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A nova chancela da editora Vírgula d’Interrogação conta com coordenação da tradutora Elga Fontes. A ideia é contribuir para a diversidade do mercado editorial português.

A novidade foi anunciada na segunda-feira, 4 de Maio, pela editora Vírgula d’Interrogação, que tem procurado a “disrupção com a norma estabelecida” desde a sua fundação, em 2022. Depois da colaboração com o produtor de conteúdos e editor Filipe Heath, para a publicação de autores de comunidades marginalizadas, como Miss Major (Miss Major Fala: Conversas com uma revolucionária trans negra), anuncia-se agora a criação de Kiala, uma chancela dedicada à publicação e divulgação de livros escritos por pessoas negras para um público adulto e jovem adulto. A coordenação é da tradutora Elga Fontes.
“Foi uma proposta que apresentei à Diana Almeida, uma das directoras da Vírgula d’Interrogação, e era um projecto que já vinha a cultivar dentro de mim há algum tempo”, confessa Elga, que é fundadora da oficina editorial Quem Me Lera, promove o Clube de Leitura Antirracista – que visa “descolonizar as nossas leituras” – e tem tentado contribuir para um mercado literário mais diverso e inclusivo. “Não foi sequer planeado. Estávamos a ter uma reunião por causa de um outro livro que coordenei, A Criança no Sótão [da autora negra Lola Jaye].” Mas a oportunidade surgiu e Elga não a deixou passar.
A ideia, explica-nos, é trazer aos leitores narrativas que reflictam diferentes experiências, perspectivas e formas de imaginar o mundo, por um lado; e, por outro, contribuir para a criação e circulação de literatura negra em Portugal, dando visibilidade a autores cujas vozes têm sido sistematicamente desvalorizadas. “Qualquer leitor mais atento que vá a uma livraria constata que há uma grande lacuna na edição de autores negros em Portugal. A produção global existe, mas não está disponível nas prateleiras e isso é problemático, porque tem impacto na forma como lemos o mundo, nas histórias que reconhecemos como centrais e nas vozes que legitimamos.”

Com raízes no idioma kimbundu, uma língua Bantu de Angola, a terra-natal de Elga, a palavra ‘Kiala’ está frequentemente associada a “iluminar, trazer luz”. “Na verdade, culturalmente [noutras línguas Bantu] tem vários significados”, revela a tradutora. “Mas acho que isso pode jogar a nosso favor, no sentido de ter diferentes significados para diferentes pessoas/comunidades, porque quando se fala de literatura negra não se fala de um monólito – muito pelo contrário –, e para mim era importante termos um nome que não fosse neutro, que marcasse logo uma posição. De qualquer forma, foi escolhido a pensar nessa ideia de tornar visível.”
Por outro lado, assume também o compromisso de colaborar com profissionais negros em todas as etapas do processo editorial, da tradução e revisão ao design. “Até porque, se pensarmos na edição como um processo colectivo, percebemos que o livro é muito mais que apenas o autor, e todas essas etapas implicam decisões e leituras do mundo. Por isso, para mim era importante. Não trabalhamos só com profissionais negros, mas posso dizer que pelo menos metade da equipa é.” Nesse sentido, foi também criado um “guia de estilo”, que inclui termos a evitar, como a palavra “índio”, que deve ser substituída por “indígena”, “povos originários” ou “nativos”, ou “mulato”, “uma palavra extremamente ofensiva”. “Oferecemos como alternativa pessoa de ascendência mista, mestiça ou mesmo só pessoa negra”, partilha Elga, que tem experiência em leitura sensível em português.
“Portugal ainda tem muitas feridas abertas causadas pelo colonialismo e que, enquanto nação, nos recusamos a tratar e muitas vezes até a abordar, o que se reflecte em muitas vertentes da nossa vida, mas sobretudo na língua. Por exemplo, já traduzi um livro escrito por uma autora negra, com personagens negras, e a minha tradução depois passou por um revisor, e esse revisor acrescentou termos racistas à minha tradução – e atenção, eu acredito que ele não sabia que eram racistas. Mas não deixou de os adicionar, e isso não só me prejudica a mim enquanto profissional, sobretudo enquanto profissional que tem um posicionamento mais activista, como a pessoas negras que se queiram ver representadas e celebradas naquele livro e de repente se confrontam com uma agressão racista. E isso continua a acontecer porque as pessoas não procuram informar-se. Portanto, essa é uma das nossas maiores preocupações.”
Em 2026, publicam-se dois livros: um de não ficção e outro de ficção, ambos com blurbs (frases de recomendação na badana) escritos por personalidades negras de Portugal, “cuja voz, percurso e trabalho são incontornáveis no panorama cultural”, como Gisela Casimiro (artista e escritora, tendo assinado recentemente um episódio da nova série da RTP Novas Narrativas de Caça, uma antologia focada em experiências de pessoas negras e afrodescendentes), Rita Cruz (actriz e cantora, actualmente em cena no musical Sr. Engenheiro) e Inocência Mata (ensaísta e professora na FLUL, especialista em Literaturas Africanas, com um pós-doutoramento em Estudos Pós-Coloniais).
O primeiro lançamento – Feminismo na Periferia, de Mikki Kendall – está previsto para 27 de Maio. A capa original foi adaptada pela designer negra Inês Borges e o prefácio é assinado por Nuna, autora do primeiro livro infantil português com uma protagonista negra. “É uma crítica muito necessária ao movimento feminista dominante”, adianta. “Há tantos livros sobre feminismo editados em Portugal, mas quantos temos que estudem e analisem de uma perspectiva interseccional e se foque nas pessoas que o movimento feminista tem excluído ao longo dos anos?”
Segue-se, em Novembro, A Morte de Vivek Oji, de Akwaeke Emezi, uma obra de autoria não binária nigeriana, que nos convida a acompanhar as vidas de personagens que orbitam ao redor de Vivek, cuja morte é anunciada já no título, mas que só com o avançar da trama entenderemos como se deu e o que significa. “Fala muito sobre identidade, género e pertença, dentro de uma comunidade na Nigéria, pelo que também inclui muitos elementos culturais. Já a capa, que vai ser original, está a ser desenvolvida por uma outra designer negra, a Denise Santos, que também fez a paginação de Feminismo na Periferia.”
Se tudo correr bem, não está excluída a possibilidade de publicar também para o público infanto-juvenil, mas, para já, o foco mantém-se no público adulto e jovem adulto. Em 2027, estão previstos mais dois lançamentos, ambos traduções. “Infelizmente, e para grande desgosto meu e de muitos leitores portugueses, as editoras arriscam menos em autores nacionais. Portanto, antes de enveredarmos por aí, queremos conquistar a confiança dos leitores, para que saibam que, quando publicarmos um autor nacional, a obra foi escolhida a dedo, trabalhada com o maior cuidado e que vale a aposta”, afirma. “A longo prazo, o que queremos é um catálogo sólido e reconhecível, crescer não só em número de títulos publicados, mas em coerência, qualidade e, sobretudo, em presença junto dos leitores, e contribuir para que os autores negros deixem de ser vistos como uma excepção.”
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