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Produzido pela Plano 6 e encenado por Luís Lourenço, o espectáculo estreia no Dia Mundial da Saúde Mental e acompanha um bando de animais atípicos.

Uma girafa de pescoço curto, um elefante sem tromba, uma toupeira com asas, um hipopótamo magérrimo, um pelicano sem patas, um crocodilo desdentado, um urso de pêlo comprido e um leão sem juba. Incapazes de fazer aquilo que seria “normal” para a sua espécie, estes animais sentem-se sozinhos e deslocados. Até que uma tempestade os reúne numa gruta e os obriga a confrontar os seus medos, frustrações e desejos de serem iguais aos outros. É esta a premissa de Ser Diferente É Normal, livro de Rui Malvarez lançado em 2024 pela Cordel D’Prata e reeditado este mês de Outubro pela Contraponto, e que chega ao palco do Tivoli pouco depois, numa adaptação de grande dimensão e em formato de teatro musical. Produzido pela Plano 6, com encenação de Luís Lourenço, o espectáculo estreia a 10 de Outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, e fica em cena até 7 de Novembro.
“Não acredito que uma peça de teatro mude o mundo sozinha. Mas pode iniciar uma conversa no caminho para casa, reforçar aquilo que é ensinado em família ou na escola, despertar uma pergunta ou fazer uma criança olhar de maneira diferente para alguém”, diz-nos Rui Malvarez, que fez nascer o seu bando de animais atípicos numa noite como outra qualquer. “Os meus filhos estão sempre a pedir-me histórias novas, então criámos uma rubrica que é ‘As histórias inventadas do papá’”, revela, entre risos. “Lembro-me de ter pensado como a Luisinha de vez em quando olhava para alguém com um tom de pele diferente e comentava, mas também como, num almoço, nos sentámos ao pé de uma criança tetraplégica e o Lourenço ficou mais sensibilizado por perceber que ela não consegue fazer o que ele faz.”
Ambientada na selva, porque “é um universo que as crianças gostam bastante”, a história é – como não poderia deixar de ser – protagonizada por animais. Neste caso, animais com características que os tornam distintos dos da sua espécie e com as quais não estão particularmente satisfeitos. “Também eu nasci diferente, com um sopro no coração”, desvenda Rui, que nunca pôde fazer desporto como os outros meninos e acabou por canalizar toda a sua energia para os estudos e o sucesso profissional. “Foi a minha cardiologista que me disse que este livro dava uma excelente peça infantil”, acrescenta, orgulhoso. “Depois de adaptar o texto, contactei produtoras e a Plano 6 deu-me espaço para apresentar o guião.”

Desde miúdo que escreve, conta-nos Rui. Apesar de inicialmente ter estudado engenharia, acabou por formar-se em Publicidade e Marketing, ser reconhecido na área e até abrir a sua própria produtora audiovisual. Ainda assim, admite, só agora, com mais de 40 anos, está realmente a fazer aquilo que lhe dá gozo. É, acima de tudo, um criativo, e foi por isso que, em 2023, vendeu a empresa para se dedicar exclusivamente à escrita. “Escrevi este meu primeiro livro depois de vender a empresa. Na altura, com a Cordel d’Prata, que decidiu apostar em mim, mas esta nova edição, que vai sair pela Contraponto, é muito diferente.” Revista e aumentada, conta agora com capa dura, tamanho A4 e ilustrações de Sofia Trindade. Já em palco, as personagens também ganham uma nova dimensão, “uma dimensão que o livro deixa apenas à imaginação do leitor”.
