Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Na hora mais negra da cultura, “a maioria não tem margem de manobra”

Atenção, continuamos a tentar dar-lhe a informação mais actualizada. Mas os tempos são instáveis, por isso confirme sempre antes de sair de casa.

Teatro, Circo, Performance, Cirque du Soleil: Corteo
©Mariana Valle Lima

Na hora mais negra da cultura, “a maioria não tem margem de manobra”

Do teatro ao cinema, da música aos livros, artistas, programadores e editores fazem um retrato presente do sector e partilham angústias relativas ao futuro. A Cultura aguenta o novo confinamento?

Por Hugo Torres e Mariana Duarte
Publicidade

Antes de as actividades culturais voltarem a ser suspensas, a maior parte dos cinemas estava vazia. As salas de espectáculos, reduzidas a um terço da capacidade. Os espaços mais pequenos nem haviam reaberto ainda. Dez meses de portas fechadas. Os artistas, que se apressaram a resgatar-nos da reclusão e do medo no início da pandemia, oferecendo o que tinham para vender, tentam agora resistir à miséria. Os técnicos estão pior. Até as editoras de livros, que promovem uma actividade perfeitamente ajustada ao distanciamento social, levam as mãos à cabeça. O pano de boca, corrido, encobre tudo. Apesar de continuarmos a consumir produtos culturais em catadupa, a partir de casa, ninguém quer assistir à tragédia que varre a Cultura, ninguém quer ver este filme catástrofe. Uns encolhem os ombros: para agruras, já basta. Outros estão a leste. Longe da vista, longe do coração, diz o povo. É verdade. E os rostos desconhecidos, de quem faz acontecer um sector com um volume de negócios de 6,5 mil milhões de euros (os números são do Instituto Nacional de Estatística para 2019, podem recolher o queixo do chão), são os que mais sofrem.

Durante o debate televisivo que reuniu todos os candidatos à Presidência da República, repetia-se uma pergunta nas redes sociais que ilustra bem a invisibilidade a que estão votados muitos trabalhadores: estando Marcelo a participar de casa, devido a resultados contraditórios de diversos testes à Covid-19, por que estava o candidato a usar máscara? A resposta era evidente: não estava sozinho na sala; para o vermos e ouvirmos em directo e com qualidade, a RTP tinha lá uma equipa. Na Cultura acontece o mesmo. Os cabeças de cartaz não operam sem rede. Embora possa parecer, a comparação com o episódio da RTP não é absurda. A tutela é a mesma. Os parcos recursos alocados ao Ministério da Cultura no Orçamento do Estado para 2021 prevêem, aliás, uma fatia de leão para a estação pública de rádio e televisão: 250,8 milhões de euros de um total de 563,9 milhões. A diferença, que é o que sobra para a Cultura, representa 0,21% da despesa total consolidada inscrita no OE. A resposta do gabinete de Graça Fonseca à crise é igualmente diminuta, segundo os agentes do sector. Com a agravante de que o tão aguardado estatuto dos profissionais da cultura, que a própria ministra classifica como “uma peça decisiva para o futuro do sector cultural e criativo em Portugal”, voltou a derrapar – para meados de 2021.

As medidas mais recentes, anunciadas a 14 de Janeiro, assentavam num programa de apoio “não concursal e a fundo perdido” dotado de 42 milhões de euros. Os destinatários são “as empresas e entidades colectivas do sector e pessoas singulares profissionais da área”. Estes últimos terão direito a um apoio individual de 438 euros, o valor do Indexante dos Apoios Sociais. É simbólico que, apesar de poder ser acumulada com outros apoios, esta medida extraordinária ofereça um valor abaixo do limiar de pobreza. Outro ponto essencial do programa é o adiamento dos concursos da Direcção-Geral das Artes para 2022, injectando já 12 milhões de euros em todas as entidades consideradas elegíveis no concurso de apoio sustentado 2020-2021, mas que por falta de orçamento ou tinham sido parcialmente apoiadas ou ficado totalmente de fora. Dois problemas: não só há profissionais que estão excluídos dos critérios aplicados ao primeiro apoio, como as estruturas que conseguem planear o seu trabalho a mais longo prazo serão negativamente afectadas pelo adiamento dos concursos de 2021 para 2022. Foi também por isto que um conjunto alargado de sindicatos, associações e outras organizações se uniram num protesto digital, no último sábado, 30 de Janeiro – dia em que se multiplicaram nas redes sociais imagens com a hashtag #naruapelofuturodacultura. A convocatória para o protesto explicava o motivo da adesão: “Ainda há muito por fazer para que a resposta seja universal e chegue a toda a gente que foi afetada pela crise e pela quebra de atividade”.

