“O Musicbox é um club. A Casa Capitão é uma casa onde cabem vários clubs”, sintetiza Gonçalo Riscado, gestor cultural, programador e um dos responsáveis por ambos os espaços. “Não quero complicar a explicação. Percebeste a ideia?”
Depois de uma primeira entrevista com o director da CTL – Cultural Trend Lisbon, ficámos a pensar que a nova Casa Capitão seria um projecto megalómano (e melómano) com potencial para mudar a noite e o circuito musical de Lisboa, na sequência do encerramento do Musicbox, a 15 de Setembro. Quando visitámos o espaço – apesar de ainda estar em obras – não só percebemos o que Gonçalo queria dizer como ficou claro que a nossa imaginação não tinha alcançado a dimensão do que se está a fazer no Beato.
Com quatro pisos, cada um com uma proposta diferente de programação, um palco maior do que aquele que estava montado na sala de espectáculos da rua cor-de-rosa, uma agenda que vai além da música ou um restaurante com Bernardo Agrela ao leme, a Casa Capitão é um projecto muito ambicioso. Mas vamos por partes.
Como chegámos até aqui?
O Musicbox foi um club no Cais do Sodré fundado em 2006 por Gonçalo Riscado e Alexandre Cortez, dos Rádio Macau. Serviu de ponto de encontro para várias gerações de adeptos de música alternativa em Lisboa e deu palco a todo o tipo de bandas portuguesas (desde projectos emergentes a nomes consolidados) e a artistas internacionais, assim como a uma proposta de clubbing mais arrojada.
O espaço era gerido pela CTL, que durante a pandemia, devido às restrições de saúde pública, criou um novo projecto: a Casa do Capitão. Em formato pop-up, este local, situado na Rua do Grilo 119, no Beato – nas “costas” do então Hub Criativo do Beato (hoje Beato Innovation District) –, permitiu manter uma programação regular enquanto grande parte do mundo se encontrava em confinamento. O afrouxamento das limitações e a reabertura do Musicbox acabariam por ditar, como previsto, o seu fim. No entanto, o leque de possibilidades que a Casa Capitão permitia nunca abandonou o pensamento de Gonçalo.
“A ideia da Casa Capitão está a marinar há nove anos na cabeça. É um desejo antigo”, diz-nos o seu fundador. “Queríamos ter este espaço de contacto com o público em permanência. Um espaço que não é só para convívio, mas para debate crítico com os teus amigos, com as pessoas que vais conhecendo. Em que a programação cultural tem permanência e que pudesse ir a várias áreas artísticas e diferentes idades. O Musicbox é incrível, mas é limitado em termos de horários e de áreas de intervenção. Por isso é que estamos a trabalhar há bastante tempo neste local e, finalmente, vai aparecer”, confessa.
O que esperar da Casa Capitão?
A nova Casa Capitão é diferente do Musicbox, mas também da própria Casa Capitão que conhecemos há uns anos. Agora, são quatro os espaços que vão receber programação: o rés-do-chão, o primeiro andar, o sótão e a cave.
O rés-do-chão vai acolher a principal sala de espectáculos. “É maior do que o Musicbox”, afiança Gonçalo. No dia da visita, que aconteceu a 9 de Setembro (dez dias antes da inauguração), equipados com chapéus de segurança, conseguimos comprovar isso mesmo. “Vai dar para 400 pessoas e tem um palco maior que pode subir e descer, portanto, podemos ter a sala com o palco ao nível do chão, o que aumenta a lotação para a programação de clubbing”, descreve. Esta distinção entre a programação de concertos e de sets de música electrónica é algo que já existia no Musicbox – no Beato, esta última surge com o nome “Baile”.
Subindo um lance de escadas – com cuidado para não atrapalharmos o trabalho dos construtores – chegámos ao primeiro andar, onde vai funcionar a “Mesa”. Neste espaço funcionará um restaurante-bar e um quiosque que vai vender livros, acolher debates, apresentações, e terá ainda espaço para artes plásticas, performances, workshops ou projecções de vídeo e filmes.
