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Sem carros e com sombra, o Mercado do Forno do Tijolo está a mudar. Todos gostam? “É um misto”

Comerciantes queixam-se de quebras no negócio, moradores rejeitam animação a mais, todos assumem necessidade de mudança. “O que me parece é que os jovens estão de acordo e os mais velhos contra.”

Rute Barbedo
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Rute Barbedo
Jornalista
Mercado do Forno do Tijolo
Rita Chantre | Mercado do Forno do Tijolo
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Que o Mercado do Forno do Tijolo, nos Anjos, não podia continuar como estava é unânime. Havia automóveis ali estacionados "há mais de um ano", como nota Luís Silva, da peixaria. Também muitos motoristas de transporte individual de passageiros faziam do local um parque à disposição, ocupando largamente os lugares disponíveis. Era uma zona de estacionamento desregulado no centro da cidade, fenómeno com o qual a Junta de Freguesia de Arroios (JFA) quis acabar. A 22 de Junho, os carros deixaram de poder entrar no perímetro do mercado, salvo excepções como pessoas com mobilidade reduzida e os comerciantes.

Entre as transformações planeadas pela JFA para mudar a vida do espaço, esta foi a primeira com mais peso e a que está a dar mais que falar entre os comerciantes e os vizinhos com mais idade. As restantes passam pela retirada de alcatrão para plantar árvores, a instalação de mesas e bancos, a criação de sombras, a disponibilização de equipamentos para jogos (ténis de mesa e badminton), a recuperação da dinâmica de um mercado com frutas e legumes de origem local e com um horário alargado, e a chegada de roulottes de comida. "É assim: isto é um misto. Por um lado, parece-me boa ideia, porque estava caótico. Mas, em termos de clientela, estamos a sentir uma grande quebra. Se as coisas andassem mais rápido, talvez fosse diferente, mas as mudanças estão a acontecer muito lentamente: são 15 dias para pôr as sombras, mais 15 para pôr uns bancos... E enquanto isso não temos como equilibrar o negócio, porque não vêm pessoas. Prometeram-nos que o mercado teria mais gente, com as barraquinhas de comida e os eventos. Mas também não sabemos como vai ser, que tipo de público virá. E talvez as barracas até sejam boas no Verão, mas e no Inverno?", indaga Cristina Alves, florista que trabalha há 18 anos no mercado.

No talho, onde Rogério Pereira serve há mais de 40 anos, as queixas vão no mesmo sentido. "Eu vendo cabazes, por exemplo. Agora, quem vem cá buscar dez quilos de carne a pé?", questiona o talhante, referindo quebras de 500 euros por dia durante a semana e de perto de 2000 ao sábado. "Como é que eu vou aguentar isto?", insiste. A conversa repete-se na peixaria, onde Ana Rosa defende que "devia haver um período em que os clientes podiam entrar de carro, para vir às compras". Apenas Tiago Dias, gerente da papelaria há cerca de um ano, percepciona uma mudança para melhor. É ele, aliás, quem guarda as raquetes e as bolas para jogar ténis de mesa lá fora, que agora já há onde fazê-lo (em breve, a Junta planeia também disponibilizar raquetes de badminton). "Se ficar como eles dizem, acho que vai ficar bom. Há pessoas que se sentam aí à sombra a ler ou a almoçar, e isso antes não acontecia. Agora, muita gente está chateada porque não lhes perguntaram a opinião. Fecharam isto e pronto", conta.

