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Na sua última edição em Arroios, o Todos põe-nos a pensar no futuro

Da ideia de “halls for all” à força das relações de afecto, o Todos acontece de 10 a 13 de Setembro levando circo, dança, cinema, música, performance, conversas e pensamento a Arroios.

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
Marcha do Todos, 2025
Amélia Monteiro | Marcha do Todos, 2025
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"É uma programação de muita escuta", sintetiza Miguel Abreu, director do festival Todos, que encerra este ano o seu trabalho no território de Arroios, aonde chegou em 2024. "Estamos há três anos a experimentar este modelo de programação participativa, em que são muito importantes estas relações que não são de decreto. Que as pessoas se encontrem e que vejam se têm cumplicidades" para depois fazerem coisas juntas, di-lo, na apresentação à imprensa da edição deste ano, a 18.ª, que acontece entre 10 e 13 de Setembro, sob o mesmo orçamento do ano passado, de 225 mil euros.

A "programação participativa" faz-se da já conhecida dimensão comunitária do festival, que inclui as tais afinidades nas vertentes cívica, artística e desportiva (numa nova aproximação), mas também de rua. Nela, entram os espectáculos ao ar livre – este ano, o Mercado do Forno do Tijolo é o epicentro do evento – mas também a habitual Marcha do Todos (dia 12) – "que tem cada vez mais peso no festival" – ou o percurso-manifesto guiado pelo colectivo Os Espacialistas por halls de prédios da freguesia ("Rua de Sentido Múltiplo", dia 13), esses "espaços de entrada ou de não entrada dos imigrantes". O mote deste Todos é, aliás, "(H)all. Vivemos Juntos", tomando este espaço como "símbolo da fronteira delicada entre o exterior e a pertença. Uma zona de negociação", pode ler-se no texto de apresentação do evento. Em paralelo, também há passagens por hospitais, pela Escola Secundária de Camões, pela Galeria Monumental ou pelo Goethe-Institut.

Marcha do Todos, 2025
Amélia MonteiroMarcha do Todos, 2025

Também nessa ideia de limbo, a edição de maioridade do Todos traz consigo "um pensamento focado naquilo que pode vir a ser Arroios". A reflexão integra os muitos edifícios expectantes da freguesia mas também espaços de centro, como o Mercado do Forno do Tijolo, que começa agora a ser transformado (foram recentemente retirados os carros da zona descoberta, estão a ser criadas zonas de sombra e disponibilizados equipamentos como uma rede de badmington ou raquetes de ténis de mesa) e discutido pelos cidadãos (a Junta de Freguesia agendou para 4 de Agosto uma sessão participativa sobre a requalificação do espaço).

Do circo francês à "vida quotidiana chinesa"

Olhando para o calendário de espectáculos, o festival começa com a peça de teatro Esta rua podia ter outro nome (dias 10 e 11), acerca do peso simbólico dos nomes dados aos lugares e às pessoas, e feita a partir de vários testemunhos. Já na performance O nosso vizinho Minty (dia 11), conhecemos a história de vida do chinês Minty Qiming Liu e as suas relações familiares, "porque sabemos muito pouco sobre a vida quotidiana chinesa", enquadra Miguel Abreu. Há ainda Puff (dia 11), da brasileira Alice Ripoll, cuja mensagem se centra nas "culturas silenciadas". "Ou as pessoas se preocupam com os outros e vão até eles ou eles nunca vão sair de onde estão para ir, por exemplo, até ao centro da cidade. Foi o que vimos nas Galinheiras", afirma o director do festival, recordando a passagem do Todos pela Ameixoeira.

'Puff'
Andy Catlin'Puff'
'Tancarville'
Georges Bistaki'Tancarville'

O circo contemporâneo, que tem sido uma forma de expressão eleita pelo festival, também não faltará em Arroios. Desta vez, a companhia francesa Le G. Bistaki leva ao pátio do antigo Liceu Camões "Tancarville" (dia 11), um trabalho em que lençóis surgem como um lugar de intimidade mas também de violência e memória colectiva. Destaca-se, ainda, em plena Rua Cavaleiro de Oliveira (perto da Praça do Chile), o espectáculo itinerante de Eduardo Ibraim, do Brasil, Aparar distâncias (dia 12) que experimenta um exercício em que a rua se torna co-autora da performance. Também no dia 12 (com reposição no dia seguinte), a actriz Lucélia Santos leva ao Auditório Camões a peça que não conseguiu apresentar em 2025. Vozes da Floresta – Chico Mendes Vive será um dos momentos altos do festival, em que a voz de três mulheres (que são a voz de Chico Mendes) representa o movimento de resistência dos seringueiros (profissionais que retiram o látex de seringueiras, árvores originárias da bacia hidrográfica do Rio Amazonas) do Estado do Acre ao ímpeto dos fazendeiros em destruir a floresta daquela zona do Brasil.

Lucélia Santos em 'Vozes da Floresta'
DRLucélia Santos em 'Vozes da Floresta'

Numa abordagem mais pedagógica, a programação reserva momentos para aprender o "estilo de dança académico mais antigo do mundo", a dança indiana da escola de Pandanallur (dia 12) ou para conhecer o Museu de Dermatologia ou os interiores dos hospitais de Arroios: o de São José e o dos Capuchos.

Comida e Terrakota

Com sabores do Iraque, Síria, Turquia, Índia, Bangladesh, Angola, Guinés-Bissau, Japão, China e Venezuela, a tarde de sábado (dia 12) é para comer no Mercado do Forno do Tijolo, ao longo das várias mesas comunitárias dispostas pelo espaço.

Gastronomia do Todos em 2025
Amélia MonteiroGastronomia do Todos em 2025

O Todos conta ainda com música de diferentes coordenadas, desde a festa de abertura sob a batida de Marco Antão (Switchdance, residente no Lux Frágil, no dia 10, nos Jardins do Bombarda) até ao concerto do Gonçalo Mendonça Manouche Swingtet (jazz manouche, no dia 12). O grande concerto do Largo do Intendente está a cargo, este ano, de Terrakota (também dia 12), grupo formado em 2002 à volta de sonoridades caribenhas, africanas e indianas.

Pelo meio há avós e exposições (a organização avisa que o programa pode, ainda, sofrer alterações) e, como espécie de aquecimento do festival, o Estações Próximas dá um cheirinho de vida em comunidade com sessões de cinema, um atelier de costura e uma visita ao Hospital de Santa Marta, entre 25 de Agosto e 9 de Setembro. A programação completa pode ser consultada aqui.

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