Notícias

Quase desmaiei durante este ritual de bem-estar mexicano – mas foi a melhor coisa que alguma vez fiz

Traduzindo-se por “casa de calor”, o temazcal é uma cerimónia sagrada originária da Mesoamérica. Eis o que aconteceu quando a experimentámos.

Hebe Johnson
Escrito por
Hebe Johnson
Contributor, Time Out Travel
Temazcal in Mexico
Photograph: Nailotl / Shutterstock
Publicidade

Estou encolhida no chão, a suar profusamente e a relembrar-me de respirar. Preciso de respirar fundo o suficiente para evitar desmaiar, mas não tão profundamente que provoque um ataque de tosse ao inalar o ar espesso e impregnado de ervas que me rodeia.

Acreditem ou não, este processo é supostamente terapêutico.

Estou num temazcal, uma espécie de sauna espiritual, em San José del Pacifico, uma pequena vila montanhosa situada a cerca de 2300 metros acima do nível do mar, no estado de Oaxaca, no México. O temazcal tem origem na Mesoamérica, que cobria grande parte do actual México antes da colonização espanhola no século XVI. O nome provém do Nahuatl, uma língua indígena do México, e significa “casa de calor”.

Este temazcal está aninhado numa floresta de pinheiros, parcialmente camuflado pela folhagem circundante, e feito de tijolos de lama e pedra vulcânica. Tem a forma de uma cúpula – o que é adequado, pois representa o ventre da Mãe Terra, e crê-se que a cerimónia seja uma viagem de renascimento.

The temazcal entrance
A entrada do temazcal | Fotografia: Hebe Johnson para a Time Out

Antes de o suor começar, eu e outros nove mochileiros reunimo-nos à volta de uma mesa de madeira para uma cerimónia do cacau. O nosso “xamã” – um tipo surfista do Colorado, todo musculado – fala-nos sobre o significado do cacau nas culturas indígenas mexicanas. Historicamente, o cacau puro era considerado um medicamento. Era utilizado em rituais para alinhar a mente, o corpo e o espírito.

Depois de o nosso xamã servir o cacau e passar as canecas, pede-nos que definamos uma intenção para a sessão. Algumas pessoas parecem levar esta instrução a sério, franzindo a testa. Outras, nem por isso. Um australiano, distraído pelo sabor óptimo do cacau, bebe a caneca toda de um trago.

Cacao
The cacao | Photograph: Hebe Johnson for Time Out

Enquanto os restantes bebem o cacau – e o australiano olha para as nossas canecas com inveja – o xamã mistura ervas medicinais numa grande panela, que será despejada sobre pedras quentes dentro do temazcal para criar um vapor denso.

A mistura inclui camomila pelos seus efeitos calmantes, salva pelas suas propriedades de limpeza espiritual e – provocando alguns risinhos no grupo – canábis, pelos seus poderes medicinais. Assim que a mistura está pronta, a cerimónia começa.

Entramos em fila no temazcal e, assim que todos estão acomodados, o nosso xamã fecha a porta. A escuridão engole-nos e sou imediatamente dominada pelo pânico. De alguma forma, tinha-me esquecido de que tenho um medo de toda a vida de pequenos espaços fechados. E, talvez sem surpresa, estar sentada coxa com coxa com autênticos desconhecidos num breu total, rodeada de ar quente, acaba por ser bastante perturbador.

The herbal concoction at a temazcal ceremony
A mistura de ervas | Fotografia: Hebe Johnson

“Esperem!”, grito eu, quase involuntariamente. O xamã, provavelmente bastante habituado a ver pessoas a passar-se nesta parte, abre a porta novamente e eu explico o meu pânico.

Ele aconselha-me a sentar na ponta, mais perto da porta, por isso troco de lugar com alguém. Ele diz também que o ar fica mais quente e espesso quanto mais alto estivermos. Sabendo que não há prémios para cerimónias de temazcal, sento-me no chão.

A pessoa ao meu lado, uma mulher quebequense que conheci há 15 minutos, sente o meu pânico. Ela baixa-se e agarra na minha mão. Este pequeno gesto de bondade faz com que as lágrimas me venham aos olhos. Agarro-me com força.

A cerimónia está dividida em quatro etapas ou “puertas” (portas) de 20 minutos, cada uma focada num elemento diferente – terra, água, ar e fogo. Ao longo da cerimónia, o nosso xamã relaciona cada elemento com uma fase ou aspecto diferente das nossas vidas.

“A escuridão
engole-nos e sou imediatamente dominada pelo pânico.”

O primeiro elemento, a terra, representa a nossa ligação ao nosso corpo físico e aos antepassados. Segue-se a água, que se foca no nosso eu emocional. Como a água, devemos aprender a fluir e a adaptar-nos. A terceira fase, o ar, foca-se na clareza mental. Somos encorajados a examinar os nossos padrões de pensamento e crenças. A última fase é o fogo, que é também quando o temazcal está no seu ponto mais quente e intenso. Isto representa o renascimento e novos começos.