Encenado por Luís Lourenço, Ser Diferente É Normal conta com músicas de António Andrade Santos, coreografias de Colin Vieira, desenho de luz de Tomás Ribas, e cenografia e figurinos de Clivia Cohen. No elenco, André Magalhães, Camille Keller, Chris Santos, Joana Castro, Leonor Felga, Margarida Lopes Correia, Miguel de Sousa e Pedro Maralma. “Tem sido das melhores experiências da minha vida”, confessa Rui. “Quando decidi deixar a publicidade e investir na minha carreira de autor, fiz dois espectáculos ao vivo – chamo-lhes solos de humor e mensagem, porque são stand-up, mas sempre com uma mensagem por trás –, e correu muito bem, cheguei a esgotar o Villaret. Mas esta experiência é completamente diferente. É muito bom teres uma produtora como a Plano 6 por trás e a Ana Rangel convidou-me para fazer co-produção, o que significa que posso vir para aqui dizer o que acho.”
O entusiasmo é palpável. As músicas, oito ao todo, são bastante orelhudas e de diferentes géneros musicais – pop, rock, rap, samba, e por aí fora. Essa diversidade é propositada. Há três mensagens “extremamente importantes” nesta história: a inclusão (“aceita os outros e a sua diferença”), a solidariedade e a empatia (“que é um valor essencial, o considerares o outro”). Mas não são as únicas. Ao longo do espectáculo, há muitas mais, porque, como Rui já antecipara, o texto teve de crescer. “Os meus filhos já vieram ver e adoraram, ficaram completamente surpreendidos e pedem para ouvir as músicas no carro todos os dias”, partilha. “O Lourenço tem dez anos e a Luísa tem seis, que é o range perfeito para vir ver este espectáculo.” Mal podem esperar para rever tudo no escurinho do teatro.
A estreia no Dia Mundial da Saúde Mental acrescenta outra camada à história. Para Rui Malvarez, o principal conflito acontece, em grande medida, dentro das próprias personagens. “De certa forma, o grande ‘vilão’ da peça está dentro da cabeça de cada uma das personagens. São as barreiras que criamos, as inseguranças, a necessidade de corresponder às expectativas dos outros e o peso que damos ao olhar e à opinião externa”, explica o autor, que considera importante proporcionar às crianças ferramentas para questionarem a comparação permanente com os outros, num contexto em que a pressão dos pares, da escola e das redes sociais pode alimentar uma ideia de perfeição difícil de alcançar.
“O que eu quero é que as crianças aprendam que devem ajudar em vez de criticar, que precisam de gostar de si para gostar dos outros, que devem aceitar a diferença. Mas o aceitar a diferença física é só um primeiro passo para que, no futuro, sejam mais tolerantes sobre orientações sexuais e religiosas e políticas, que de facto são questões mais fracturantes”, remata Rui, que acredita que o texto também fala para os adultos – podia explicar porquê tim-por-tim, mas acha que tem muito mais graça ver. O encenador, Luís Lourenço, subscreve e acrescenta: “Quando li o texto pela primeira vez, pensei logo ‘eu quero tanto fazer isto’. Mas a primeira versão do guião é completamente diferente de como está agora. A evolução do texto tem sido espectacular e isto é um trabalho de todos. Eu não chego e digo que quero assim ou assado. O nosso foco é que nenhuma frase falhe, que não haja nada que o espectador não perceba, e está a ser um trabalho muito intenso. Mas é assim que se faz, e fica bonito. Todos se sentem validados."
As sessões para as famílias acontecem ao sábado e os bilhetes estão à venda por 15€, nos locais habituais. De segunda a sexta-feira, a entrada é exclusiva para escolas e requer marcação directa junto da produtora Plano 6, através de e-mail (escolas@plano6.pt) ou por telefone (213 304 152). Professores e técnicos de educação que acompanhem os grupos têm entrada gratuita. Está ainda prevista uma sessão com audiodescrição e interpretação em Língua Gestual Portuguesa, em data a anunciar. Depois de Lisboa, o espectáculo segue em digressão. Em Dezembro chega a Cascais e, em 2027, no mês de Março, ao Porto. A intenção é continuar a percorrer escolas e cidades de todo o país.
Avenida da Liberdade, 182 A (Avenida da Liberdade). 10 Out-7 Nov, Sáb 11.00 (abertura de portas às 10.00). 15€
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