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Rosalía em Lisboa: não é santa, mas foi uma aparição divina

Entre o sagrado e o profano, a artista catalã regressou a Portugal para um dos concertos mais aguardados do ano e saiu da Meo Arena com estatuto reforçado – não apenas como estrela pop, mas como uma performer total.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
Rosalía no Meo Arena
DR | Rosalía no Meo Arena
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Não sabemos se acreditam em milagres, mas a certa altura acreditámos mesmo que Rosalía ia abandonar o palco da Meo Arena a voar. Quem estivesse a passear pelo Parque das Nações sem contexto bem que poderia ficar confuso: “a Páscoa já não passou?”. A sala de espectáculos recebeu uma autêntica procissão, esta quarta-feira, 8 de Abril, para ver a cantora catalã. Já se cansou de ler referências religiosas sobre a artista e o seu disco mais recente, Lux? Ainda não acabamos.

Este era um dos concertos mais aguardados do ano e isso era notório pela quantidade de pessoas que se apresentavam na sala de espectáculos muito antes de este começar e pelas fatiotas escolhidas a rigor, nas quais reinava o branco e os véus.

Antes de a catalã entrar, no palco víamos apenas duas telas gigantes a funcionar como dois portões. Primeiro entrou a orquestra, liderada por Yudania Gómez Heredia, que se posicionou no centro da sala. O som de violinos abriu as hostilidades, seguido pelo contrabaixo e os instrumentos de sopro. Então, finalmente, as duas paredes separaram-se e revelaram uma caixa forte coberta por um pano. Não era preciso ter Holmes no apelido para adivinhar que o volume escondia uma autêntica força de natureza. Ei-la: Rosália, vestida de bailarina com um tutu cor-de-rosa, pronta para oferecer uma noite inesquecível a todos os presentes.

O espectáculo estava dividido como uma ópera, com quatro partes, intermezzo incluído, e claro, como não podia deixar de ser, o encore. A primeira parte inclui os primeiros cinco temas de Lux, um dos mais aclamados discos de 2025, e foi a mais solene, mas nem por isso simples. “Sexo violência y llantas”, apresentado num registo mais minimalista, introduziu o vozeirão de arrepiar da espanhola e desarmou a audiência. Seguiu-se “Relíquia” com os fãs a cantarem a letra praticamente na íntegra, enquanto Rosa continuava sem abandonar o pedestal onde se encontrava, como se fosse uma estatueta da Virgem Maria que encontramos em casa das nossas avós. A certa altura desta canção, canta: “Mi corazon nunca há sido mio/ yo siempre lo doy”. E o público, quase que em jeito de agradecimento, lançou-se numa ovação tal que parecia que o concerto tinha chegado ao fim. Íamos apenas na segunda música.

Seguiram-se “Porcelana”, cantada nas pontas dos pés, com os graves quase a rebentar o sistema de som da Meo Arena e o latim a misturar-se com japonês; e “Divinize” – que inclui uma versão de “Thank You” de Dido –, com véus gigantes a voarem no palco e a terminarem enrolados no corpo da cantora, graças à coreografia dos bailarinos.

“Estou muito feliz por estar de volta a Portugal”, diz a cantora, recordando as passagens por Braga, Porto e Lisboa como momentos especiais. “És linda, caralho”, grita alguém da audiência, dando voz ao que todos estavam a pensar naquele momento.

Esta parte do espectáculo é encerrada com “Mio Cristo Piange Diamanti”, com uma luz (demasiado forte e que por momentos cegou a bancada e a comitiva de jornalistas) a apontar para a cantora dando-lhe uma aura quase divina. Numa produção tão maximalista, é impressionante como alguns dos melhores e mais impressionantes momentos do espectáculo são os mais intimistas e minimalistas, quando deixam, simplesmente, a voz de Rosalía a brilhar. O Cristo de Rosália pode chorar diamantes, mas os fãs de Rosália choram lágrimas bem salgadas. Se o termo “pop elevado” foi inventado, foi para descrever este estilo de música.

Na segunda parte, introduzida por um vídeo cómico dos bailarinos a cantarem uma versão adaptada de “Mio Cristo Piange Diamanti”, Rosalía adopta uma persona mais gótica e obscura, lançando-se ao palco, ao som de “Berghain”, com um vestido negro e envergando uns chifres (a internet diz-nos que é uma referência a “El aquelarre” de Goya). Rapidamente, com a inclusão do remix de Conrad Taylor na secção final, o palco descende para uma rave caótica e infernal digna da capital alemã. Segue-se mais uma ovação gigante (mesmo que tenha faltado a presença de Björk e Yves Tumor – algo que perdoamos, o orçamento da espanhola não é infinito).