Recomendado: “Os músicos estão a vender objectos de criação para pagar as contas”

Acção Cooperativista
Acção Cooperativista
©DR

A luta fora dos palcos

Desde o início da pandemia que os trabalhadores da cultura se têm vindo a mobilizar, talvez mais do que nunca, em várias acções de reivindicação por melhores condições de trabalho, por apoios de emergência e a longo prazo, por uma legislação laboral adequada a estas profissões, por um Governo que reconheça verdadeiramente a cultura como um bem essencial e como o direito constitucional que é, lado a lado com a educação e a saúde.

Vários grupos – formais e informais, históricos e recém-nascidos – começaram a encetar um diálogo mais articulado e concertado entre si, amplificando a voz do sector, unindo lutas, estabelecendo pontes entre os contextos e as realidades múltiplas que caracterizam o tecido artístico português. Um dos grupos que despontou com esta crise e que tem estado na linha da frente deste movimento pela cultura é a Acção Cooperativista, responsável pela guerrilha viral #Unidxs Pelo Presente e Futuro da Cultura em Portugal. Reúnem, até à data, quase seis mil membros, de várias áreas: teatro, cinema, música, dança, performance, circo, ópera, artes plásticas, artes visuais, bibliotecas, literatura, fotografia e videoarte, entre outras. “É um colectivo verdadeiramente transversal”, afirmam Teresa Coutinho e Ruy Malheiro, do núcleo duro da Acção Cooperativista, ambos actores. “De salientar ainda a colaboração de inúmeros mediadores, como jornalistas, formadores e um considerável número de membros da sociedade civil.”

Este grupo informal pratica “uma metodologia de trabalho colaborativa, não-hierárquica e que procura unir os trabalhadores das artes e da cultura em Portugal, valorizando a diversidade”. Na palavra ‘cooperativista’, dizem, encontram-se as duas “palavras-chave da identidade” deste colectivo: cooperativa + activista. A sua missão passa por vários degraus de partilha e colaboração, “desde o apoio ao nível mais elementar à partilha de informação útil e conhecimento especializado, até ao abrir espaço para pensamento e debate, sempre tendo em vista a acção”. Essa acção implica estreitar o diálogo com o Ministério da Cultura, criando “as condições para operar ao nível da mediação entre o sector e a tutela, ambicionando um paradigma de políticas cada vez mais participativas”. E para Teresa Coutinho e Ruy Malheiro, a Acção Cooperativista, em cooperação com outras estruturas, tem contribuído, “sem sombra de dúvida”, para que o Governo reveja as suas políticas no que toca à cultura e seus trabalhadores.

“Acreditamos que se algumas medidas foram e têm sido tomadas é graças à pressão exercida pelas estruturas representativas do sector, formais e informais”, assinalam, referindo que o pacote de medidas mais recente é “resultado” desta mobilização. “A verdade é que, desde o início da crise pandémica, entre paragens ou falsas retomas de actividade, as estruturas nunca cessaram a sua reivindicação e a análise objectiva do momento presente, apesar da comunicação tantas vezes mentirosa e propagandística do Governo e do Ministério da Cultura, que visa manipular a opinião pública e descredibilizar as sucessivas chamadas de atenção dos trabalhadores para a precariedade agravada em que se encontram.” A ausência de uma “visão estratégica” e estrutural do Governo para a cultura já vem de trás, defende a Acção Cooperativista – desde a “falta de políticas públicas” à “falta de apoios sociais aos trabalhadores”, a maioria deles precários, passando ainda pela “inexistência de um mapeamento do tecido cultural português”. Tudo isso ficou a descoberto com esta crise. “Estava tudo por fazer”, resumem Teresa Coutinho e Ruy Malheiro.

Em relação às medidas anunciadas a 14 de Janeiro pela ministra Graça Fonseca, a Acção Cooperativista aponta várias falhas. “Apesar de estarmos perante um momento histórico no que concerne algumas destas medidas – nomeadamente o resgate, no concurso da DGArtes, de muitas candidaturas que tinham ficado sem apoio – o importante é entender o que é que esta injecção de dinheiro vem provar: a insuficiência da dotação orçamental destinada a este concurso e, de forma mais abrangente, à cultura e às artes”, afirmam os actores. “É ainda de ressalvar que as resoluções relativas à DGArtes resolvem apenas os problemas de uma pequena parte da produção cultural, afecta a estes apoios.”

No que toca aos apoios sociais, dizem, “continua a não estar garantido um apoio acima do limiar da pobreza a todas as pessoas que dele precisam”, o que conduz “sistematicamente à precariedade, à informalidade e ao endividamento” dos trabalhadores. “As medidas de aumento das quotas da música na rádio, por exemplo, são pouco mais do que simbólicas para os profissionais da área da música, visto não abrangerem a totalidade de músicos portugueses. No fundo, continua a ficar gente de fora e, às dificuldades do momento presente, somam-se dez meses de profundas limitações das actividades culturais e de falta de apoios.”

