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Pode um jogo de xadrez acontecer numa discoteca? Não só é possível, como vai acontecer durante um baile funk. A Time Out falou com os responsáveis do Pieces Chess Club para perceber como é que reis, rainhas e cavalos se podem deslocar num tabuleiro instalado num club.

Se tranquilidade, silêncio e serenidade são coisas que associa ao jogo de xadrez, então prepare-se para ficar em xeque. E se lhe dissermos que agora é possível fazer um gambito da dama numa discoteca? E não, não é o nome de um passo de dança ou algo ilegal que possa fazer na casa de banho.
Nascido da necessidade de descomprimir e desmistificar as convenções de uma prática secular, o Pieces Chess Club começou com um pequeno “trauma” de Charles Yaw, que queria apenas jogar xadrez sem o elitismo e a rigidez dos clubes tradicionais. "Fui a um clube local nos Anjos e foi uma experiência bastante má. Era muito sério, composto 99,9% por homens e muito intenso. Saí de lá passados 40 minutos e nunca mais voltei", recorda o co-fundador do colectivo.
Um plano alternativo, concebido à beira-mar, levou à criação deste projecto. "Estava na praia com o meu amigo e sócio, An-Tim Nguyen, a conversar e pensei: porque não criamos um espaço onde nós próprios queríamos ir? Um lugar com menos pressão, mais descontraído, com mais mulheres e mais diversidade cultural", continua Yaw. "Queríamos tornar o jogo acessível a pessoas de cor e de diferentes culturas. A maioria das pessoas sabe jogar, mas a dinâmica dos clubes tradicionais é extremamente elitista e exclusiva", reforça An-Tim Nguyen.
O Pieces Chess Club arrancou há cerca de um ano e meio com uma pequena sessão no Passevite, uma galeria de arte nos Anjos, mas rapidamente cresceu. As reuniões casuais à quarta-feira transformaram-se em encontros pop-up por onde passaram centenas de pessoas, ocupando desde espaços como a pista de dança do Duro de Matar e o Miradouro de Baixo, nas Carpintarias de São Lázaro, a festivais nacionais como o Waking Life e eventos internacionais em Londres e Berlim.
A receita do sucesso reside na fusão inesperada de um tabuleiro com uma identidade sonora marcante. Para os fundadores, a música não é um mero ruído de fundo, mas sim a peça-chave para quebrar a seriedade do jogo. "A música reduz a ansiedade na sala, especialmente para os novos jogadores. Cria um ambiente relaxante onde as pessoas não sentem aquela intimidade sufocante", explica Charles Yaw. Se pesquisarem o nome do projecto no Spotify, rapidamente encontram algumas das playlists que se ouvem nestes eventos, com músicas que vão do house, ao hip-hop, ao R&B.
A ambição do colectivo não para de crescer, e a próxima jogada promete ser a mais arrojada de todas. No dia 6 de Setembro, o Pieces Chess Club junta-se à Baile Funk Experience para promover um evento open air na Curva, o foodcourt do Estádio da Tapadinha, casa do Atlético Clube de Portugal.
O grande destaque deste evento é o regresso a Lisboa do prodígio da música electrónica brasileiro, o produtor DJ Ramon Sucesso. Vindo de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e aclamado internacionalmente como o "Rei do Beat do Tamborim" – com distinções em publicações de referência como a Pitchfork –, o DJ é conhecido pelo virtuosismo com que desconstruiu e revolucionou a estética do funk carioca nas suas actuações ao vivo. "É provavelmente o maior artista que já agendámos para o Chess Club. Arrisco-me a dizer que talvez seja o maior headliner que algum clube de xadrez já recebeu no mundo", diz entre risos Yaw sobre a vinda do músico brasileiro. O cartaz do evento conta ainda com actuações de Saint Caboloco, Sinnotsin, SoundPreta, Gavi e S4do.
Mas as festas não ficam por aqui. Ainda este mês, o projecto regressa ao Duro de Matar, para mais um evento que combina música electrónica e xadrez num ambiente descontraído e aberto a todos os níveis de jogo. A animação musical conta com a DJ Gayance. A entrada é livre, mas sujeita a uma doação livre.
Combinar as batidas frenéticas do baile funk ou da música electrónica com o raciocínio táctico do xadrez pode parecer aberrante para os puristas, mas para o Pieces Chess Club é a evolução natural. O objectivo passa por continuar a expandir a iniciativa com acções de formação para iniciantes, presença em festivais internacionais e o lançamento de merchandise próprio, provando que o xadrez pode – e deve – ser um espaço de encontro e comunidade, mas também de festa.
Estádio da Tapadinha, Rua Professor Vieira Natividade (Alcântara). 6 Set (Dom) 17.30-23.00
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