortada ao trânsito entre a Rua Ernesto da Silva e a Estrada de Benfica, o jovem empreendedor espera continuar a promover um ambiente seguro e inclusivo para fãs dos oito aos 80 de coleccionáveis e jogos, como João Miranda, que é quem nos faz a visita à nova morada. O destaque, diz-nos, é o novo café-bar com esplanada, que estrearam por altura do Mundial, mas que entretanto também já foi palco de uma campanha de Dungeons & Dragons.
“Eu frequentava muito a morada original. Sou licenciado em audiovisual e multimédia e tinha acabado de terminar o curso quando o Janeiro me desafiou a criar conteúdos para a Mercadia”, revela-nos João Miranda, que é responsável pela gestão de redes sociais da marca. “Admiro muito o Janeiro. Ele só tem 33 anos e a forma como tem crescido o negócio é surpreendente, e é também por isso que me entusiasma acompanhá-lo e que não me importo de fazer piscinas. Vim agora de Palmela e custa-me, claro, mas ao mesmo tempo dá-me muito prazer, porque sinto que isto é a minha casa. E não sou só eu. Para muitas pessoas, a Mercadia é um espaço onde podemos ser nós próprios. Agora já nem tanto, mas há uns anos, jogar às cartas como adulto era visto como infantil.”
Para Miranda, jogar cartas é um passatempo como outro qualquer, como pintar ou ler. E, ao contrário do que se possa apregoar, não promove o isolamento. Na Mercadia, por exemplo, não só incentivam os clientes a ficar para jogar de forma livre – é possível entrar e experimentar diferentes jogos de forma gratuita ou levar de casa e aproveitar o espaço –, como também se organizam torneios de cartas coleccionáveis, que são anunciados semanalmente, em conjunto com o resto da agenda. Há ainda encontros para fãs de outros jogos de mesa, incluindo RPGs como Dungeons & Dragons. A maioria dos eventos realiza-se na cave, que está dividida em duas zonas e nos transporta para universos como O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien.
No piso superior, bastante iluminado, sobretudo numa zona com janelas a toda a volta, estão expostos todos os produtos à venda, que incluem ainda peluches, funko pops e até acessórios, de malas a chapéus temáticos. A franquia mais procurada, diz-nos Miranda, é a do Pokémon, que até tem direito a uma vitrine de coleccionáveis, com jogos que remontam a 1996, ano em que saiu o primeiro jogo para Game Boy, um conceito original de Satoshi Tajiri. A exportação para o resto do mundo aconteceu entre os anos 1998 e 2000 e foi um sucesso tão grande que deu origem a um fenómeno global sem precedentes, a que se deu o nome de “Pokémania”. Ainda hoje há novos lançamentos e, para quem já não se lembra, foi há seis anos, no Verão de 2016, que se deu a febre do Pokémon Go, um jogo de realidade aumentada desenvolvido pela Niantic, que pôs milhares de pessoas à caça pelas ruas da cidade.
“Não interessa se trabalhas no McDonald's ou se és médico ou advogado. Quando entramos aqui, somos todos iguais e gostamos todos do mesmo. Eu, por exemplo, não tinha um grupo com quem partilhar estes interesses específicos, e de repente tenho e já vamos todos a casa uns dos outros jogar. A verdade é que, quanto mais velhos ficamos, mais difícil é fazer amigos tão facilmente. Por isso é que é tão bom haver espaços como este, seguros e acolhedores, onde encontrar e criar comunidade”, partilha João Miranda. “Queremos muito abrir portas a gente de todas as idades, e até a pessoas um pouco mais cépticas. Eu adoro ver crianças a arrastar os pais e a partilhar as suas paixões. Mas também acontece o contrário, haver muitos adultos que trazem os filhos para lhes ensinar a jogar Pokémon.”
Entre ficar horas a jogar computador sozinho ou a fazer doom scrolling e ir para a Mercadia conviver, Miranda não tem dúvidas sobre qual das duas escolheria, e até arrisca dizer que os jogos de mesa também são educativos. Ensinam responsabilidade – porque é preciso cuidar dos materiais –, ensinam economia – porque alguns são muito caros e promovem trocas, como é o caso das cartas coleccionáveis, que podem custar milhares de euros –, e ensinam a interpretar, a raciocinar e a ser estratégico.
“Às vezes é preciso fazer puzzles na cabeça. Mas, mais importante, é preciso socializar”, remata Miranda. “Têm de estar juntos, olhar-se, interagir. Numa perspectiva intergeracional, também é muito benéfico. Os miúdos estão com os pais e sentem ‘os meus pais querem mesmo estar comigo, querem mesmo fazer isto comigo’. Eu já tive pessoas a dizer-me ‘eu agora posso trazer a minha mãe, podemos vir lanchar e jogar juntas’.”
O café-bar da Mercadia não tem cozinha, mas o menu inclui refeições quentes, que são confeccionadas fora e aquecidas no local no momento. No futuro, quem sabe, talvez José Janeiro abra uma Mercadia com restaurante. Segundo João Miranda, o céu é o limite. Além desta loja, há mais duas: uma na Margem Sul e outra na aldeia da Lousa, em Idanha-a-Nova, onde Janeiro vive.
Rua Cláudio Nunes, 17A (Benfica). Seg-Ter e Sex 10.00-00.00, Qua-Qui 10.00-20.00, Sáb-Dom 10.00-21.00
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