A precariedade que vem caracterizando este sector torna-o especialmente frágil numa altura destas, e os mecanismos de apoio nem sempre têm em conta esta realidade.
— Joana Gomes Cardoso, presidente da EGEAC

Ricardo Alves, encenador e director artístico da companhia Palmilha Dentada, partilha a mesma opinião. “Estas medidas foram positivas, mas têm um problema que já vem de trás, que é o Estado encarar a cultura como os parceiros da DGArtes, especialmente no caso das artes performativas”, observa. “Há uma série de grupos que não entram nessa lógica. A realidade é que a cultura é feita de muito mais coisa que está completamente parada, sejam os grupos que tinham uma sobrevivência à base da bilheteira dos seus espectáculos, os que faziam espectáculos nas escolas e os muitos que já tinham perdido esperanças na DGArtes.”

No meio deste cenário cataclísmico, a Palmilha Dentada, curiosamente, não se pode queixar. Pela primeira vez, esta pequena estrutura teatral do Porto, que tem sobrevivido sobretudo graças a um público fiel, teve acesso aos apoios da DGArtes. No ano passado conseguiu o apoio de emergência, agora vai ter o apoio bianual ao qual concorreu, na sequência da operação de resgate das candidaturas. Contudo, Ricardo Alves não olha só para o seu umbigo. Mostra-se apreensivo com o futuro e com o quão “danificado e fragilizado” poderá ficar o tecido criativo e laboral da cultura. “Por isso digo que 2021 deve ser o ano de repensar e de reestruturar, tanto no que diz respeito às acções do Governo central, das autarquias, das empresas de mecenato.”

Para a Acção Cooperativista, este segundo confinamento generalizado irá agravar a situação já precária e vulnerável dos trabalhadores. “Este novo confinamento traz novamente os reagendamentos sucessivos de actividades e os seus cancelamentos, que não têm sido alvo de uma fiscalização eficaz e real na aplicação do Decreto-Lei 10-I/2020 de 26 de Março”, alertam. “Assim, não só as apresentações, mas todos os trabalhos de criação, formação, mediação e contacto com os públicos podem ficar por pagar. Para que fique claro: o pagamento destas actividades deve ser a 100%.” Além disso, os equipamentos culturais – que já tinham as suas agendas sobrelotadas com a programação dos espectáculos reagendados aquando do primeiro confinamento – “vêem-se agora a braços com a reprogramação desses mesmos eventos e dos que estariam programados originalmente para 2021”.

Se continuarmos a achar que isto é um problema para os artistas e meia dúzia de iluminados resolverem, vamos ficar cada vez piores enquanto sociedade.
— Ricardo Alves, director da Palmilha Dentada

Joana Gomes Cardoso, presidente do Conselho de Administração da EGEAC, empresa municipal que gere os equipamentos culturais de Lisboa, considera que o circuito artístico da capital vai sofrer danos por causa da crise pandémica e de todos os seus efeitos colaterais. Porém, espera que estes não sejam irreparáveis. “Já são conhecidas várias ‘baixas’ decorrentes da pandemia: livrarias que fecharam, por exemplo. Mas esperemos que seja possível retomar a actividade cultural de Lisboa em moldes mais equitativos e sustentáveis.” Para Joana Gomes Cardoso, todos os campos artísticos “têm sido muito atingidos”.

“A precariedade que vem caracterizando este sector torna-o especialmente frágil numa altura destas, e os mecanismos de apoio nem sempre têm em conta esta realidade”, destaca, mencionado “a existência de dívidas que impedem os agentes culturais de se candidatarem” a apoios. A EGEAC não tem nas suas competências a atribuição de apoios no sentido convencional – ou seja, “não detém um programa ou uma bolsa financeira de apoio” –, mas é uma peça importante no puzzle do tecido cultural lisboeta, já que produz e promove espectáculos de teatro e dança, exposições, concertos e edições, entre outras actividades. A presidente do Conselho de Administração da EGEAC refere que a Câmara de Lisboa “lançou várias linhas de apoio que são complementares à actividade promovida pela EGEAC”, reconhecendo que “ambas são fundamentais nesta altura”. “É em Lisboa que estão sediadas muitas das companhias e entidades culturais do país. Há assim uma responsabilidade especial, embora a tutela da área esteja com o Ministério da Cultura.”

