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Uma associação batalhou, conseguiu apoios, montou balneários e espaços de convívio para os mais velhos, num bairro sem árvores nem bancos para sentar. Agora, organizam concertos e programam um mini-festival.

Há vários bairros dentro do Beato. Os "nobres", como o da Madre de Deus (cuja zona principal foi recentemente requalificada), onde fica a mata da freguesia e a moradia do ex-presidente Ramalho Eanes; a zona em gentrificação acelerada, junto ao Beato Innovation District e à faixa ribeirinha; e os outros. Entre estes últimos está a Picheleira, encostada à linha de comboio que divide a freguesia, com a rodovia, a antiga Curraleira e o muro do cemitério do outro lado. E lá dentro há ainda várias zonas. Foi no Bairro Branco (nomeado Bairro Municipal Carlos Botelho depois do processo de realojamento de famílias que viviam em barracas, no âmbito do PER – Programa Especial de Realojamento), onde a Gebalis anda a pintar prédios, que um conjunto de vizinhos criou, há 25 anos, a Associação de Moradores Viver Melhor no Beato (VMBA).
Viver melhor em que sentido? "A associação foi sobretudo criada para regularizar situações do EX SAAL. Ainda há muitos casos por regularizar, tanto daqui, como da Penha de França, do Areeiro... Faz tudo parte da mesma comunidade", enquadra a luso-francesa Amandine Bouillet, coordenadora de projectos na organização, que veio parar ao Beato mais ou menos de pára-quedas, vinda de uma longa experiência de trabalho social em banlieues de Lyon e de outras paragens internacionais. "A minha vida foi sempre isto. Também cresci numa comunidade fechada", explica, referindo-se à comunidade de emigrantes portugueses na cidade francesa, onde se fincava pé por uma cerveja Sagres e frango de churrasco.
O problema era de habitação, mas "quando se mexe neste tipo de questões, começam-se a perceber outros". "Houve zero investimento em espaço público, em serviços – não há aqui uma única farmácia ou posto de saúde –, em lazer, em equipamentos desportivos ou para a comunidade sénior", enumera.No Bairro Branco, não há uma única árvore ou banco para sentar. Corrija-se: os únicos que existem foram feitos por voluntários da associaçãoe instalados junto à porta das traseiras. É ali que se conversa. A poucos metros, junto à nova creche de Casal do Pinto (inaugurada em 2023), há um baldio de mato seco pontilhado de garrafas de plástico, sacos e papéis. Se a higiene urbana não é a melhor, a sinalização rodoviária também parece ter sido esquecida. "Não há passadeiras, não há sinais de trânsito, já pedimos dezenas de vezes para pôr um espelho ali em frente, porque é uma zona com muito má visibilidade, onde já houve acidentes", descreve a responsável.
Quando Amandine Bouillet chegou à Picheleira, percebeu que os vizinhos, conhecidos de há décadas, do tempo das barracas, pouco interagiam. Quem quer conversar ao sol, de pé? As pessoas mais velhas, sobretudo, "tinham muito medo de tudo", tornaram-se "desconfiadas", também porque perderam relações de bairro, rotinas e dinâmicas de solidariedade, como explica a coordenadora. Adaptado o espaço onde antigamente os cooperantes pagavam a quota da habitação, tornou-se a sede da VMBA e, com o tempo, o ponto de encontro do bairro, onde acontecem sessões de ginástica, oficinas para crianças, onde se lava a roupa, se toma banho ou se ouve música. "Começámos por criar respostas para as pessoas de idade, porque eram as que mais precisavam. Conseguimos ter serviços de enfermagem, fisioterapia... Não havia nada", descreve Amandine.
Se "isto é uma ilha", como lhe chama Amandine Bouillet, onde não há centro de dia ou apoio domiciliário, a cultura, então, sempre foi um braço de fora. "A programação cultural da Junta de Freguesia, por exemplo, foi quase sempre no epicentro da freguesia, no Bairro da Madre de Deus." O acesso a uma sala de cinema, teatro, concerto não era equacionado na ilha sem bases. "Percebemos que tínhamos de começar a mudar e que tínhamos de o fazer através de um processo muito participativo, em que as pessoas se envolvessem. Tínhamos de saber quem vivia aqui! E não podíamos falhar à primeira." Seria mais uma desilusão e um lugar onde não haveria força para voltar.
"Pegámos nos 50 mil euros do BIP/ZIP e fomos com tudo. Criámos uma comissão de moradores, para saber quem podia ajudar a montar, quem podia emprestar uma mesa, uma arca, o que fosse preciso", conta Amandine. A primeira Festa dos Vizinhos aconteceu em Maio de 2022, na rua, junto à associação, numa zona de fraca iluminação pública. "Houve jogos, insufláveis, desporto, pipocas, tudo. Os miúdos vinham, um bocado tímidos, perguntar se era pago, se podiam usar os insufláveis..."
