Depois de um hiato de cerca de cinco anos, Raquel Tavares está de volta ao activo. A fadista está a preparar um concerto para o Coliseu dos Recreios, em formato 360º, chamado A Inevitabilidade de Cantar. Está marcado para a noite de 5 de Dezembro. Ainda antes disso, é lançado no final de Novembro o seu novo álbum. A Time Out esteve com a mulher que deu voz a “Meu Amor de Longe”, na histórica sala de espectáculos das Portas de Santo Antão, para falar sobre a pausa, as músicas novas e o estado actual do fado.
Aos poucos, com alguns concertos esporádicos, tem regressado ao seu percurso musical. Agora está na iminência de lançar um disco novo e de actuar no Coliseu. Como se está a sentir?
Nesta altura do campeonato, os nervos são diferentes de quando tinha 20 anos. Foi quando lancei o primeiro álbum e actuei pela primeira vez no Coliseu [em nome próprio]. É outro tipo de nervo, que até é bom de se sentir. Este novo desafio surgiu em circunstâncias absolutamente diferentes. Estas minhas escolhas, agora, vêm numa idade e num tempo diferentes. Fui eu que decidi tudo. Fui eu que decidi fazer o disco. Fui eu que decidi fazer este Coliseu. É óbvio que tenho alguma ansiedade, mas vivo este processo com outra tranquilidade.
Porquê vir actuar ao Coliseu?
Esta é a sala da minha vida. Independentemente das salas por onde canto – e já cantei em algumas, felizmente –, o Coliseu continua a ser especial por todas as memórias que tenho. Há uma ligação emocional a esta sala, desde a primeira vez que me recordo de aqui cantar, quando tinha 12 anos, em 1997, na Grande Noite do Fado. Portanto, por tudo o que já aqui vivi e o histórico que esta sala tem para mim, tudo isto tem muito peso na decisão de fazer este retorno aqui. E depois, ainda há o meu novo álbum.
Este processo parece ser o contrário daquilo que se faz, normalmente.
Sim [risos]. Normalmente o Coliseu faz-se no final de vida de um álbum, depois de já teres corrido o país a cantar. Desta feita, fiz tudo ao contrário. Eu volto a cantar e, de repente, marco um Coliseu e lanço. Tem muita graça a liberdade de poder fazer estas escolhas, nesta altura da minha vida. Este concerto é inevitável, simbolicamente, e é também o nome que decidi dar ao espectáculo: A Inevitabilidade de Cantar.
Como chegou a esse nome?
Foi, efectivamente, inevitável chegar a esta altura e perceber que tenho que cantar. Não há como. Senti muita falta de cantar para pessoas. Porque, independentemente de estar longe da indústria – basicamente, fiz uma pausa na carreira –, nunca estive longe da música, muito menos do fado. Faço isto desde que me lembro, nem sequer há como estar longe. Era inevitável cantar para pessoas. Sentia muita falta de ter quem me ouvisse, porque eu cresci a cantar para pessoas. Eu tenho 40 anos e canto fado há 35. Nem me lembro de fazer isto de outra maneira. Há uma idade certa para tudo. Para tomar as decisões e fazer coisas... Eu, agora, anímica e emocionalmente, ainda tenho força e energia para conseguir avançar com um álbum novo e fazer um concerto no Coliseu. Foi este conjunto de factores que me fez, hoje, estar aqui a promover este concerto. Estou doida para que aconteça.
Estava a dizer que o Coliseu era o palco da sua vida. Que recordações tem dos concertos que viu aqui?
O meu primeiro concerto, devia ter cinco ou seis anos, foi o António Calvário, com a minha mãe. Tenho muitas memórias com ela neste espaço. Ela trabalhou na RTP durante muitos anos, tinha que vir para cá muitas vezes, e eu vinha com ela. Tenho memórias de andar a correr nestes corredores, de ver o circo de Natal e da Grande Noite do Fado, à qual vim assistir muitas vezes. Mesmo recentemente, vim ver o bailarino Joaquín Cortés. Já assisti a tudo e mais alguma coisa, até o Cats. Mais do que isso, é uma sala muito de Lisboa e eu sou muito de Lisboa. Eu sou tão daqui. É muito simbólico. Diz-se que é a sala de estar de Lisboa. Claro que há teatros lindos em Lisboa, já cantei em praticamente todos eles. mas esta tem qualquer coisa de especial. No início de Outubro, estive no Carnegie Hall, com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, o Ricardo Ribeiro e a Cristina Branco. É uma das salas mais emblemáticas do mundo. “Quando entrar no palco, vou sentir-me assoberbada”, pensei. Mas, apesar de ser imponente, não me assustou. Foi muito confortável cantar no Carnegie Hall. Mas, naturalmente, pensei nesta casa. E percebi: esta sala é que me deixa nervosa [risos].