Para um futuro mais justo, sólido e sustentável – que, insistem os intervenientes, terá de passar por um reforço significativo da dotação orçamental para a cultura –, Ricardo Alves defende que, a nível macro, é urgente pensar e encarar a cultura como algo “tão importante como o Serviço Nacional de Saúde e a educação”. “É a cultura que nos protege de uma data de fenómenos a que assistimos cada vez mais. É a aprendizagem da empatia, do olhar o outro, que a cultura nos dá e que nos faz muito falta enquanto civilização”, nota o encenador. “Se não pensarmos nisto como um todo, a diversos níveis, e continuarmos a achar que é um problema para os artistas e meia dúzia de iluminados resolverem, vamos ficar cada vez piores enquanto sociedade.”

“Nada vai ser como antes”

Os números do cinema são esmagadores. Segundo os dados provisórios do Instituto do Cinema Audiovisual (ICA), no ano passado as receitas afundaram 75,5% face a 2019. A melhor semana de 2020 foi a primeira, em que se emitiram 306.601 bilhetes. A partir de meados de Março, no entanto, as salas esvaziaram-se por completo durante dois meses. Em Maio, encetou-se a retoma – lentíssima. O melhor resultado foi conseguido em finais de Agosto e início de Setembro, nas duas únicas semanas acima dos 100 mil espectadores. O resultado, calcula o ICA, é uma quebra de facturação de 62,7 milhões de euros para 11,7 milhões. Com o novo confinamento, o Governo fez saber que haverá um reforço de 1,4 milhões de euros para o cinema e o audiovisual, o que permitirá apoiar mais seis obras ainda no âmbito do concurso de 2020. As salas independentes serão abarcadas pelos 42 milhões de euros de apoios a fundo perdido. Curiosamente, estas são as que melhor resistiram este ano. Paulo Branco, que detém o Nimas, dizia mesmo em Outubro, ao jornal Público, que no ano que passou este cinema de Lisboa teve “mais espectadores do que em qualquer um dos últimos cinco anos”. Mas estas salas são uma minoria.

Sem estreias de grande impacto em cartaz (todas adiadas, com excepção de Tenet, de Christopher Nolan, cuja estreia coincide com as melhores semanas de bilheteira, no Verão), as salas comerciais perderam muito do seu apelo. Portugal, claro, não é caso único. O mercado do cinema minguou, levando até as grandes produtoras de cinema a retrair-se. Minguou, não: migrou. Para casa, para o streaming. A dianteira pertence agora à Netflix, que ao longo deste ano estreará mais de 70 longas-metragens, um número extraordinário. A WarnerMedia e a Disney, que têm um pé no streaming e outro nas salas, também reforçaram as suas plataformas de consumo caseiro (HBO e Disney+, respectivamente). Há ainda a Amazon Prime e a AppleTV a ter em conta. Mas nem tudo são gigantes neste segmento. A pandemia também fomentou ofertas de nicho, como a portuguesa Filmin, disponível desde 2016. “Estávamos a crescer de modo contínuo e estávamos muito optimistas quanto ao futuro, mas em Março, Abril e Maio vimos as subscrições triplicarem de repente”, diz a directora da Filmin, Anette Dujisin. “Houve claramente um boom, e o mais gratificante foi que a grande maioria destes subscritores ficou connosco após o primeiro confinamento, e continuámos a crescer no Verão e no Outono.”

Anette Dujisin admite que a popularidade da Netflix ajudou o público a compreender o que é a Filmin. “Em 2015 quando começámos a trabalhar no lançamento da Filmin, ninguém conhecia o vocabulário. Falávamos de streaming, de VoD [video on demand], e as pessoas ficavam a olhar para o vazio com cara de interrogação, como se estivéssemos a falar noutra língua”, recorda. As semelhanças terminam aí. A Filmin diferencia-se pela curadoria, pela contextualização, por pôr títulos antigos em diálogo com a actualidade político-social – Wenders, Buñuel, Kurosawa, em breve o cinema francês desde os anos 30 à Nouvelle Vague, e ainda os clássicos americanos. Anette Dujisin: “Outra grande diferença é o facto de nos dedicarmos ao cinema independente e de autor, tentando dar uma atenção especial ao cinema nacional. Damos prevalência ao cinema e não às séries, como é o caso das grandes plataformas internacionais. É verdade que temos apostado ultimamente nalgumas séries [está prevista uma estreia por mês até Março], mas são casos pontuais e específicos que complementam o catálogo de cinema. É preciso dar opções aos subscritores, e queremos dar a opção de ver séries sem terem de sair da Filmin. Assim como temos conteúdo infantil, nomeadamente europeu e algum asiático, também escolhido a dedo.” A estreita colaboração com a indústria local – produtores, realizadores, distribuidores e festivais – é a derradeira mais-valia. “Neste sentido somos mais ricos e flexíveis do que as plataformas internacionais, que apresentam os conteúdos numa listagem infinita, com pouca curadoria. Para nós é fundamental o trabalho de editorialização, curadoria e contextualização dos filmes, nunca esquecendo o contexto actual no qual vivemos.”

