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O triunfo do hip-hop com Lauryn Hill e Vince Staples no Meo Kalorama

Há canções que ultrapassam estilos e gerações e, no segundo dia do festival, testemunhámos a intemporalidade de Ms. Lauryn Hill e dos Fugees. Numa jornada marcada também pelo punk interventivo e por grandes talentos da música portuguesa.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
Meo Kalorama 2026
DR | Meo Kalorama
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Há canções que ultrapassam estilos, gerações e, honestamente, deviam ultrapassar galáxias para poderem chegar a outros planetas para mostrar que na Terra conseguimos fazer coisas inacreditáveis. Este sábado, 29 de Agosto, milhares de pessoas entraram em órbita depois de ouvir Ms. Lauryn Hill a cantar os seus êxitos intemporais, como “Killing Me Softly With His Song” e “Ready or Not”, juntando-se com as suas vozes para complementar este concerto que foi uma autêntica aula de hip-hop… mas também de reggae e reggaeton. 

A segunda data do Meo Kalorama apresentou-se com um recinto visivelmente menos concorrido, pelo menos no início do dia, do que na noite de estreia. No entanto, a aproximação do horário para ouvir a vocalista dos Fugees fez com que o Parque da Bela Vista fosse ficando cada vez mais cheio de fãs e curiosos, prontos para ouvir uma das mais aclamadas figuras da música moderna.  

Apesar de tanto debate ter gerado pelos seus controversos (e epopeicos) atrasos em palco, ouvimos a música a ecoar no palco principal escassos minutos antes do horário previsto e, às 00.20, perante uma plateia em pulgas, deu-se o encontro com a mulher que muitos ali tinham ido ver. A celebrar três décadas de The Score (1996), fez-se acompanhar por Wyclef Jean, pelos seus filhos Zion e YG Marley, e por uma banda irrepreensível. Com uma juba majestosa e uma voz afiada como poucas, a norte-americana dedicou-se a desfilar dois discos fundamentais não apenas para o hip-hop, mas para a própria história da música popular contemporânea. 

A sequência inicial trouxe temas como “Vocab”, “How Many Mics” e “Zealots”, resgatando a energia crua do rap dos anos 90, com o público a entregar-se aos cânticos e aos braços no ar em “The Score”, “The Mask”, “Cowboys” e “Manifest”. Sem pausas, a actuação pareceu uma autêntica lição de história. Perante a cadência frenética de temas, quem procurava grandes discursos encontrou apenas música. Mais vale abdicar de falinhas mansas quando a prioridade é encaixar o maior número possível de clássicos no alinhamento – mesmo que isso implicasse que a velocidade do espectáculo, com certas canções a correrem a um ritmo quase acelerado, pedindo um espaço de respiração que poucas vezes lhes foi concedido. 

A transição para o seminal The Miseducation of Lauryn Hill (1998) fez-se com “Lost Ones” e a intemporal “Ex-Factor”. Em “To Zion”, a interpretação esteve a um nível tão alto que dispensou a guitarra de Carlos Santana. 

A meio da actuação, o palco abriu-se à descendência da artista. Zion Marley trouxe o reggae e o dancehall para primeiro plano — com projecções do seu avô, Bob Marley, a surgirem no ecrã – e ofereceu um momento de tranquilidade ao som de “Three Little Birds”. Seguiu-se YG Marley que, com uma entrega vocal notas abaixo dos intérpretes anteriores, fez a energia descer, mesmo que conseguisse interpelar temas como “Jamming” com as suas próprias canções. O segmento de reggae prolongou-se mais do que o necessário (com pessoas a abandonarem o concerto nesse momento), e o regresso ao hip-hop deu-se em grande plano com “Doo Wop (That Thing)”. 

Mas voltaríamos aos tributos, com Wyclef Jean, companheiro dos Fugees, a assumir também o protagonismo ao interpretar “No Woman, No Cry” e ao executar um solo de guitarra tocado com os dentes e atrás das costas, antes de o espectáculo derivar para uma sequência com influências de reggaeton que incluiu “Maria Maria”, “Guantanamera”, “Mi Gente” e até “Hips Don’t Lie” (música pela qual é co-responsável pela produção).  

Quem resistiu a esta incursão festiva foi recompensado na recta final com uma arrebatadora sequência com “Killing Me Softly With His Song” e o poder avassalador de “Ready or Not”. Quase às 02.00, e após conseguirem a proeza de pôr o público praticamente todo de joelhos e a saltar, os Fugees despediram-se com “Fu-Gee-La”, encerrando um concerto de quase duas horas que deveu muito pouco à nostalgia, celebrando a intemporalidade da arte de Ms. Lauryn Hill. 

O nervo punk de Vince Staples   

Mais cedo, no palco principal, Vince Staples provou ser outro dos grandes entertainers do festival. A apresentar o seu trabalho recente, Cry Baby, editado em Junho deste ano – que se aproxima de uma estética mais punk do que as produções anteriores –, o rapper norte-americano fez-se acompanhar por uma nova formação em palco, com duas guitarras, baixo e bateria. Se outrora Staples esteve na linha da frente do cruzamento do hip-hop com a música electrónica mais experimental, agora as guitarras conferem nervo à sua veia política e interventiva, oferecendo texturas que transformam a apresentação ao vivo numa experiência marcante. 

