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‘Cais do Sodré – Das Tavernas de Marinheiros à Revolução Jamaica e Tokyo’ relata a história da zona nascida fora da muralha. A Time Out conversou com um dos autores.

Podia ser um gato fugidio, que não se deixa apanhar. Mas é um bairro que nasceu marginal, sobre o qual "já era altura de contar a história e de fazer uma reflexão", relata João Macdonald, um dos autores do livro Cais do Sodré – Das Tavernas de Marinheiros à Revolução Jamaica e Tokyo, lançado a 15 de Janeiro pela Tinta da China. Além do registo, vindo de tardes na Biblioteca Nacional, entre muita imprensa local e imagens de arquivo e de agora, o livro "é uma forma de pensar Lisboa" nesta época de "hiperturistificação e especulação imobiliária", até porque o Sodré "é uma espécie de barómetro sobre o que se está a passar em toda a cidade", acredita o autor. Depois do adeus ao Tokyo, ao Jamaica, ao Europa e, mais recentemente, ao Lounge e ao Musicbox, como será a vida do Cais? O livro (apoiado pelo Tokyo e o Jamaica) termina com um texto chamado "sem conclusão", até porque os autores acreditam que num lugar que passou por muitas mudanças, ainda há muita tinta para rolar.
Mas a história pode ser ainda mais apetecível se formos lá atrás, ao mais universalmente desconhecido, começando na Idade Média, passando pelos revolucionários do século XIX, indo a poetas e marinheiros e culminando nas cabines de DJ. "A ideia foi do Luís Carlos Amaro [design] e do Carlos Ramadinha [produção], que estiveram desde os anos 80 muito ligados ao que ia acontecendo ali" e que, na antecâmara de Lisboa Capital da Cultura, em 1993, durante o mandato de Jorge Sampaio, "ficaram com a remodelação" do Cais, conta o historiador de arte.
Por remodelação entenda-se a saída da vida exclusivamente dedicada ao álcool e prostituição com o fomento de uma veia cultural. "Tentou-se dar ali uma energia semelhante à movida madrilena, na altura em que o Miguel Portas programou as Festas de Lisboa", enquadra Macdonald, que sublinha "a verdadeira transformação" do Cais a partir dos anos 70, quando também ali se fixou, na cabine de DJ do Jamaica, Mário Dias, protagonizando o adeus aos slows do engate e o olá a Patti Smith, Bauhaus, Sex Pistols, Nina Hagen, Trovante ou Rádio Macau.
Mas "a história é antiga", faz novamente recuar o investigador. O Cais do Sodré sempre foi "uma espécie da cidade dentro da cidade". Não que tivesse as suas próprias leis, mas sim um código de conduta que permitia fechar os olhos a actividades ilícitas no papel, até porque nasceu (com o nome de Remolares, tal como a rua e a travessa que ainda lá estão), "fora da muralha, zona de maior protecção e vigilância – o que já diz algo sobre a natureza do lugar", como está descrito no livro. De praia a área de despejo de dejectos, a zona tornou-se "infecta", dando lugar ao aterro que seria a rampa de lançamento do Sodré e do seu cais, onde atracavam marinheiros, embaixadores, negociantes e altas patentes militares. "Houve sempre muitos estrangeiros a habitar a zona, ainda no século XVII, formando um cacharolete social interessante", contextualiza o autor.
E o que é que qualquer bairro deve ter para se tornar chamariz? Comida e bebida. Acelerando até aos séculos XVIII e XIX, no Sodré abriram cafés e restaurantes (Leão de Ouro, Café Grego) que se tornaram "espaços de grande discussão política, contra a monarquia absoluta", onde se reuniam golpistas e propagandistas de diferentes origens, e lojas maçónicas das comunidades irlandesa ou francesa. Sedimentaram-se também lugares míticos como a Adega dos Macacos (frequentada por Bocage), que funcionou desde o século XVIII até 2015, ou o Botequim do Caraças, "onde também se deu o começo do fado, numa altura em que era dançado".