Anette Dujisin é peremptória quando lhe perguntamos se o fecho das salas de cinema beneficia a Filmin: “Não.” “O facto de as salas estarem vazias, nomeadamente salas que estreiam filmes independentes, significa que há um desinteresse pelo cinema no geral. Isto nunca é positivo para ninguém. Não vamos negar que há uma migração para as plataformas, mas isto deve-se mais à popularidade que as séries estão a ter em detrimento dos filmes”, sublinha. “Contudo, acho muito curioso o que se verificou nos meses após o primeiro confinamento, nomeadamente com as salas de cinema independente, mas também com os teatros e as salas de espectáculos. Mesmo com lotação reduzida, com medidas de distanciamento social, tendo em conta factores como o medo e o risco, os números demonstraram uma clara adesão do público. Foi um sinal muito positivo.” Ainda assim, houve festivais e mostras de cinema que ou foram adiados ou migraram para o digital. A Filmin também os acolheu. “Criámos uma secção dentro da plataforma dedicada aos festivais de cinema, onde é possível recriar virtualmente, e o mais possível, a experiência do festival ao nível da organização da programação e também a possibilidade de inserir apresentações por parte dos realizadores, espaço para patrocinadores e parceiros, etc.” A Festa do Cinema Italiano, no seio da qual surgiu a Filmin, acontecerá este ano de 8 a 18 de Abril em “versão híbrida, onde o digital terá de certeza uma componente muito importante”.

Esta ultra-rápida transição para o streaming vai criar uma disrupção gigante no ecossistema do cinema.
— Rui Pereira, director da Zero em Comportamento

A Zero em Comportamento, outra estrutura que está na génese de um dos grandes festivais nacionais, o IndieLisboa, dedica-se agora a mostras e ciclos de cinema mais pequenos, assim como à formação de públicos. Também tiveram de se reinventar – e também através do video on demand. “Criámos o Videoclube Zero em Comportamento e fizemos muitas sessões públicas, através da plataforma, com muitos dos nossos parceiros habituais. Foi uma forma de eles manterem o contacto com o seu público e de nós mantermos alguma actividade e receitas”, diz Rui Pereira, director da estrutura. “Depois do Verão, com as coisas a reabrirem muito lentamente, pudemos voltar às sessões presenciais e às sessões para as escolas. Até ao final do ano as coisas estavam a começar a endireitar-se, embora as contas trouxessem um lastro negativo, resultado de termos tido de recomeçar quase do zero. Este novo confinamento é bastante negativo, pois apanha-nos ainda um pouco combalidos. Vamos ver se conseguimos aguentar…” O videoclube tem cerca de 50 subscritores e um registo de 200 alugueres pontuais. É pouco? É uma plataforma assumidamente de nicho(s). E é um caminho, porque não voltaremos aonde estávamos.

“Estou absolutamente convencido de que nada vai voltar a ser o que era. Especialmente na questão do consumo de cinema”, antecipa Rui Pereira. “Penso que esta ultra-rápida transição para o streaming vai criar uma disrupção gigante no ecossistema do cinema e que nada vai ser como antes. Espero que todos os agentes deste meio estejam conscientes disso e que estejam predispostos a adaptar-se.” Sobre os apoios públicos postos à disposição do sector, este programador diz que “são mera propaganda”. “Estou chocado com as medidas anunciadas para o cinema! Resumem-se a dar dinheiro para apoiar a produção de mais uma longa-metragem de ficção, duas curtas-metragem, dois documentários, uma série de ficção e reforço do dinheiro disponível para fazer festivais de cinema. Desculpem, mas e os distribuidores e os exibidores? E os cineclubes?” Rui Pereira pergunta “de que serve haver tantos filmes se depois não houver distribuidores e, especialmente, cinemas que possam exibir esses filmes”. “Vamos voltar aos anos 80 do século passado, quando se faziam filmes que ficavam por exibir porque não havia quem o fizesse? Quando é que o ICA vai perceber que o ecossistema do cinema/audiovisual é composto por três pilares essenciais (produção, distribuição e exibição)? Se algum deles estiver enfraquecido, os outros dois vão sofrer! E foi bizarro ouvir a ministra da Cultura anunciar que irá haver apoios para as salas de cinema independentes! O que é isto? O que são salas de cinema independentes? Que conceito é esse? Claro que todos sabemos a que salas é que ela está a referir-se. Mas então e as outras salas? Não são importantes?”