A abrir com a energia contagiante de “Blackberry Lemonade”, a actuação serviu de manifesto contra a alienação mediática. Envergando uma t-shirt da banda Geese, Staples entregou-se ao concerto do primeiro ao último segundo, superando a postura por vezes contida da plateia. "Quem é que daqui quer visitar a América”, perguntou para uma resposta morna da audiência. Em contraste, quando questionou quem odiava o seu país natal a resposta fez-se com maior euforia. “Ainda bem que temos algo em comum”. 

Temas como “Little Homies” e “Black&Blue”, do álbum Dark Times (2024), surgiram acompanhados pela projecção de um bebé chorão trajando uma fralda com a bandeira americana e cabelo loiro – pensámos todos no mesmo, certo? Em “Only in America”, faixa impregnada de hardcore punk, o artista explicou que a canção retrata uma América injusta e que culmina com o irónico refrão: “God bless the USA, God bless the USA”. Mais atento e incisivo, mas sempre bem-humorado e nunca moralista, Staples assinou um dos melhores espectáculos desta edição do festival.  

A música portuguesa em grande plano  

A representação nacional na segunda jornada do festival saldou-se por um conjunto de actuações irrepreensíveis. Raquel Martins abriu as hostes, no palco principal, num horário exigente, quando muitos ainda se estavam a dirigir para o recinto, mas cumpriu a missão com distinção. A interpretar as canções do seu trabalho mais recente, LONDON, WHEN ARE U GONNA FEEL LIKE HOME?, a artista demonstrou um amadurecimento visível em relação aos primeiros passos, deixando transparecer o impacto das suas vivências na cena musical de Londres. Destacaram-se as interpretações de “I Wanna Live Next to the Sea” e “Little Boy”. Para quem a acompanha desde The Way (2021), observar o seu crescimento artístico e amadurecimento é uma grande recompensa e já faz valer o facto de estar a torrar sob o sol abrasador. 

Raquel Martins
João SilvaRaquel Martins

No Palco Sagres, Femme Falafel garantiu uma bela enchente ao início da tarde. Acompanhada por uma banda de luxo – na qual figuravam as vozes de Margarida Campelo e Beatriz Pessoa, as teclas de Lana Gasparotti ou o baixista Tiago Martins dos Expresso Transatlântico e Samalandra, e uma secção rítmica com dois bateristas –, a formação apresentou o álbum de estreia da cantautora, Dói-Dói Sentimental. O concerto combinou humor com um instrumental jazzístico rico em camadas, cruzando bossa nova, electrónica, indie pop, kizomba e um funk brasileiro sobre tostas de abacate. O público correspondeu em pleno, organizando um comboio na plateia durante “Taj Mahal” – marcada por um solo de piano de Lana Gasparotti. Houve ainda espaço para a mensagem ambientalista (e música house) em “Floresta da Amazónia”, interpretada com o auxílio de um pau de chuva gigante. Existem poucas coisas melhores no mundo do que quando a música nos faz rir e é acompanhada por um instrumental intrigante e bem interpretado. Facilmente, um dos melhores e mais divertidos concertos desta edição do Kalorama. 

Femme Falafel
Duarte DCSFemme Falafel

Já para Bruno Pernadas, um dos criadores mais singulares da música portuguesa, começa a ser difícil encontrar elogios. O compositor trouxe ao Kalorama o seu universo estético onde convivem o jazz, o afrobeat, o rock psicadélico e texturas de guitarra invulgares. A apresentar temas do álbum unlikely, maybe, editado este ano, Pernadas guiou a banda por momentos que evocaram uma banda sonora digna de uma viagem espacial. Com o público entregue à dança, a recta final fez-se com “Spaceway 70” e “Galaxy”, mas trouxe-se também o único problema desta actuação: ter chegado ao fim. 

Bruno Pernadas
Duarte DCSBruno Pernadas

Resta-nos deixar uma nota que serve de lamento e, ao mesmo tempo, elogio. Tentámos chegar a tempo de ver o concerto de Sam The Kid, mas o palco estava tão cheio para ver o “herói local” a actuar em casa, Chelas, que era absolutamente impossível chegar perto do palco ou de um sítio que permitisse ouvir as suas rimas e batidas com a qualidade que merece. Temos pena de perder esta celebração, mas ficamos felizes por Samuel Mira ter conseguido viver este momento com as suas pessoas.  

A fechar o alinhamento de um dia heterogéneo, a actuação dos Dry Cleaning trouxe ao recinto a sua marca registada: a declamação inexpressiva (deadpan) da vocalista Florence Shaw sobre uma base instrumental assente no post-punk britânico, enquanto a norte-americana Ravyn Lenae ofereceu uma transição aveludada com a sua fusão de R&B e pop. 

O Meo Kalorama encerra este domingo com uma última jornada dedicada novamente às linguagens do hip-hop e do rock, através das actuações de Clipse, Freddie Gibbs com The Alchemist, Deftones, Turnstile, High Vis ou Pelados.

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