Ao mesmo tempo, foi-se criando estrutura. "As pessoas já sabem a quem se devem queixar, onde se devem dirigir, estão mais preparadas", conta a coordenadora. Para as crianças e jovens, há um programa educativo e desportivo em curso, que inclui actividades como boxe, teatro ou dança. E há, ainda, um grupo de apoio a mães. Tudo isto, quando, há seis anos, o grande sonho da associação era "comprar seis raquetes".
Nos anos seguintes, criaram novas festas: a primeira à volta da comida, com um porco no espeto, depois, envolvendo a comunidade escolar e abrindo os espaços educativos à comunidade, e este ano trazendo guitarras e mesas de mistura para a rua. "Com um sistema de som de alta qualidade, porque faz toda a diferença."
A 16 de Maio, um sábado, a rua foi dos vizinhos e dos que vinham de fora – perto de 500 pessoas, ao longo do dia. "Os Ubers nem percebiam o que eles vinham cá fazer", ri-se a mestre em Gestão de Territórios. 16 voluntários trataram do palco, das grelhas, das colunas e da iluminação. Na música, actuaram La Família Gitana (banda do Bairro do Fim do Mundo, Cascais, que tem tocado em várias salas e festivais do país), DJ Fabriccia e DJ Richie. Houve cachorros, bifanas, arroz doce e morangos com açúcar. "Vimos aqui uma alegria que nunca tínhamos tido", confessa a coordenadora.
Isto já depois de a VMBA ter organizado (uma semana antes) uma festa junto ao Clube Recreativo e Cultural Os Onze Unidos (integrada no projecto BIP/ZIP "Uma Cena de Bairro", que envolve oficinas, estágios, residências e programação cultural no sentido de promover a empregabilidade e combater riscos entre os jovens do Beato), com Carlos Mil Homens, Diego El Gavi, Victor Zamora, as Batucadeiras das Olaias e DJ Migalhas, e depois de terem sido convidados pela CTL (Casa Capitão) a programar o festival MILímetro. Não esquecendo a romaria de malta da Picheleira à mesma Casa Capitão, a 8 de Maio (no festival Jameson Common Ground), para ver Lucas Maia, cantor do Porto apoiado na tradição luso-flamenca. "Foi a primeira vez de muitas destas pessoas num concerto ao vivo, numa sala", conta Amandine. E o público, que fique para registo, foi quase tão performativo quanto os músicos.
À chegada da Time Out à Rua da Fábrica de Estamparia (onde acontecem os convívios e festas da VMBA) para conhecer os planos da associação, já há conversa à porta. Falam de pioneses. "É preciso pôr um pionés ali", dizem, referindo-se a um bairro vizinho e assumindo que, no Bairro Carlos Botelho, de alguma maneira, já existem esses marcadores. "Demos uma lição sobre o que pode acontecer quando a comunidade se mexe e agora queremos dar palco, queremos apanhar esta onda e fixar a Picheleira no mapa."
De janelas abertas, passa um carro cantando "Cigana Linda" nos cruzamentos. "Virámos o exemplo da zona. A partir de um momento, a associação começou a bombar e virou o ponto central daqui. Na verdade, é o único ponto", reconhece Amandine. As fontes de financiamento, sempre associadas a projectos concretos, foram-se diversificando. "Às vezes, já não temos espaço para pôr os materiais", conta. Para o futuro, o desejo é conseguir acesso a uma das "muitas lojas fechadas" (propriedade camarária) do bairro. "Há cinco anos que estamos a tentar. Precisamos de mais espaço. Não podemos ter aqui tudo ao mesmo tempo: pessoas a fazer crochet, miúdos a ouvir rap em altos berros e pessoas a entrar para tomar banho."
A curto prazo, também há planos muito concretos, que passam por testar as capacidades da associação e da comunidade numa programação cultural contínua. "Ganhámos alguma confiança e competências, estamos prontos", acredita Amandine. A primeira amostra fora do bairro e numa casa de espectáculos acontece a 6 de Junho, depois de nove meses de preparação. Ao MILímetro, festival de entrada livre que é um exercício de democratização na área da programação cultural, 17 jovens da VMBA vão levar Deejay Rifox, Décio, Afonso & Nairon, lian:e, VK e Gavi. Vai também haver um workshop de serigrafia com a Oficina Fritta, uma oficina de kizomba com Santos Aurio, uma exposição e uma conversa sobre as formas como o bairro tem mudado.
Numa frase, Amandine Bouillet resume essa mudança: "Ficámos isolados mais de 50 anos, não vai acontecer mais."
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