É a pressão de tocar perante os seus?
Talvez. Por outro lado, também é um espaço que me desafia profundamente. Esta data vai ser distinta porque vai ser um espectáculo em 360°, o palco vai estar montado no meio do público. Para aquilo que venho apresentar, gostava de sentir proximidade e ter o público realmente perto. Era algo que me faltava fazer.
Houve algum momento específico em que decidiu que ia terminar este hiato?
Não existe um momento exacto. Foi algo que aconteceu de forma muito pautada. Voltei a cantar, na verdade, há dois anos, mas ainda tinha muitas dúvidas, não sabia se estava capaz, se estava apta ou se ainda sabia cantar. Na altura, falei com o Álvaro Covões e com a Everything is New porque eles organizam o Festival do Fado, onde cantei muitas vezes, e que faz um circuito internacional. Achei que, se fosse para voltar a cantar, devia começar lá fora.
O que a fez tomar essa decisão?
Precisava de perceber se ainda tinha esta capacidade e porque gostava que me vissem somente como artista e não com o meu histórico. Não queria levar nada disso para palco. Fiz várias datas em Espanha, em Barcelona, Madrid e Sevilha, para me testar e foi maravilhoso. As pessoas que estavam a assistir não faziam ideia do que é que se tinha passado. Eu era só uma fadista a cantar. Precisava de perceber se ainda conseguia ter impacto nas pessoas só com a minha voz. O que aconteceu em Espanha foi muito bom e trouxe-me muita confiança. Foi aí que percebi que estar em palco era algo que me fazia falta.
Então o fado é como andar de bicicleta? Algo que nunca se esquece.
Não há como. Mesmo que eu não cantasse, eu sou fadista. Este modo, é-me casa. É muito familiar. Mas palco é outra conversa. Precisava de perceber e afinar algumas coisas, voltar a sentir o pulso. Foi muito natural. Quando voltei, decidi fazer alguns concertos, sem levantar grandes ondas. Não anunciei que ia voltar a cantar. Fiz isto tudo de forma muito pautada, só queria mesmo cantar. Fomos fazendo algumas coisas em Portugal nos últimos dois anos, para que as pessoas soubessem que estava a voltar.
O que distingue agora este momento?
Neste Coliseu, agora que já me sinto preparada, pensei: “O que é que me apetece fazer?” É nesta fase da vida que estou. E foi isto. Foi marcar o Coliseu, gravar um álbum novo. Está tudo à mercê daquilo que me apetece fazer. Sinto-me uma pessoa muito mais preparada para levar isto com ligeireza. Não vou descurar o meu trabalho, mas estou a tentar extrair disto, que é ser artista, o melhor. Quero divertir-me a fazer isto, quero divertir as pessoas, emocioná-las e apaixonar-me pelo estilo todos os dias. O fado é uma música tão imensa que todos os dias me apresenta coisas novas. Todos os dias me faz perceber que eu não sei nada ainda sobre isto. Há tanta coisa para fazer. E agora sou eu que escolho o que fazer. E isso é uma liberdade extraordinária.
Nestes cinco anos teve várias experiências na televisão, como actriz e apresentadora. Esta reaproximação ao fado foi porque sentiu necessidade de voltar a este ambiente mais familiar?
Não tenho uma explicação lógica para tudo o que aconteceu, excepto o momento em que precisava de parar. Tudo o resto aconteceu de forma espontânea. Este trabalho na área da comunicação, na televisão, não vem à toa. Fiz rádio durante muito tempo, o meu objectivo em miúda era ser jornalista – queria ser repórter de guerra –, queria fazer jornalismo de investigação. A minha mãe trabalhou na televisão. Portanto, quando surgiu a oportunidade de fazer televisão, não apareceu porque sim. Na altura, o Daniel Oliveira sabia disto e convidou-me para experimentar. Tudo tem um porquê, na verdade, mas eu não sei explicar bem porque é que aconteceu desta forma. É claro que há um dia em que decidi: vou cantar. E decidi experimentar, mas não estava decidida a voltar. E, para ser muito sincera, nada disto é definitivo. Eu agora vou cantar, vou lançar um disco e vou cantar o fado – amanhã, quem sabe. A vida ensinou-nos a todos, nos últimos cinco anos, desde a pandemia, que não há como fazer grandes planos. Por agora, apetece-me muito cantar. Apetece-me cantar fado tradicional. Voltar à raiz e recentrar-me. Mas foi muito espontâneo. Se tivesse pensado demasiado, se calhar até tinha desistido da ideia [risos].