Publicidade

“Lemos muito menos do que seria saudável”

O que também é importante é o tempo que temos passado à frente de ecrãs. É imenso e não é saudável – nem para nós nem para a indústria do livro. “Houve países em que as vendas durante as épocas de confinamento subiram”, nota Clara Capitão, directora-geral da Penguin Random House Portugal. “É o caso de países com elevados índices de leitura, como o Reino Unido e os EUA, em que houve corrida às livrarias nos dias que antecederam o confinamento e em que as vendas pouco caíram ou até subiram durante o confinamento. A mesma tendência verificou-se, em dimensões menores, em países como Espanha e Alemanha. Portugal, infelizmente, foi dos países da Europa em que as vendas de livros mais caíram no ano de 2020.” Segundo a responsável pela casa que detém chancelas como a Alfaguara, a Companhia das Letras ou a Objectiva, as vendas online impediram que o mercado do livro caísse 70% na Primavera – ficando-se pelos 50%. “As vendas online ajudam a minorar o problema, mas são incapazes de substituir as vendas de livros em loja”, diz. “Não podemos esquecer que a maioria dos portugueses nunca fez compras online nem tem recursos para o fazer. É urgente que os livreiros independentes se munam das ferramentas necessárias para competir com as grandes plataformas de venda online, como aconteceu nos EUA e em Inglaterra, com a bookshop.org”. A Penguin não está parada nesse campo e pôs-se a vender livros através da Glovo (para já só em Lisboa).

Rui Couceiro, editor da Contraponto, do Grupo BertrandCírculo, considera que “não ter a possibilidade de mexer nos livros faz desaparecer um aspecto muito importante, que é a possibilidade de descoberta de livros novos. Em inglês chama-se discoverability. Sem ela muitos livros e muitas editoras estão a sofrer muito, porque o online não colmata essa quebra.” Esta chancela, cujo catálogo é composto tanto pelos bestsellers assinados pela apresentadora Cristina Ferreira como por biografias de fôlego de figuras como Manoel de Oliveira ou Agustina Bessa-Luís, viu as vendas em meio digital dispararem 800 a 900%. “Mas essa subida, infelizmente, não compensa o que deixámos de vender em livrarias e até em supermercados”, adianta Rui Couceiro. Essa é, aliás, uma das novidades deste novo confinamento: as vendas de livros nas grandes superfícies estão suspensas, assim como a venda ao postigo nas livrarias. Uma decisão recebida com espanto pelos editores. “Se estamos preocupados com os livros, impedir a sua venda não beneficia o sector, como é evidente. O que sem dúvida faz é agravar o afastamento dos portugueses dos livros. Vários países da Europa classificaram o livro como bem essencial e as livrarias estão abertas. Em Portugal, enterramos as pessoas no sofá e colamos-lhes os olhos nos ecrãs. Não entendo o sentido disto”, atira o responsável da Contraponto. “É claro que com isto editoras e autores, e todos os profissionais que dependem do sector, sofrem. Sofrem muito. Mas também sofre este pobre país em que já se lê muito menos do que seria adequado a uma vida saudável, já que é por razões de saúde pública que falamos de tudo isto.”

As vendas online ajudam a minorar o problema, mas são incapazes de substituir as vendas de livros em loja.
— Clara Capitão, directora-geral da Penguin Random House Portugal

Clara Capitão concorda. “Não tenho dúvidas de que terá efeitos graves no sector editorial. Segundo sei, a maioria dos editores está a cancelar a publicação de novidades que estava programada para as semanas de confinamento, e a publicação de novidades é um pilar fundamental da sobrevivência dos editores”, adianta. “Esta medida [impedir a venda de livros nas grandes superfícies] diz pretender evitar a distorção de mercado, mas na verdade não protege os livreiros tradicionais, que a partir da entrada em vigor do último decreto nem ao postigo podem vender. Portanto, não protege quem diz querer proteger e prejudica muito os editores e os autores. Os resultados são ainda difíceis de prever. Mas se no confinamento de 2020 as quebras foram da ordem dos 50 a 70%, com venda ao postigo e venda nos hipermercados, não é descabido prever que as quebras serão ainda mais graves neste confinamento, próximas dos 100%.” Clara Capitão defende que “a forma mais eficaz e duradoura de proteger o sector livreiro, que inegavelmente foi e será muito afectado por esta crise, não passa por uma proibição temporária como esta, mas sim por uma revisão definitiva da lei do preço fixo do livro, que a leve para os moldes da lei do preço fixo de países como Espanha, França e Alemanha, e que permite aos livreiros operar em condições de igualdade com as grandes cadeias ou grandes superfícies. Os hipermercados não são o lobo mau.”