Os momentos para dançar prolongam-se com o reggaeton industrial de “Saoko”, “La Fama”, “LA COMBI VERSACE”, com The Weeknd e Tokischa, respectivamente, apenas a serem ouvidos pelo sistema de som, e “De Madrugá”. O espectáculo tem espaço para as várias facetas de Rosalía e é destas contradições – entre o twerk e as cuecas à mostra, durante “Saoko”, e cantar com um véu branco a cobrir a cabeça – que nasce este espectáculo tão singular.

Um momento da orquestra iniciou a terceira parte do espectáculo, com a percussão a brilhar, dando espaço a uma interpretação dramática de “El Redentor”, faixa de Los Ángeles, disco de estreia da cantora. Depois, uma interpretação do clássico “Cant Take My Eyes Of You” de Frankie Valli, enquanto é colocada uma moldura na sua frente e várias pessoas lhe tiram fotos, imitando uma obra de arte num museu. Um piscar de olhos para aqueles críticos que tentam colocar a cantora numa caixa e dizem o que esta deve ou não cantar. “No basé mi carrera en tener hits”, cantará mais tarde em “BIZCOCHITO”.

“Deus abençoe a Carminho, Portugal e o fado”

Depois tivemos um dos momentos mais cómicos da noite, com o palco a transformar-se num confessionário, com um jovem a relatar uma noite louca em Barcelona à cantora, partilhando como levou um homem para casa e, depois de lhe cozinhar arroz frito, ele fugiu e roubou-lhe o telemóvel. “Filho da puta”, atirou Rosalía sem papas na língua, dedicando-lhe “La Perla”. “Se cozinharem para vocês, nunca lhes roubem o telemóvel. Aliás, nunca roubem”, aconselha. Esta canção contou com uma das melhores coreografias da noite, com bailarinos a envergarem fatos pretos e luvas brancas com as quais faziam formas e, por exemplo, transformaram a catalã na Afrodite de Milos. Em “Sauvignon Blanc” sentou-se em cima de um piano e ofereceu uma performance altamente emocional enquanto a espectacular “La Yugular” foi de tal forma intensa – especialmente na parte em que declama os versos sobre como tudo no mundo está ligado, sob uma luz vermelha e enquanto choviam pétalas – que este jornalista foi incapaz de tirar notas devido à quantidade de lágrimas que tinha nos olhos. Um dos pensamentos que melhor se aproveita: “Dos momentos mais bonitos que já vi em concerto”.

Rosalía e Carminho
DRRosalía e Carminho

Finda toda esta intensidade, fomos brindados com um (merecido) momento descontraído e divertido, em que as pessoas na audiência tinham de imitar quadros clássicos, e com um intermezzo em que a cantora se dirigiu para o meio da audiência para interpretar “Dios Es Un Stalker”, “Lá Rumba Del Perdon”, “CUUUUuuuuuute” e, o momento alto do concerto, “Memória”, com a fadista portuguesa Carminho.

“Quando comecei a minha carreira, cantava em bares, restaurantes – às vezes para comer –, em casamentos ou comunhões. Numa dessas noites estava a tentar cantar uma dessas canções e apaixonei-me pela voz de uma artista chamada Carminho. É incrível porque 15 anos depois tenho o prazer de a convidar para palco”, revelou, no momento mais emotivo da noite. “Deus abençoe a Carminho, Portugal e o fado”, rematou.

O último acto foi reservado para músicas mais divertidas como “BIZCOCHITO”, “DESPECHÁ”, “Novia Robot” e “Focu’Ranni”, com o qual a cantora se despede, dramaticamente, do público, ao lançar-se de costas para a parte de trás do palco, sob uma ovação gigante, deixando cada vez menos dúvidas de que é uma das melhores e mais completas artistas da actualidade.

O encore ficou reservado para “Magnólias”, uma canção em que Rosalía fala sobre como a morte deve ser uma celebração da vida. Durante a sua catarse emocional, canta os versos “Dios desciende y yo asciendo/ Nos encontramos en el medio”, e este inocente jornalista chegou mesmo a acreditar a catalã ia voar e ascender aos céus.

A setlist de Rosalía para Lisboa

ACTO I
Sexo, violencia y llantas
Reliquia
Porcelana
Divinize
Mio Cristo piange diamanti

ACTO II
Berghain
Saoko
La Fama
La Combi Versage
De madrugá

ACTO III
El redentor
Can't Take My Eyes Off You
La Perla
Sauvignon Blanc
La Yugular

INTERMEZZO
Dios es un stalker
Memória
La Rumba del Perdón
CUUUUuuuuuute

ACTO IV
Bizcochito
Despechá
Novia robot
Focu 'ranni

Encore:
Magnolias

Esta quinta-feira, 9 de Abril, Rosalía dá o segundo concerto lisboeta da digressão.

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