Do lado de fora desta sala está ainda o pátio, um local que será familiar a quem visitou o espaço durante a pandemia (ainda que esteja remodelado e com mais espaço), uma vez que era aqui que aconteciam os concertos. Este terraço vai continuar a servir este propósito, ainda que para performances mais intimistas, que vão decorrer num mini auditório, cumprindo uma função que estava em falta no Musicbox: garantirá um espaço onde possa existir convívio entre os frequentadores deste espaço. “O Musicbox era o club onde ouvias música e dançavas. Não era um espaço de encontro, debate e discussão. A Casa do Capitão vai permitir isso”. Além disto, existe aqui o Unicorn Stage, um auditório (embora não esteja ligado à Casa, está situado neste pátio) que receberá conferências e concertos (nomeadamente, do festival MIL) e cuja programação será pensada entre a Casa Capitão e o Beato Innovation District.
No topo da Casa está o sótão. Se, habitualmente, é neste desvão que guardamos as tralhas velhas para ficarem a ganhar pó, aqui será o oposto. Apesar de ser mais pequeno do que o rés-do-chão, vai ter capacidade para acolher concertos para 120 pessoas e eventos de clubbing gratuitos para 150 pessoas. Além disso, também estará pronto para receber conferências ou projecções de cinema.
Por fim, existem as galerias, de longe o espaço que precisa de mais intervenção, mas que também só irá abrir ao público mais para o final do ano. Gonçalo mostrou-nos esta cave e explicou como vai aproveitar as três galerias subterrâneas que já estavam construídos e (supostamente) criavam uma ligação entre a antiga Manutenção Militar e o Convento do Grilo. Além de servir para área técnica, vai receber residências artísticas e funcionará mais na área da performance e artes cénicas.
“E é isto a Casa Capitão”, conclui. “É muita coisa”. Assentimos.
E para picar?
A dimensão gastronómica era algo que a equipa da CTL queria explorar há bastante tempo. Contudo, no Musicbox era impossível. Agora, graças à Mesa, o programa gastronómico da Casa Capitão, a comida vai encontrar um lugar (e sentar-se) ao lado da cultura.
A cozinha vai estar sob a alçada do chef Bernardo Agrela, que trabalhou como chef executivo do Cave 23, lançou o East/West Mambo, primeiro restaurante de kebabs modernos em Lisboa, e é criador o projecto Frangos do Além.
O plano é acontecerem eventos semanais através de rubricas que reforçam o conceito e a identidade desta marca. Por exemplo, às terças-feiras, acontece o “Como em Casa”, em que o chef convida outros cozinheiros para recriar menus. O jantar funciona mediante um bilhete, tal como num concerto, com o objectivo de reforçar a ideia de que a gastronomia também é um espectáculo e uma experiência colectiva. Outro momento será o “Bernardices”, um espaço de liberdade total para o chef experimentar na criação de receitas e na elaboração dos menus. Também aqui há a presença de um convidado e é necessário comprar um bilhete.
Mas não pense que são só eventos especiais. A Casa Capitão vai ter um menu diário centrado em duas palavras: “sandes” e “conforto”. As sandes vão ser feitas em papos-secos produzidos na própria cozinha e com diversos tipos de recheios. O conforto dará a opção de comer apenas o recheio, sem o pão e com acompanhamentos.
Outra das propostas é a Marmita. Disponível de segunda a sexta-feira, ao almoço, esta sugestão quer assumir-se como a “comida do trabalhador”. Uma refeição prática, habitualmente com opção vegetariana, disponível entre as 12.00 e as 15.00, para comer na Casa ou levar. Ao fim-de-semana, o menu também altera. Aos sábados, pode comer churrasco no terraço e, aos domingos, pode contar com uma feijoada acompanhada por uma roda de samba.
O objectivo é manter a cozinha aberta noite fora, ainda que num menu reduzido, disponível entre a meia-noite e as 03.00. Além disso, pode comer nos diferentes espaços da Casa Capitão: o primeiro andar funcionará como um restaurante, com mesa posta e serviço de mesa; já no terraço existe um balcão onde se poderá servir e comer ao ar livre. Os preços de tudo isto ainda estão por decidir.
Uma noite nova
Com todas estas diferentes dimensões, o objectivo é que a Casa Capitão funcione de dia e noite e para todo o tipo de públicos. “Queremos muito desconstruir a ideia que os concertos só podem acontecer à noite”, diz Gonçalo. “Porque não às 11 da manhã de sábado, quando podemos vir com os nossos filhos. E não tem de ser um necessariamente um concerto infantil. Vamos questionar estes dogmas da programação e fazer esta experiência num espaço de muita proximidade.
