Notícias

Nos Alive. Nick Cave é eterno e nós somos traças atrás da sua luz

O primeiro dia do festival foi marcado pela força magnética de Nick Cave, que assinou um dos melhores concertos que já vimos no Passeio Marítimo de Algés. A jornada contou ainda com a perfeição técnica dos A Perfect Circle.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
Nick Cave
Matilde Fieschi | Nick Cave
Publicidade

Quão difícil é escrever sobre Nick Cave sem o recurso a metáforas religiosas? Aceitamos o desafio. Já vimos concertos do australiano em festivais como o Primavera Sound, o Meo Kalorama ou até na Meo Arena, que foram autênticas experiências transcendentais e espirituais, mas hoje, apesar de ter repetido muitas das músicas que ouvimos nestes espectáculos, vimos um Nick Cave diferente. Com o apoio de um coro, apresentou mais sangue na guelra e um concerto mais assanhado e com a energia mais elevada. É sempre bom ouvir os solenes salmos das suas canções, mas hoje o que nos deu prazer foi ouvir os riffs de “Toledo” ou perder a cabeça em “Jubilee Street”.

A verdade é que o primeiro dia do Nos Alive, que aconteceu esta quinta-feira, 9 de julho, no Passeio Marítimo de Algés, ficou irremediavelmente marcado pela força magnética deste homem. Nick Cave, acompanhado pelos seus The Bad Seeds – banda cujos membros poderiam, pela sua apresentação, protagonizar os mais variados estilos de western –, chama as pessoas como se fossem traças atrás da luz, assinando um dos melhores concertos que vimos este ano, um dos melhores que vimos do cantautor e um dos melhores que já vimos no Nos Alive.

O músico iniciou o concerto com uma entrada a pés juntos com “Get Ready For Love”, entregando o microfone aos fãs e cantando bem junto da plateia. Seguiu-se a intensa “From Her To Eternity”, com mais referências de post-punk e de música gótica, onde se lançou sobre o público e deu as mãos a quem estava na frente, exigindo que todos cantassem enquanto Warren Ellis, o genial compincha e braço direito, oferecia camadas extra à composição com o seu violino. Já agora, se viram alguém a procurar no Google fotos de vibrafone, fomos nós, não queríamos usar o nome errado do instrumento que fez um dos melhores solos desta canção (também fomos nós a procurar imagens de cravos – o instrumento de teclas, não a flor – durante “Wild God”).

Houve tempo para viajar aos blues e ao gospel com “Train Long Suffering”, uma das canções mais antigas, de The Firstborn Is Dead (1985), cujos sons de comboio foram repetidos pelo público. "Vocês são lindos", repetia Cave e, como sempre, confiamos nele.

Nick Cave
Matilde FieschiNick Cave

Ao piano, tocou “Wild God” – com o cravo a oferecer uma textura especial – e “Oh Children”. Antes de iniciar esta última, o artista perguntou ao público: “Conhecem esta música?”. Já o vimos vezes suficientes para conhecer os rituais, coreografias e letra, mas não foi por isso menos impressionante ver Warren Ellis a tocar violino em cima de uma cadeira e a lançar o arco para o público. Este é um daqueles concertos em que grisalhos cantam as letras de início ao fim e as crianças, às cavalitas de um benfeitor com boas costas, admiram o espectáculo de olhos esbugalhados.

Após agradecer ao público seguiram-se momentos mais solenes como “Carnage”, “Joy” – que teve a proeza de silenciar o Passeio Marítimo de Algés na parte em que cantou a capella, um feito raro num festival –, “Rings of Saturn” e o lindíssimo dueto de “Henry Lee”, onde Janet Ramus, com uma voz poderosíssima, fez uma óptima figura a substituir PJ Harvey. Se não sentiram todos os pêlos do braço arrepiados é porque não têm sentimentos.