Dizia que fazia demasiados planos e falava na dificuldade de dar respostas definitivas, mas acha que no futuro a televisão, seja enquanto actriz ou como apresentadora, é algo que gostaria de revisitar?
Estou sempre aberta a voltar a lugares onde fui muito feliz e me senti concretizada. Não dá para fazer tudo, isso é um facto. Alguma coisa vai sair mal feita. Não dá para voltar à música e fazer televisão. Fiz televisão durante três anos e, quando abandonei, foi porque precisava de fazer aquilo que queria quando parei de cantar – e que não consegui porque, entretanto, veio a pandemia. Queria voltar a viajar, explorar uma série de coisas. E assim fui. Passei uma temporada no Brasil e quando voltei, pensei: “Agora vou voltar para onde? O que é que eu quero fazer?” As portas ficaram absolutamente abertas por onde passei. Criei boas ligações e não é uma porta que eu feche. Espero ainda ter oportunidade de visitar outras, não quero estagnar. Acho sombrio a ideia de ser uma única coisa a vida inteira. Por exemplo, aos 40 anos, comecei a montar a cavalo, era um desejo antigo. Por que não? É da minha vida que se trata e, para já, não impacta a vida de ninguém. São as minhas escolhas. Mas nada me garante que amanhã me apeteça fazer outra coisa.
Está a regressar ao fado cinco anos após uma pausa. Como olha para este cenário e para as suas mudanças?
Os fados estão de muitíssima boa saúde. Há muita gente gira a cantar. Não quero que isto pareça maternalista, mas há muitos meninos e miúdas novas a cantar e a tocar extraordinários e muito interessados em querer desbravar novos caminhos. Procuram a sua identidade, também com base naquilo que é a história antiga e o fado mais tradicional. Sempre que vou aos fados e vejo esta malta nova – e eu vou a muitos concertos – gosto de os apoiar e que se sintam validados, porque eu também precisei. Da mesma maneira que eu quis ser validada pelos antigos, quero muito que eles saibam que eu os admiro.
E em relação à indústria da música?
Esse é um lugar de que me é mais difícil falar. Respondo desta forma: decidi gravar, agora, um disco que é uma edição do autor. É meu. Sou eu que o vou fazer. Eu decidi fazer este coliseu com a Everything is New, mas fui eu que o programei. Sou eu que o estou a montar. Nesta altura da minha vida precisava de todas as rédeas daquilo que eu sou como artista. A indústria pode ser um bocadinho leonina. Não me apeteceu ceder como já cedi antes. Atenção, não me arrependo, porque fui bem-sucedida. Se hoje posso marcar um coliseu depois de cinco anos fora da indústria da música, é porque me correu bem. Sou grata, mas hoje não me sinto tão preparada para estar tão dentro dela.
Se calhar também não tem interesse em estar a trabalhar com regras impostas por outras pessoas.
Não, não tenho. Quero fazer a música que eu quero, ao meu ritmo, para quem quiser ouvir e não a música que estão à espera que eu faça. Marcar os concertos que eu quero, quando eu quero e onde eu quero. E assim é que faz sentido. Só assim é que, para já, faz sentido. Não estou a fazer um projecto muito comercial, o fado tradicional não é muito comercial, não vai tocar nas rádios. Mas, por agora, é o que me apetece fazer. Eu não pretendo mudar a indústria, mas, neste momento, não estou capaz de fazer parte de forma tão integral da indústria.
Uma vez que teve esta maior liberdade criativa, aproveitou para explorar algo de diferente nas suas músicas novas?
Decidi gravar aquilo que não me era permitido cantar quando era mais nova. Cresci num meio muito tradicional com regras muito rigorosas. Só cantava o que os antigos me deixavam cantar. Esperei muitos anos para cantar alguns fados que canto hoje. Quando voltei a cantar, pensei: “O que é que me falta? O que é que eu quero fazer que não me era permitido?” Não me era permitido cantar os fados que os homens cantam. A poesia dos homens às mulheres. A poesia do amor, do despeito, do ciúme, da raiva. Há fados maravilhosos do universo masculino que eu não podia cantar. E, agora, que sou eu a antiga (risos), tenho mais liberdade. Portanto, neste álbum, eu canto os temas dos homens. Canto o disco inteiro no masculino.
Acha que ainda é um tema tabu?