Mas será que a localização, numa zona de Lisboa com transportes limitados em quantidade e horários (apenas existe autocarro e o regresso a casa, quando a noite se prolongar, provavelmente terá de ser feito com carro próprio ou de táxi/TVDE), poderá desencorajar as visitas a este espaço? Sobretudo se compararmos o Beato ao Cais do Sodré, onde estava o Musicbox. “Sem dúvida que era um sítio central”, reconhece Gonçalo. “Mas, com o nível actual da gentrificação, isso também afastava do Musicbox o público que trabalhámos para conquistar. Apesar de não ser tão óbvio nos concertos, foi-se tornando muito notório durante os momentos de clubbing. Fomos perdendo o interesse do turismo informado e cultural que, infelizmente, é cada vez menos. A cidade está a perder o encanto de efervescência cultural. E isso é notório naquela zona [Cais do Sodré]”.
Em relação às deslocações, o fundador do espaço reconhece essa dificuldade, mas sugeriu, como uma das possíveis soluções, a utilização de bicicleta até este local. “Lisboa é uma cidade muito pequena. Quero acreditar que as pessoas se movem por interesse do programa. O Beato pode parecer muito longe, mas do Cais do Sodré até aqui de bicicleta são cerca de 15 minutos.
O desafio é agora criar um novo circuito de concertos, com uma programação regular e estável, num local onde grande parte dos lisboetas (ou pelo menos aqueles que gostam de assistir a concertos) não tem o hábito de se deslocar. A promessa da CTL é que estes pretendem continuar a dar palco não só a projectos de renome, mas também a jovens artistas e bandas emergentes. “É importante haver programação o ano todo e muitos espaços perto da cultura de base e de quem está a começar projectos novos. É importante que estas pessoas sintam que podem ter a oportunidade e as condições certas para fazer os seus primeiros concertos e a sua música ser ouvida e criticada”, explica Gonçalo. “Isto acontece neste tipo de espaços onde é possível haver uma experimentação, mas existem cada vez menos pelo país fora. Eles são a base que permite que os artistas se profissionalizem. Sem a base desta pirâmide, tudo se torna mais difícil. É preciso haver oportunidades para conhecermos coisas diferentes e não ouvirmos todos as mesmas coisas e basearmos o nosso gosto naquilo que o digital e os algoritmos nos oferecem”.
Apesar de reconhecer que a Casa Capitão é uma empresa e que funciona de forma empresarial, reforçam este compromisso em dar palco a todos, algo que é possível de observar até pelo cartaz da festa de inauguração. “Queríamos fazer mais do que um festival de três dias. Podemos ter artistas mais conhecidos e que são apresentados como cabeças-de-cartaz, mas a ideia é que o alinhamento permita mostrar as diferentes salas, as diferentes valências, mas também artistas novos”.
É preciso haver oportunidades para conhecermos coisas diferentes e não basearmos o gosto naquilo que os algoritmos nos oferecem.
A festa de inauguração acontece entre 19 e 21 de Setembro e vai acolher concertos de Capicua, Bbb Hairdryer, Vaiapraia, Lesma, Conferência Inferno, Afonso Cabral, Maria Beraldo, Sreya + Iguanas, Samalandra, Luca Argel, dj Sets da editora Cuca Monga e muito mais (isto sem falar das performances, exposições, oficinas e debates).
E a programação não fica por aqui. Depois deste test drive, o arranque a sério acontecerá com o festival MIL, entre 8 e 11 de Outubro, que vai decorrer na Casa Capitão, mas também noutros espaços do Beato, com artistas como Sophia Chablau & Filipe Vaqueiro, Marquise, 800 Gondomar, Yard ou Sunflowers. Até ao final do ano, vai acolher concertos em nome próprio de Baiuca, Bia Ferreira, Bonga, Destroyer, David Bruno, Sega Bodega, Greentea Peng, Letrux, Wavves e Water From Your Eyes.
O último capítulo da vida do Musicbox deu-se de 14 para 15 de Setembro, com uma maratona de DJ sets realizados por várias caras familiares daquele espaço. Foi uma festa agridoce, nenhuma despedida é fácil. Mas não há tempo para derramar lágrimas. Há muitas obras a fazer, paredes para tapar, menus para fechar, programações a decidir. Ainda não é altura para descansar e usufruir desta nova Casa no Beato. Até porque, para Gonçalo, há uma nova missão a começar: “Queremos mostrar que este é um espaço de pertença, viável e com uma programação ligada às culturas de base. Vamos mostrar que estamos a construir o que será um espaço de referência para a cultura nacional”.
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