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Traumas do México e uma Lisboa dos anos 80 fazem o festival de fotografia da Narrativa

Exposições fazem parte do Ciclo Narrativa, que acontece de 1 a 4 de Maio, e inclui conversas e apresentações de livros. A entrada é livre.

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
Lisboa 87/88
Ute e Werner Mahler (Cortesia Narrativa) | Lisboa 87/88,
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Estávamos em 1986 e Portugal tinha acabado de entrar na Comunidade Económica Europeia (CEE). Pouco depois, dois fotógrafos alemães, Ute e Werner Mahler, aterraram em Lisboa, acompanhados pelo jornalista Wolfgang Kil. A ideia era comporem um livro de viagens, destinado aos residentes da República Democrática Alemã (RDA). A excitação era sobretudo deles, já que era a primeira vez que conseguiam pisar um país da Europa ocidental. O dito livro, porém, nunca chegou a ser publicado e as fotografias ficaram esquecidas em caixas durante décadas, até 2021, ano em que foram descobertas.

São estas imagens que estarão expostas em mupis na Praça dos Restauradores a partir do dia 4 de Maio, naquele que é talvez o momento de maior visibilidade do Ciclo Narrativa, festival de fotografia de quatro dias (1 a 4 de Maio) organizado pela associação fundada pelo fotógrafo Mário Cruz. A Lisboa de 1987 e 1988 é, assim, a de duas pessoas que a exploram pela primeira vez.

Nela, ainda se vêem graffiti sobre a reforma agrária, passeantes aprumados da Baixa, gentes do campo e tabacarias, pequenos sinais de liberdade num território não assim há tanto tempo saído da ditadura. Mas as imagens são também um convite a reflectir sobre o presente da cidade, a partir dos "vestígios de outros tempos e as transformações por que passou", como refere a galeria Narrativa, no comunicado enviado à Time Out.

Lisboa 87/88
Ute e Werner Mahler (Cortesia Narrativa)Lisboa 87/88

Do México, a luz que repara 

"Lisboa 87/88" (fruto de uma parceria com a Câmara Municipal de Lisboa e o Goethe-Institut Portugal) é, porém, a segunda exposição a inaugurar no festival. O arranque está programado para o dia 1 de Maio, na Galeria Narrativa, com imagens de um México perturbado. O fotógrafo da agência Magnum, Yael Martínez, vem pela primeira vez a Portugal para expor "Luciérnagas" (que quer dizer "pirilampos", curiosamente repetindo o título de uma exposição recente da Narrativa), trabalho que começou em 2013, na sequência do desaparecimento de três familiares. A tragédia desencadeou "uma investigação sobre a violência disseminada do crime organizado na região", a partir dos encontros de Martínez com outras famílias cujos familiares haviam também desaparecido. "Através desses encontros, estabelecem-se ligações que ultrapassam a família imediata do artista e se estendem para além das fronteiras do México, até às Honduras, ao Brasil e aos Estados Unidos, formando uma constelação marcada pela experiência partilhada de violência endémica".

Além da investigação no terreno, o artista decidiu intervir fisicamente nas fotografias que tirou. Entre 2019 e 2023, perfurou as provas e retroiluminou-as, criando uma luz que tem "algo de reparador" e de "cautelosamente optimista". A abordagem "revolucionou a fotografia contemporânea ao fundir a componente documental com a arte conceptual e simbólica" para explorar "temas como o luto, a violência e a resiliência", sublinha a Narrativa. No fundo, Martínez trouxe poesia visual ao fotojornalismo tradicional, tornando-se uma referência obrigatória para as novas gerações de artistas.

Guerrero, México, 2020
Yael Martínez V.Guerrero, México, 2020

O Ciclo Narrativa, que celebra o aniversário da associação, conta ainda com a instalação temporária da Livraria Térmita, do Porto, no piso térreo da galeria; com a leitura de portefólios por Yael Martinéz, por Mário Cruz (fundador da Narrativa), pela editora especializada XYZ Books e pela curadora Katya Bogachevskaya; ou com o lançamento do livro Zero Zero Zero, de José Fernandes, um ensaio sobre os últimos meses de vida da mãe do autor. Do programa (que pode ser consultado aqui) fazem também parte uma conversa sobre a divulgação da fotografia em Portugal, uma conferência e uma masterclass com Yael Martinéz e a projecção do documentário A Photographic Memory, de Rachel Elizabeth Seed. Todas as actividades (à excepção da masterclass) são gratuitas, mas carecem de inscrição. Em 2025, o Ciclo Narrativa foi visitado por perto de 500 pessoas.

"Luciérnagas": Rua Dr. Gama Barros, 60 (Roma). 1 Mai-6 Jun, Qua-Sex 14.00-19.00, Sáb 14.00-17.00. Entrada livre

"Lisboa 87/88": Praça dos Restauradores (Restauradores). 4 Mai-6 Jun. Gratuito

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