Isto não era permitido e ainda existe algum preconceito em Portugal. No Brasil é ao contrário, a poesia não se apresenta com género. O Chico Buarque canta as mulheres e a Maria Bethânia vice-versa. Aqui ainda estamos um pouquinho nesse caminho. Mas fiz questão de gravar este disco à antiga. Sem pré-produção, estúdios e arranjos. Foi tudo gravado em take directo. O que sair, saiu. Porque era assim que se fazia. É como se estivesse a assistir a um concerto.
Que novas possibilidades é que permitiu cantar estes temas no masculino?
Trouxe-me uma série de repertório novo. Estou muito confortável a cantá-los. Mais uma vez, isto não tem género. A poesia masculina canta à mulher. Não há nada mais belo de cantar do que a mulher, a figura feminina. O homem tem essa sorte. E eu queria cantar estes poemas dos homens às mulheres. Nesta altura tão cinzenta de ser mulher e de ser homem. A poesia não tem que estar nesse lugar. Isto é só poesia, é só música, é este o papel que trago. Não venho com bandeiras. Venho falar de música e cantar um repertório que, como mulher, eu hoje posso cantar e tenho a liberdade de o fazer.
Também abre um espaço para explorar temáticas novas?
Eu espero que sim. Tanto que eu tenho desafiado algumas miúdas a fazerem o mesmo. Deixem-se de amarras. Deixemos-nos de pruridos. Vamos só fazer música. Em última análise, somos artistas. É a música que temos que fazer em primeiro lugar. E eu quero dar prioridade é à música. Mais do que qualquer outra coisa.
Temos assistido a uma grande evolução no fado e muitas formas diferentes de o explorar, por exemplo, com artistas como a Ana Moura, a Carminho ou a Rita Vian. Sente que está a entrar num panorama completamente diferente?
Tenho imenso respeito por todas elas. Vou aos concertos, assisto e vibro com a Ana Moura. No ano passado viajámos juntas para o Brasil. Acho-a fantástica. E também ela veio agarrar na sua carreira e no seu percurso. Tomou as rédeas da coisa e muito bem. Tenho muita admiração por ela. Acho óptimo que se faça o que as pessoas têm de fazer, o que querem mesmo e o que as faz feliz. Independentemente de ser útil para a indústria ou não, ser mais ou menos comercial. As pessoas têm de fazer aquilo em que acreditam. E a Ana é o caso mais gritante disso no universo fadista. Ela fez aquilo que queria e está a fazer aquilo que quer e muito bem.
Sente alguma pressão neste meio?
Não, tanto que venho com um disco que não é nada comercial. É o oposto disso tudo. Não vai tocar nas rádios. Mas não é para isso que eu o fiz. Fiz o que me deu prazer. Este é um disco muito para mim e sei que há um público muito específico que o quer ouvir, porque há muita gente muito fadista e muito tradicional. Ainda há público para isso. A única coisa que quero erguer com este disco é o fado por si só, mostrar que ele vale a pena. Ele é óptimo com outras cores e abordagens, cresce imenso, é desafiante – quase que não tem limites. Mas ele é bonito como ele é tradicionalmente. É uma música grandiosa no seu todo. Tanto é que todos nós, homens e mulheres fadistas, ainda cantamos fados que se fizeram nos últimos 60 anos.
Tem falado muito sobre esta vontade de assumir as rédeas da sua própria carreira. Acha que isso pode ser uma boa inspiração e exemplo para outros artistas?
Espero que seja. Por exemplo, a Ana, para mim, foi um exemplo. Vê-la a fazer o que ela fez foi uma inspiração. Dá mais trabalho? Dá. Até podemos ter menos retorno financeiro, mas, caramba, se acreditamos na música que fazemos – e eu acredito que a minha vale a pena – é importante levá-la adiante. E sim, eu espero que sirva de inspiração. Ser disruptiva, cantar os homens. Porquê não? Onde é que está escrito que eu não posso? Posso. Fui validada. Estou a fazê-lo porque tive o aval de uma geração antiga. Portanto, quero que esta geração mais jovem chegue a este lugar. Espero servir de inspiração. Acho que todos estamos cá com esse propósito. Deixar um legado a quem vier.
Nos últimos cinco anos, esteve a desenvolver um percurso completamente diferente. Há alguma coisa que traz consigo e que pretende transportar para a sua música ou para cima de palco?
Acima de tudo, o que trago é a realização de que precisa de ser um processo divertido. Não saio de casa se não for para me divertir. Sou super emocional, não fosse fadista, mas preciso de fazer algo que seja prazeroso. Percebi, da maneira mais difícil, que nunca vou agradar a todos. Não é esse o meu propósito. Pretendo fazer o que me compete, o que me apetece, o que me diverte e que isso possa impactar as pessoas. Espero que as pessoas queiram partilhar isto comigo.