Mercado do Forno do Tijolo
Rita ChantreMercado do Forno do Tijolo
Mercado do Forno do Tijolo
Rita ChantreMercado do Forno do Tijolo

Numa volta pelo espaço, num dia quente de Agosto perto da hora de almoço, não vemos ninguém jogar, mas há quem leia um livro num dos bancos novos, à sombra do guarda-sol. Junto ao FabLab, há quem durma uma sesta. E, junto ao talho, começa-se a preparar o fogareiro para assar entremeada. "A intenção é reorganizar e valorizar um espaço que é muito central na vida da freguesia", sintetiza Manuel Banza, assessor do presidente da Junta de Arroios, João Jaime Pires, assegurando que, desde o início, houve comunicação com os comerciantes. "Até negociámos com eles a questão de terem estacionamento no mercado", exemplifica. Entre "mitos e receios", o responsável acredita que a resistência à eliminação da circulação automóvel no espaço "é normal", mas também sublinha que "os estudos indicam que há sempre um período de adaptação, mas depois as receitas acabam por aumentar". Havendo uma quebra de receita continuada e comprovada, a Junta afirma estar "disponível" para estudar formas de apoio e compensação ao comércio.

Menos movida, mais silêncio

Na primeira sessão de discussão pública do projecto, a 4 de Agosto, o grande tópico, porém, não foram os automóveis, garante o assessor. "Ficou claro para nós que há alguma resistência à ideia das roulottes. As pessoas receiam a gentrificação, é compreensível. Algumas também querem saber que tipo de negócios virão. Se forem coisas mais locais, estão mais abertas", refere Manuel Banza, assumindo que a Junta terá de retirar dos planos ou pelo menos reduzir a quantidade de roulottes inicialmente pensadas. "Nós preocupamo-nos em dar vida àquele espaço, mas percebemos que as pessoas querem um espaço de silêncio. Há sempre margem para adaptar o projecto, não queremos ir contra a população, se não nem estaríamos a organizar estas reuniões, que não são meras comunicações. Mas tem de haver uma mudança", diz.

A sensação de Cristina Alves, a florista, que também participou na reunião sobre a requalificação do mercado (foram perto de 50 cidadãos), é que "as pessoas desagradadas são as que não têm acesso à internet e às redes sociais", as que têm menos voz. Por outras palavras, é isto: "O que me parece é que os jovens estão de acordo e os mais velhos contra. Há clientes que fizeram cá toda a sua vida e que simplesmente deixaram de vir. Há muito descontentamento entre eles, porque não entendem isto", relata.

Mercado do Forno do Tijolo
Rita ChantreMercado do Forno do Tijolo
Mercado do Forno do Tijolo
Rita ChantreMercado do Forno do Tijolo

Através das redes sociais, o grupo Vizinhos de Arroios, que também participou na reunião (que considera ter sido realizada tardiamente, e num típico mês de férias), fez saber que está contra o actual projecto de transformação do Mercado do Forno do Tijolo. "Não concordamos com a remoção total dos lugares de estacionamento. O supermercado Lidl e os restantes estabelecimentos comerciais são utilizados por pessoas idosas e famílias numerosas, que frequentemente fazem compras volumosas. Consideramos, por isso, que devem ser mantidos pelo menos dez lugares de estacionamento temporário no local", defendem. Ao mesmo tempo, temem a criação de "mais um centro de venda e consumo de álcool na freguesia", com a respectiva geração de "problemas de ruído, segurança e higiene urbana". Embora o objectivo da Junta seja encerrar o mercado às 22.00, o colectivo alega que "o direito ao sossego e ao descanso não começa às 22.00". Mas aplaudem a ideia de transformar o espaço num "refúgio climático", "mais agradável e iluminado".

No final de Setembro (o dia ainda está por definir), vai acontecer uma nova sessão participativa sobre a requalificação da envolvente do Mercado do Forno do Tijolo, promete a JFA. Até lá, vão continuar a trabalhar no processo de revitalização do mercado propriamente dito, com o objectivo de que ali sejam vendidos produtos de origem local, num novo horário ("as pessoas não conseguem ir às compras até às 13.00", diz Manuel Banza) e terminar a instalação de coberturas para sombra, bem como de mesas e bancos corridos (nenhum deles sujeito a consumo), um bebedouro e nebulizadores. "Queremos que essa parte esteja pronta no início de Setembro, pela altura do Festival Todos, que vai ter lá muitas coisas a acontecer." Sobre os automóveis, a Junta diz estar a criar, em reacção às conversas com os comerciantes, dois lugares para recolhas de encomendas, por um período de 15 minutos.

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