A intensidade dramática subiu com “The Mercy Seat” e “Papa Won't Leave You Henry”, antes de elevar a fasquia mais uma vez com “Weeping Song” – que deixou quase toda a audiência a bater palmas – e o clássico “Red Right Hand”, que introduziu uma geração a Nick Cave através de Peaky Blinders. “Jubilee Street” levou muito boa gente à loucura com a repetição dos versos finais e a imensa balada ao piano “Hollywood” foi a primeira despedida da noite.

No encore, Cave surgiu armado com uma harmónica em “City of Refuge” e dedicou “Wide Lovely Eyes” à sua mulher: "Esta é a música favorita dela porque... é sobre ela". A despedida fez-se com “Into My Arms”, sozinho ao piano, pedindo à plateia para cantar consigo. Quem ficou com o artista até ao fim devolveu toda a sinceridade e honestidade recebidas. Nós acreditamos no amor e acreditamos em Nick Cave.

O concerto perfeito de A Perfect Circle

Antes desta tempestade emocional, o festival já tinha apresentado outras facetas. No Palco Comédia, fomos espreitar Bolinha Nunes e as suas histórias antes de irmos ver os Dogstar de Keanu Reeves. Estávamos curiosos para ver o que o homem que protagonizou grandes franchises de filmes de acção, como Matrix ou John Wick, tinha para oferecer, mas deparámo-nos com um rock alternativo genérico dos anos 90, num registo que soou a uns Queens of the Stone Age da Temu.

Dogstar
Sara HawkDogstar

Mais à frente, a conversa foi outra com um autêntico OVNI num festival. A Perfect Circle, uma das ofertas mais fora da caixa deste cartaz, ofereceu um dos concertos mais entusiasmantes e tecnicamente perfeitos do festival.

Quando, antes de o espectáculo começar, se ouvem nerds da música a explicar as especificidades de como estão montados os amplificadores para os efeitos dos instrumentos, sabe-se que vem aí algo particular. Maynard James Keenan – que conhecemos também de Tool e Puscifer –, de mohawk e blazer preto, foi recebido com uma ovação e fez as delícias de todos os fãs.

Entre a fragilidade e a brutalidade de temas como “The Package” ou a letra de “Weak and Powerless”, que tocou no íntimo de todos aqueles que envergavam as t-shirts do conjunto (e não só), a banda protagonizou um dos melhores concertos do dia.

A Perfect Circle
Sara HawkA Perfect Circle

Em “Disillusioned” tivemos oportunidade de ouvir um grande solo de piano, e em “The Doomed” os fãs perderam-se a fazer air guitar e air drums, comentando que “este baterista é do caralho” – “este baterista” é Josh Freese, que foi despedido dos Foo Fighters e fez parte de bandas como DEVO ou Guns ‘n’ Roses.

Sem precisarem de grandes artifícios, apenas de grandes músicas, o grupo liderado pelo guitarrista Billy Howerdel venceu pela intensidade das canções, a vulnerabilidade demonstrada e pela forma imediata como passam mensagens, como em “TalkTalk”, uma crítica à religião e a políticos, conquistando até adeptos que estavam nas primeiras filas, de pescoço pintado, à espera dos cabeças de cartaz Twenty One Pilots.

Por falar nos cabeças de cartaz: os Twenty One Pilots tiveram a difícil tarefa de fechar o palco principal após Nick Cave ter mandado a casa abaixo. A banda norte-americana trouxe a sua habitual mistura de pop-punk com hip-hop, num concerto competente e cheio de luzes, fumo e alguns foguinhos.

Twenty One Pilots
Arlindo CamachoTwenty One Pilots

Contudo, apesar do estatuto de cabeças-de-cartaz, foram alvos de uma debandada geral que deixou a plateia um pouco despida. Depois da explosão genuína de emoções de Nick Cave, o fogo-de-artifício dos Twenty One Pilots soube a muito pouco.

O festival continua esta sexta-feira com concertos de artistas como Foo Fighters, Zara Larson ou Skunk Anansie.

Passeio Marítimo de Algés (Oeiras). 9-11 Jul, Qui-Sáb. 90€-213€

🎭 Mais cultura: arte, livros, música, teatro e dança em Lisboa

📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn

Últimas notícias
    Publicidade