No capítulo "Pancadas e navalhadas", quase parece que estamos nos actuais anos 20 a evidenciar a "desordem" e os "muitos roubos" na zona, associados à vida taberneira. Mas, além das tabernas e das tascas, no Sodré surgiu alguma da primeira restauração de alto gabarito da capital, como o Marrare ou o Espanhol. Neste último, fez as delícias a muitos, como Almeida Garrett ou Alexandre Herculano, a inspiração francesa do cozinheiro João da Matta. Já na segunda metade do século XIX, multiplicaram-se os hotéis, do Central ao Bragança, este último onde José Saramago decidiu hospedar ficcionalmente o protagonista de O Ano da Morte de Ricardo Reis.
Começamos a entrar numa certa familiaridade quando, no século XX, surgem figuras como Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, José Cardoso Pires, Mário Cesariny ou António José Forte a habitar espaços como o Café Royal (1904-1959/60) e os novos estabelecimentos dominados pelo serviço ao balcão, como o English Bar, o British Bar (ainda vivo) ou o Bar Americano, que dotaram o Cais de um culto e ritmo próprios, ausentes de outros bairros de Lisboa.
À procura de ainda mais velocidade, talvez, não tardariam a chegar os espaços com pista, como o Europa (1947-2021) ou o mítico Texas Bar (fundado em 1950 e substituído em 2006 pelo Musicbox, que no ano passado trocou o Sodré pelo Beato, em modo Casa Capitão), vindos à tona com a contribuição de arquitectos reconhecidos, como Raul Lino, que davam uma nova aura e prestígio ao Cais. Nos pisos de cima, porém, as "pensões" mantinham o negócio da prostituição e nas ruas o tráfico de droga. Viriam ainda completar o leque o Tamisa (1968, mais tarde transformado em Tokyo, onde Vítor Fernandes passou Prince, The Cure ou Iggy Pop) e o Jamaica (1971), assumindo também o epicentro da vida nocturna, cultural e dançante do Cais, por onde passaram artistas como os UHF, António Variações, Adriano Correia de Oliveira, Xutos & Pontapés ou os britânicos The Clash.
De Cais do Sodré fazem parte não apenas a linha histórica mas também várias pérolas, como o facto de a cave do Roterdão (ainda vivo) ter "convenientemente" recebido a segunda exposição no país do então polémico Robert Mapplethorpe ou de Slash, o guitarrista dos Guns N'Roses, ter ficado "maluco" com a canja de galinha do restaurante Rio Grande, o mesmo sítio onde Mário Soares fugia da PIDE, escapulindo-se para a carvoaria do estabelecimento. Pelo meio, há muito justos in memoriam, como a Casa Cid (1913-2020), onde se comia feijoada e choco frito às seis da manhã, ou o recém-falecido Lounge, cujo fim deixou sem pista muitos lisboetas. Pela concentração em quase 200 páginas, tudo ajuda a situar o que pode ser a vida de uma cidade.
Macdonald, ainda assim, não se deixa escorregar em leites derramados. "É possível, ainda, fazer um circuito por um pouco do Sodré do passado", diz o autor, mencionando os restaurantes Rio Grande e Solar do Kadete e o British Bar, e lembrando "ilhas" recentes como o Tabernáculo, de Hernâni Miguel. "O Sodré pode estar cansativo, mas não está extinto", afirma, apontando até para a expansão dos últimos anos para o Cais do Gás (a toda a zona o autor gosta de chamar o grande Sodré), onde estão o Jamaica, o Tokyo ou o Titanic Sur Mer, e onde se deverá instalar o Europa.
Além de João Macdonald, escreveu também o livro a jornalista Guiomar Belo Marques (responsável pela parte entre 1974 e 1993), com a vantagem de ter experienciado em primeira pessoa a efervescência dos anos 80. A acompanhar o texto, as muitas imagens contam como exploração profunda da zona, com o trabalho de Jorge Nogueira nos anos 90, as "ruas dissolutas" retratadas por Luís Pavão nos anos 80 e as fotografias recentes de Pietá Magalhães, mas também o arquivo da extinta Agência Valverde, "que tem documentos preciosíssimos do Europa e do Atlântico Bar nos anos 50". Como nota Macdonald, é "impressionante como o Sodré desde há muito interessa a desenhadores, pintores, fotógrafos, e continua a interessar".
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