Durante a primeira secção, estou constantemente à beira de um ataque de pânico. Dou por mim a baixar-me cada vez mais, até estar encolhida em posição fetal, o que, mais uma vez, parece apropriado para todo o tema do renascimento.

Quase instintivamente, encontro a toalha que estava enfiada na frincha ao fundo da porta e puxo-a, deixando entrar um vislumbre de luz e ar fresco. Sorvo-o com gratidão e o meu ritmo cardíaco abranda.

Mas o xamã sente claramente a pequena corrente de ar. Ele estica-se silenciosamente e empurra a toalha de volta para o sítio. Começo a contar, na esperança louca de fazer o tempo passar mais depressa.

Passados 20 minutos, podemos finalmente sair do temazcal para o nosso primeiro intervalo. Dizem-nos para nos refrescarmos com um duche frio, mas eu chamo o xamã à parte para pedir conselhos.

A foggy road in San Jose del Pacifico
San José del Pacifico | Fotografia: Hebe Johnson para a Time Out

“Estou a achar isto muito difícil, como se estivesse constantemente prestes a parar de respirar”, digo-lhe. Estou à espera de simpatia e conforto, talvez algum conselho espiritual.

Em vez disso, ele sorri para mim, coloca uma madeixa de cabelo brilhante atrás da orelha e encolhe os ombros: “Os vencedores nunca desistem e quem desiste nunca vence”.

Sábio conselho, e eu não sou de desistir. Agora tenho de voltar a entrar. Respiro fundo e ganho coragem.

Quando o xamã começa a falar sobre o segundo elemento, a água, concentro-me realmente na minha respiração. Percebo também que, se tapar os olhos com as mãos, sinto que estou no controlo da escuridão, o que torna as coisas um pouco mais fáceis.

Recomendado: Entrei na Grande Pirâmide de Gizé. Foi mágico, mas nunca mais lá volto

Estou a concentrar-me tanto em não ter uma espécie de esgotamento nervoso que não capto muito da conversa do xamã, embora saiba que é sobre manter o controlo do nosso eu emocional. Curioso, isso.

A concentração faz o tempo passar mais depressa e, antes que dê por isso, é hora do nosso segundo intervalo. O ar fresco da montanha é bem-vindo, e deixo a minha pele ficar gelada debaixo do duche, como preparação para o calor do temazcal. Quando chega a altura de voltar lá para dentro, o poço de pavor no meu estômago foi substituído por outra coisa. Inquietude? Preocupação? Seja o que for, embora continue a ser desagradável, parece muito mais gerível.

Desta vez, ouço realmente o que o xamã está a dizer. Ele está a encorajar-nos a examinar verdadeiramente os nossos pensamentos e a fazer escolhas conscientes sobre aqueles a que nos agarramos e aqueles que largamos.

Penso em como escolhi conscientemente ignorar os pensamentos que me diziam para fugir para o mais longe possível do temazcal, e começo a sentir algo novo. Orgulho.

San Jose del Pacifico scenery
Paisagem de San José del Pacifico | Fotografia: Hebe Johnson para a Time Out

Antes do quarto e último segmento, dão-nos mel e cacau para nos besuntarmos. Algumas vespas nas redondezas devem ter-nos cheirado, achando que lhes tinha saído a sorte grande, porque em breve estamos rodeados e todas as lições profundas e espirituais ficam pelo caminho. Corremos de um lado para o outro, aos guinchos e aos gritos, enquanto o xamã tenta recuperar o controlo.

De volta ao interior do temazcal, mesmo antes de o xamã fechar a porta pela última vez, vejo o australiano lançar um olhar furtivo em redor antes de lamber um pouco da mistura de mel e cacau do braço. Suprimo uma risada.

O último segmento é sobre o fogo, o elemento que impulsiona o crescimento e a mudança. O fogo, diz-nos o nosso xamã, queima o medo, permitindo-nos renascer. Um resumo bastante apto da minha experiência no temazcal, diria eu.

Após a última secção, não precisamos do duche frio, porque os céus abrem-se. O vapor sobe da nossa pele quente e suada e apanhamos as gotas de chuva com a língua, a rir quase delirantemente enquanto a adrenalina abandona os nossos corpos.

Para mim, a libertação emocional deste momento é sobretudo alívio. Nem consigo acreditar que aguentei os 80 minutos completos, especialmente tendo em conta como me senti após os primeiros 20. Suponho que me sinta renascida, de certa forma. É sobretudo uma sensação de ter superado o desafio. Nunca o voltaria a fazer, mas estou orgulhosa por ter conseguido desta vez.

✈️ Mais viagens: guias e notícias para as melhores escapadinhas

📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn

Últimas notícias
    Publicidade