“Estamos a arrancar 2021 com as perspectivas mais negras até ao momento e que podem naturalmente originar falências e despedimentos entre editores e livreiros e deixar em situações dificílimas os chamados trabalhadores independentes, tais como escritores, tradutores, revisores, designers e paginadores”, alerta Rui Couceiro. Os apoios vocacionados para o sector do livro não abundam. Somados, não chegam ao milhão de euros. As perdas estimadas até ao final de Outubro eram de 7,5 milhões, já recuperando dos 20 milhões registados na primeira metade do ano. “Num país realmente preocupado com o seu futuro, se bancos mal geridos e outras empresas acumuladoras de prejuízos merecem receber cuidados especiais do Estado com o dinheiro das nossas contribuições, é evidente que o sector do livro e outras áreas da cultura e das artes não deveriam ser menosprezados. Mas, com um orçamento para a cultura tão miserável como o que ano após ano temos tido, não me parece que a breve trecho possamos aspirar a grandes apoios e por isso sinto que, infelizmente, não resta aos editores e livreiros encararem as consequências da pandemia como uma oportunidade indesejada para se reinventarem.”

“Somos um barco à deriva”

Na música, enquanto outros se desdobravam em performances para uma plateia digital, os The Gift levaram o meio a sério e criaram uma app dedicada ao universo da banda. A REV, disponível desde domingo na App Store e no Google Play, reúne toda a discografia (incluindo “relíquias nunca editadas”), “séries” protagonizadas pelos músicos, podcasts e playlists, documentários, espectáculos e até uma “rede social” para a comunidade The Gift. Parte do conteúdo é de acesso gratuito, outra depende de subscrição (4,99€, 24,99€ ou 44,99€, para um mês, seis ou doze, respectivamente). “Este modelo de negócio é também um balão de oxigénio para toda a estrutura. Damos trabalho a empresas de vídeo, técnicos, fotógrafos, músicos”, observa o compositor Nuno Gonçalves. “Todos temos que arregaçar as mangas e trabalhar o triplo para ganhar metade do que se ganhava. Serão tempos duros. A REV é também uma resposta nossa.” Segundo o músico, os The Gift tinham margem para passar um ano sem concertos. “Não é de hoje. Quando gravamos discos, ficamos muitas vezes sete ou oito meses sem palco. Mas uma coisa é opção, outra é obrigação. É uma catástrofe psicológica e financeira para nós e para todos os que trabalham connosco.”

Nuno Gonçalves está pessimista quanto ao futuro imediato. “Tenho uma perspectiva muito negativa. Mais do que a proibição é a inibição motivacional e económica que vai acontecer no público, pós-pandemia. Isto vai passar, sem dúvida, mas demorará muito tempo a voltar a ser como era”, antevê. “No meio de tudo isto, a cultura teve um ano muito próximo do zero de facturação. É inevitavelmente o sector que deveria ser mais ajudado, porque na verdade nada houve. A ajuda é sempre bem-vinda, mas tem de haver critérios muito rigorosos.” As medidas específicas para a música, anunciadas pelo Palácio da Ajuda, resumem-se todavia a um único ponto: incrementar de 25% para 30% a quota de música portuguesa nas rádios. O cantor e fadista Marco Rodrigues aplaude, mas diz que é claramente insuficiente: “Passar música portuguesa é sempre uma boa ideia, agora ou noutra altura. Ajuda a atenuar a crise do sector, mas a expressão é quase desprezável, mexe muito pouco a agulha.” Rita Redshoes afina pelo mesmo diapasão: “Não é suficiente e no imediato não chega sequer a todas as profissões do sector. Claramente termos mais música portuguesa na rádio é positivo. Aumenta a probabilidade de sermos escutados e daí podem surgir mais concertos e oportunidades que irão representar trabalho não só para o artista mas também para toda a equipa. Mas o problema é de base e antigo. Não há uma compreensão nem conhecimento político sobre todas as especificidades do que é trabalhar no mundo do espectáculo. Das necessidades, da falta de apoios, da segurança social, dos impostos, quase nada é adequado à realidade deste mundo. Somos um barco à deriva no sistema.”

É indispensável que seja traçado um plano de recuperação do sector pós-pandemia.
— Ana Bacalhau, cantora

Ana Bacalhau, por seu lado, não tem dúvidas quanto à prioridade. “Deveria ser aprovado o estatuto do trabalhador da Cultura – os intermitentes, como lhes chamam – o quanto antes, para proteger e dar provimento a todos sempre que necessitem”, aponta. “Sei que está nos planos do Ministério da Cultura ser aprovado este ano, mas tenho receio que a pandemia ajude a atrasar um pouco mais a sua aprovação, que é urgente. É muito importante ouvir-se todos os agentes culturais para se perceber melhor as suas reais necessidades.” De resto, “é indispensável que seja traçado um plano de recuperação do sector pós-pandemia.” A cantora ex-Deolinda diz que “é sufocante saber que há tanta gente, tantos colegas, músicos, técnicos, agentes, que estão aflitos, sem saber o que mais inventar para não desistirem da sua arte, da sua vocação”. Rita Redshoes acrescenta: “Pessoalmente, tenho tentado viver um dia de cada vez para que a ansiedade não tome conta de tudo e felizmente consegui, em anos em que tive mais trabalho, guardar algum dinheiro com medo que fases destas acontecessem. Mas sei que sou uma excepção, que a maior parte dos músicos, técnicos e artistas no geral não tem grande margem de manobra.”

