[category]
[title]
A terceira temporada da série de Augusto Fraga estreia-se na Netflix esta sexta-feira, 10 de Abril, e fecha um ciclo que mudou a ficção portuguesa – dentro e fora do ecrã.

“Antigamente, as pessoas não gostavam de dizer que eram de Rabo de Peixe. Eram olhadas de lado. Agora, dizem com orgulho: ‘eu sou de lá’, mesmo que tenham nascido na Marinha Grande”, diz entre risos Rodrigo Tomás, que interpeta Rafael em Rabo de Peixe. Muito mudou na vida dos actores, equipa técnica e da própria localidade açoriana, quando nos preparamos para entrar na terceira e última temporada da produção portuguesa da Netflix, que lança os derradeiros episódios esta sexta-feira, 10 de Abril, fechando um dos capítulos mais improváveis – e bem-sucedidos – da ficção televisiva portuguesa recente.
Criada por Augusto de Fraga, Rabo de Peixe regressa com um salto temporal. Depois de cumprir uma pena de três anos de prisão, Eduardo (José Condessa) reencontra uma ilha transformada e uma comunidade sob novas ameaças. Mas mais do que a história que conta, esta última temporada é também sobre o fim – e sobre tudo o que fica depois dele.
Logo à partida, houve uma decisão consciente de terminar a série. “Foi um pedido e uma decisão que tomámos com a Netflix e que acho óptima”, explica Fraga à Time Out, dando graças por ter a oportunidade de fechar a história nos seus termos, sem ter de a diluir. “É uma sorte que nem todas as séries têm. Que é ter um final definido à partida”. “Não queremos arrastar, queremos acabar em grande, em cima, e acho que esta história acaba aí.”
Essa noção de fim, no entanto, nem sempre esteve presente durante a rodagem. Entre o elenco – que junta também Helena Caldeira (Sílvia), André Leitão (Carlinhos), Rodrigo Tomás (Rafael) – o foco foi outro. “Só queríamos fechar bem esta história”, admite Condessa. “A consciência da despedida na última cena”, diz. “Foi um luto antecipado de algo que amas muito e que sabes que não vais poder voltar a viver”.
Ao longo de três temporadas, as personagens mudaram – e muito. Para Augusto de Fraga, essa transformação é o verdadeiro motor desta narrativa “sobre sonhos, decisões, consequências, relações humanas”. “A grande razão para ver a terceira temporada é exactamente perceber o processo de aprendizagem pelo qual passaram as nossas personagens”. Eduardo é um exemplo claro. “Se no início quer mudar o mundo, no final talvez perceba que é ele quem tem que mudar.” O mesmo acontece com Sílvia, que “só realmente se torna uma mulher independente no final da terceira temporada”; ou Rafael, que “só encontra o lugar onde pode ser quem realmente quer ser no final”.
Os actores confirmam essa evolução, olhando para trás como quem revê um percurso duro. “Há uma inocência e uma inconsequência na primeira temporada que acaba a partir do momento em que chegam estes fardos de droga”, explica André Leitão. A partir daí, tudo se altera: “Fazemos um mergulho perigoso e de decisões muito difíceis para jovens tão imaturos. Na terceira temporada, temos todos uma necessidade de tomar as rédeas do nosso destino e assumir alguma responsabilidade.”
Helena Caldeira resume o arco de Sílvia como um crescimento. “Na primeira temporada, apresenta-se uma miúda, sem responsabilidades. À terceira, encontramo-nos perante uma jovem mulher a lidar com as consequências dos seus actos”, diz. No fundo, como acrescenta José Condessa, são personagens que, “no final, apesar de mais doridas, depois de tudo isso que passaram, estão mais certas daquilo que fazem”.
Rodada nos Açores, a série sempre tratou o território como mais do que um cenário. “Os Açores são uma personagem da série”, diz Augusto, destacando não só as paisagens, mas “o ambiente cultural, as tradições, a linguagem”. A terceira temporada vai ainda buscar referências históricas locais, como o movimento da Justiça da Noite – um movimento de milícias populares e vigilância nocturna na Ilha Terceira –, para aprofundar essa ligação.
Mas o impacto faz-se em várias frente. Para o elenco, houve uma mudança real na forma como Rabo de Peixe é visto. “Houve uma transição e uma mudança nas notícias que se via quando se pesquisava por Rabo de Peixe”, explica André. Para os actores, essa mudança de percepção faz parte do legado que deixam. “Se contribuímos para desmarginalizar um bocadinho Rabo de Peixe ficamos muito felizes”, diz Rodrigo Tomás.
Há também uma nova atenção para o que se passa em Rabo de Peixe e nos Açores em termos culturais. Há cada vez mais turistas a visitar esta localidade que, outrora, foi considerada uma das mais pobres da Europa, enquanto culturalmente, festivais como o Tremor levam cada vez mais espectadores até lá e há artistas locais, como Espama Trincana, a chamar a atenção do “continente”.
Ao nível da indústria, Augusto de Fraga descreve a produção como um “marco em Portugal”. “Somos a série portuguesa que chegou mais longe em termos de audiência”, refere, esperando que existam mais exemplos de sucesso. “Espero que seja a primeira e que muitas outras façam ainda mais.” José Condessa fala mesmo de um momento charneira: “Eu acho que há um antes e depois de Rabo de Peixe. Isto é uma acendalha para tudo o que vai ser o futuro da ficção e uma demonstração do talento que temos em Portugal”.
Depois vem a pergunta inevitável: este é mesmo o fim? Não haverá outras personagens que mereçam explorar numa nova produção. Breaking Bad parecia ter terminado com um embrulho perfeito, mas ainda nos deu a maravilhosa Better Call Saul. Oficialmente, sim. “Rabo de Peixe está fechado. Para mim, essa história terminou”, garante Augusto de Fraga. Ainda assim, no reino da hipótese e imaginação, existem histórias que gostava de continuar a explorar – como dar a conhecer um pouco mais de Uncle Joe, interpretado por Pêpê Rapazote, e a sua vida nos Estados Unidos – mas não para já. “Neste momento gostava de fazer outros projectos.”
Do lado dos actores, apesar de reconhecerem que este é o fim, a porta fica entreaberta. Falámos de potenciais spin-offs, mas a ideia que parece interessar mais os actores é revisitar as personagens. “Gostava de ver onde estão estas personagens daqui a 20 anos”, sonha André.
Para Condessa, uma coisa é certa: Eduardo, Carlinhos, Sílvia e Rafael nunca os vão abandonar. “Há personagens que, mesmo depois de deixarmos de as interpretar, continuam a pairar de alguma maneira. Sentimos a energia delas. Pode ser menos palpável, mas elas ficam connosco”, afirma o actor.
Por enquanto, não vale a pena sentir-se nostálgico. As despedidas fazem-se esta sexta-feira com os seis derradeiros capítulos. Esteja atento ao quinto episódio, Augusto promete que vai surpreender.
Netflix. Estreia a 10 de Abril (T3)
📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn
Discover Time Out original video