Deve haver uma grande satisfação em conseguir ter este olhar e postura perante a carreira.
Há uma serenidade nisto tudo. Já não me zango tanto. Hoje já não. Não quero voltar a ser vítima da ansiedade de fazer acontecer, de corresponder às expectativas. Só preciso de responder às minhas e ser fiel àquilo em que acredito. Portanto, há aqui um lado talvez mais emocional, mas muito mais sereno e disponível.
Há pouco estava a falar desse concerto de tributo à Amália nos Estados Unidos. Como foi essa experiência?
Foi espetacular. Foi um convite por parte da Égide Artes, no ano passado, a propósito da celebração dos 50 anos de um concerto da Amália no Hollywood Bowl, em Los Angeles. Eles decidiram recriar esse concerto com a ajuda do Ricardo Ribeiro, a Cristina Branco, o maestro Jan Wierzba e eu. Em Outubro estreámos no CCB e foi super divertido. Não sabia que era capaz de fazer aquilo porque nunca fui a mais fervorosa das amalianas. Sempre me pareceu uma referência muito distante. Tanto que, quando me convidaram para este projecto, achava que havia pessoas que seriam mais capazes de fazer aquilo do que eu. Mas insistiram e acabei por aceitar. Quando fomos para os Estados Unidos, uma comitiva de 200 pessoas, tivemos uma experiência maravilhosa no Carnegie Hall. Parecia uma criança. Estava muito feliz por estar naquela sala com aquelas pessoas.
Acredito que também tenha sido muito bom – especialmente para alguém que gosta de mostrar referências mais antigas – conseguir levar a música da Amália para um novo público e uma geração mais nova.
A Amália é impressionante. Aquela sala tinha pessoas de todas as idades e nacionalidades e foi muito impactante ver as reacções que a Amália ainda provoca nas pessoas, todos estes anos depois. Houve um momento, no final, em que fizemos o encore e cantámos a “Gaivota”. Depois de nós os três, há um momento em que se houve uma gravação da Amália. O Ricardo chorava em prantos, eu parecia uma criança a sorrir. É muito impactante ouvir aquela voz numa sala daquela dimensão. Realmente, a Amália foi uma artista e a maior manager de si mesma. Ela soube fazer e traçar uma carreira brilhante.
Mesmo que alguém não conheça as suas músicas, é um nome que, em Portugal, vai sempre reconhecer.
O nome Amália ainda deixa as pessoas em sentido. Acho difícil ser uma artista que desapareça. A Amália chega a todos os lugares e a todas as pessoas. Ela subsiste por si só. Não precisa de nós. Podem existir projectos interessantes, como os Amália Hoje, que trazem a Amália com contornos mais contemporâneos e que desperta a atenção dos miúdos, mas é tudo fruto do trabalho dela e do lugar que deixou.
Tem expressado muito o seu amor pelo fado, mas também não acha que ainda existe uma parte desta tradição mais nacionalista e machista? Acha que é preciso ter atenção naquilo que está a cantar?
Vejo as coisas de uma forma diferente. Cresci no universo fadista, não lembro da minha vida sem ser nos fados. É claro que cresci com homens e grandes fadistas. Acho que é muito redutor falar desse universo como sendo somente machista. Mesmo sendo um meio frequentado maioritariamente por homens, eu, Raquel, nunca me senti impactada por isso. Talvez porque eu tenha começado ainda pequenina e tenha existido uma sensação de paternalismo por parte da geração mais velha. Consigo perceber o que estás a dizer, mas não acho justo trazer esse carimbo para um universo onde eu cresci, onde eu me criei, e que me recebeu e que me tratou, na grande maioria das vezes, muito bem. Seria muito injusto dizer que fui maltratada por ser um meio mais masculino. Eu compreendo a análise, entendo que existe, não sou cega, mas não é justo eu estar nesse lugar. Eu não venho com bandeiras e não seria justo vir com uma bandeira que nem é a minha.
E em relação ao futuro próximo, temos o Coliseu de Lisboa, o novo álbum está para breve, o que podemos esperar ainda mais?
Para já não sei, acho que já estou com muito trabalho [risos]. Gostava muito de também conseguir fazer um concerto 360º no Porto. Depois disso, obviamente, eu quero cantar. Com que consistência, não sei muito bem, vai sempre depender também das pessoas que querem ouvir, mas por agora vou manter-me a cantar.
Coliseu dos Recreios (Lisboa). 5 Dez (Sex) 21.00. 20€-35€
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