Cave 23

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Em tempos idos, havia o luxo do tempo. Horas perdidas, com o prazer sem culpa que só a adolescência pode oferecer. Numa dessas deliciosamente inúteis tardes, descobri o Miradouro do Torel. Mal amado e pior tratado, o Torel era um dos tais segredos bem guardados que, à falta de shares, assim permaneciam. Décadas depois, regresso ao local do crime e encontro, alojado num hotel de charme, esta Cave 23, da chef Ana Moura, com passagem pelo Arzak, 3 estrelas Michelin em San Sebastián. Com as expectativas elevadas, e depois de brindados com um lusco-fusco cinematográfico, há alguma estranheza em descer a uma cave. Conta-me como foi? Já a seguir.

20h30
Depois de afavelmente recebidos, somos encaminhados para a nossa mesa. O espaço é pequeno e acolhedor.

20h40
Dez minutos depois, chegam à mesa as ementas. Sinto um ligeiro ratito, e penso que deveria ter lanchado mais do que uma peça de fruta.

21h10
Meia hora depois, “então, já escolheram?”. 30 minutos dão para escolher, decorar, encontrar anagramas nas entradas, capicuas nos preços, e jogar ao stop com as sobremesas. Gostava só de relembrar o meu ratito, a caminho de se transformar num porquinho da índia.

21h40
Aterra na mesa, pelas mãos de uma prestável e solícita empregada, o amuse bouche, um cozido à portuguesa “desconstruído” (aspas de citação, não ironia). Um caldo translúcido, encimado por uma telha de massa e várias gotas de concentrados de sabor (chouriço, nabo, couve). Grande começo, apesar de persistir a questão: 1h10 depois, podem fazer o obséquio de trazer o couvert, s.f.f.?

21h50
Chega o couvert, manteigas banais, bom pão de compra, óptima brandade de bacalhau.

22h10
São servidas as entradas, um singelo “Ovo”, como consta na ementa, e uma não menos singular “Sardinha”. Curioso o ovo, cozido a 65º, acompanhado por um conjunto de apêndices que não beneficiaram de um empratamento algo trapalhão. A reter, uma subtil e engenhosa nori de azeitona e o sabor agradável do todo. Já a sardinha, levemente braseada, acompanhada pela sua cabeça frita, uma gelatina de tomate e foie, teria ganho com menos sardinha (um lombo seria perfeito, dois guloso, três demais). Até aqui, fomos bem acompanhados por um Sauvignon Blanc de Colares. A carta de vinhos é intencionalmente curta, recheada de referências de autor, o que poderia ser arriscado, mas funciona (se revista com frequência).

22h50
Com a digestão das entradas feita, servem-nos os (recordo, singelos) “Leitão” e “Pregado”. Incrível o peixe, lombinhos gordos e magros, num jogo de texturas e ómega 3, mousse de fígado de um lado e maracujá do outro, arbitrado por tapioca crocante. Belíssima ideia, magistralmente executada. Já o leitão, pecou por comparação com os seus congéneres (Sá Pessoa, Kiko Martins, etc.). Ao pequeno Babe faltou companhia (puré, mousse, verdura), ainda assim nota máxima para o mise en place a encher, sobretudo, o olho. 


23h20 No capítulo sobremesas, o “Morango”, evocação da memória de infância via Perna de Pau: nata, morangos em conhaque, telha de chocolate. O sabor? Felicidade em estado puro. Do “Chocolate”, mousse de, em cama de, com telhas de, fica a mestria na execução.

23h45
3h15 depois de termos chegado, chega a conta. Apesar de momentos memoráveis (o pregado), muito bons (amuse bouche, o morango), e entre o bom e o médio (tudo o resto), uma entrada e um prato principal não justificam uma refeição mais longa do que alguns dos filmes do “Senhor dos Anéis” (e, a 50€/pessoa, mais cara que a trilogia em blu-ray). Ainda assim, ignorando o relógio e alguma sobranceria no trato, parece haver qualquer coisa nesta Cave 23. O quê, só o tempo dirá.

Por Manuel F. Caldeira

Nome do local Cave 23
Contato
Endereço Rua Câmara Pestana, 23 – Torel Palace
Lisboa
1150-199
Horário Qua-Seg 17.30-00.30.
Preço 50€
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