Marco Rodrigues nem quer pensar nisso. “É de facto um drama, mas nada comparável com a calamidade sanitária que vive o nosso país neste momento. Seria muito egoísta da minha parte estar preocupado com isso nesta altura, quando todos os dias ouvimos notícias de novos recordes de mortos [provocados pela Covid-19]. E acima de tudo quando não assistimos a uma verdadeira mudança de atitude em todos nós”, sublinha. “A verdade é que a duração deste ‘congelamento’ da Cultura, e de outros sectores do país que também estão parados, depende da responsabilidade de cada um de nós.” Marco Rodrigues, tal como Ana Bacalhau e Rita Redshoes, tem um disco pronto e planeado para sair no primeiro trimestre deste ano. Lançá-lo sem espectáculos, porém, significa perder a oportunidade de daí retirar rendimento. “Fazer um disco implica, numa primeira fase, ter apenas despesas. Não é uma solução por si só à falta de concertos, é antes o mote para poder vir a ter concertos”, nota Rita Redshoes. No entanto, ninguém consegue vislumbrá-los no horizonte. “Temo que seja mais um ano perdido. Mesmo que consigamos achatar a curva, com o plano de vacinação a dar os 70% de imunidade apenas no final do Verão, temo que continue a haver muita retracção na contratação de concertos ao ar livre e até alguma pressão do grande público para que não se realizem”, refere Ana Bacalhau. O que nos leva a outro problema: os festivais de Verão realizar-se-ão? O cancelamento de Glastonbury não é auspicioso.

Álvaro Covões sugere uma solução: “Acredito que os eventos possam acontecer criando uma bolha em que entram vacinados e testados, quer seja para trabalhar ou para usufruir. Temos que nos reinventar enquanto não nos livrarmos do vírus. A economia não pode parar e soluções em segurança são a grande opção para a cultura. A nossa associação, a APEFE [Associação de Promotores de Espectáculos, Festivais e Eventos], está a propor esse modelo como o governo.” O dono da Everything Is New, promotora de eventos como o Nos Alive, entende que a actual situação sanitária “justifica o lockdown total” no país. “Temos que aceitar o encerramento das salas de espectáculos, museus e exposições”, diz. Salienta, contudo, que “a quebra no sector da cultura foi de 80% no ano de 2020 (Janeiro a Dezembro). Foi talvez o sector mais atingido pela pandemia”. “Obviamente que os efeitos desta nova paragem serão enormes e tememos as consequências para o sector com o risco de encerramento de empresas e destruição de emprego”, alerta Covões. No que diz respeito à mexida nas quotas da rádio, fala em “medida popular”. “Aumentar a quota de música portuguesa nas rádios sem contrapartida na produção e edição – ninguém está obrigado a produzir e editar música portuguesa –, parece-me desigual. Faria mais sentido apoiar a produção e exportação da música portuguesa, mas isso significava orçamento e olhando para o orçamento da cultura deste ano nada mudou para a música portuguesa.”

Acredito que os eventos possam acontecer criando uma bolha em que entram vacinados e testados, seja para trabalhar ou usufruir.
— Álvaro Covões, dono da Everything Is New

Os poucos espectáculos que 2020 permitiu não foram suficientes para salvar o ano que passou. E os concertos online, concordam os três músicos com quem a Time Out falou, são um paliativo. “Um paliativo muito fraquinho. Muito pouco eficaz”, avalia Marco Rodrigues. “Não só em termos de emoção, como em termos económicos: não conseguimos empregar o mesmo número de pessoas se tivermos apenas concertos online. Além disso, a valorização que o público faz não é naturalmente a mesma.” Ainda assim, o cantor mostra-se optimista: “Quero muito acreditar que aprendemos com os erros recentes e que, daqui para a frente, cada um irá, efectivamente, fazer a sua parte, ficando em casa, protegendo-se, e acima de tudo protegendo os outros.” Também por isso, decidiu avançar com a edição do disco. É o seu contributo para resgatar da sombra os nossos dias. “Se a música não conseguir fazer de nós mais humanos, o que conseguirá?”

Cultura online

Publicidade
Publicidade
Recomendado

    Também poderá gostar

      Também poderá gostar

        Publicidade