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“Vejo o boxe como um jogo, um bailado com cabeça”

Orlando Jesus é o homem que viveu 16 vezes e o herói de ‘Soco a Soco’, documentário de Diogo Varela Silva que chega às salas esta quinta-feira, 14 de Maio. Fomos conhecer o campeão do boxe e de uma outra Lisboa.

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
Orlando Jesus em 'Soco a Soco'
DR | Orlando Jesus em 'Soco a Soco'
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Faça-se jus a quem o levou para a tela. Diogo Varela Silva (realizador de Zé Pedro Rock 'n' Roll ou Celeste, sobre a sua avó, a fadista Celeste Rodrigues) já conhecia Orlando dos anos 90, quando era um miúdo de bar em bar e o boxeur um empresário da noite. Mais tarde, foi dar com ele ao ACM, ginásio histórico da Rua de São Bento, onde o várias vezes campeão nacional de boxe treina há uma década. Varela queria aprender o jogo, mas viu também no homem agora com 72 anos faísca para um filme.

Em Soco a Soco (vencedor do Prémio do Público no Doclisboa, em 2025), vai-se com Orlando Jesus das barracas da Ajuda à fuga do colégio, à vida na Musgueira e em todos os bairros. "Eu andava por todo o lado, era um rapaz da rua", diz em conversa com a Time Out. Era também o rufia, o vadio, o moço pendurado na porta do eléctrico, que agora, no filme que chega às salas esta quinta-feira, almoça pacatamente com amigos na esplanada de A Severa (casa de fados da Mouraria), canta fado na Tasca da Bela (Alfama) ou treina com o filho (também metido no boxe) nas subidas de Monsanto.

Muito antes, sobreviveu a nove tiros e sete punhaladas, e fez uma boa parte da história de Lisboa, dos combates no Parque Mayer à gerência do Truque ou do Cova do Galo. É também sobre isso que conversamos com Orlando, que desde os 13 nunca largou as luvas. "Vi que o boxe só me arrastava para o bem. Quando dou por mim, estou no meio da sociedade."

O filme conta muitas coisas mas não conta tudo. Nem tem de contar.
Não se pode contar tudo…

Mas eu gostava de saber mais. Por exemplo: quando era miúdo, andava muito à pancada na escola, com os colegas, e com o irmão, em casa...
Com o meu irmão, não. Com o meu irmão era a jogar ao boxe.

Não era a sério?
Não, não. Na escola é que era.

Por feitio?
Vamos lá ver. Tenho 72 anos. Há uns 68, as coisas eram muito diferentes. Vim de uma família pobre, humilde. Íamos para a escola de pé descalço… Os miúdos enrolavam-se uns com os outros e o que sobressaía mais, o mais malandro, era por quem eles tinham respeito. "Eh pá, o Orlando e tal, o Russo" – chamavam-me o Russo – e era assim que a gente se dava…

Era uma maneira de se afirmarem.
De miúdos nem tínhamos essas ideias. Eram os acontecimentos imediatos. Era um soco para cá, outro para lá, um agarramento para o chão e, pronto, acabava, aquilo ficava por ali. Só depois, quando temos mais idade, começamos a pensar nas responsabilidades dos desacatos. Por exemplo, quando eu comecei a jogar ao boxe, nunca andei à pancada por minha causa, foi sempre por causa dos amigos.

Orlando Jesus em 'Soco a Soco'
DROrlando Jesus em 'Soco a Soco'

Mas o que teve mais peso na ida para o boxe: ter tido familiares que o praticaram, como o seu pai e avô, ou o contexto da escola?
O meu bisavô e o meu avô, da parte do meu pai, jogaram ao boxe, o meu pai fez boxe, eu estou a fazer boxe, o meu filho faz boxe e os meus netos também. A gente vai já com seis gerações de boxe. Mas, quando há acontecimentos de bulhas, de zangas, é quando uma das partes não obedece. Eu, às vezes, tinha de me defender, e como tinha mais habilidade e era mais atrevido, os outros não tinham vantagem, mesmo quando eram três ou quatro. É aí que começa a haver as famas. "Eh pá, o fulano bateu em dois, ou quatro ou seis. De onde é que ele é? Da Ajuda! Quem é o gajo? É o Russo!" Assim surgiram as tais famas, depois de eu conhecer Lisboa inteira e de ter amigos em todos os bairros. Ora, as pessoas quando vinham ter comigo, já vinham com qualquer ideia, e com armas, pistolas, facas. É que quando as pessoas vêem que não têm vantagem, mais depressa depois querem ter.

"Quando começo a jogar ao boxe, era o Orlando vadio, malandro, das barracas. Depois começam a incutir em mim que andar à porrada todos os dias não me levava a lado nenhum."

E o Orlando, com a fama que tinha, transportava uma ideia.
Transportei muita ideia, sim, ideias às vezes negativas. Depois é mais complicado sermos aceites na vida social, custa muito. Temos de mostrar muita humildade, muito querer, carinho e amor pelas pessoas. E fazer coisas para mostrar que não somos o diabo. Porque eu, quando começo a jogar ao boxe, era o Orlando vadio, malandro, das barracas e não sei o quê. Mas depois começo a ter outra mentalidade e aprendizagem. Começo a ter mais disciplina, porque começam a incutir em mim que andar à porrada todos os dias, mesmo que fosse por causa de um amigo, não me levava a lado nenhum.

Quando é que começa a alimentar a ideia de ir para o boxe?
Eu tinha 13 anos quando entrei no boxe, no [Lisboa Clube] Rio de Janeiro.

Mas não pensava sobre isso antes?
Ainda não. Vamos voltar atrás, então, quando tinha 4, 5, 6, 7 anos. O meu pai tinha as luvas de boxe dele, grandes. Eu e o meu irmão calçávamos as luvas e ele metia-nos aos dois pás-pás-pás, para a gente se saber defender, não é? Nada de agressividades! Mas aprendemos. Daí veio a ideia do atrevimento, do ter costela de valentão, de ter fígado de valente. Mas nunca tive aquela ideia: "Vou ser 'boxeiro'". Depois conheço um amigo na Musgueira [aos 8 anos, os pais de Orlando separam-se e ele muda-se, com a mãe, da Ajuda para a Musgueira], que era o António Mondim, o Tony Mondim, antigamente. Ele é mais velho do que eu dois anos, já tinha passado pelo Bairro Alto e um dia levou-me ao Rio de Janeiro. É quando eu entro numa sala de boxe. A partir daí, foi até hoje. Vi que o boxe só me arrastava para o bem. Quando dou por mim, estou no meio da sociedade, novamente.

'Soco a Soco'
DR'Soco a Soco'

A sua mãe deixou-o logo ir para o boxe?
Deixou, porque também tinha ido ver o meu pai a jogar, no [Liceu] Pedro Nunes. E foi-me ver a mim ao Pedro Nunes! A partir daí só foi ver um combate de boxe meu. Mas acho que, no tempo que o meu pai combatia, agarrou nos sapatos e mandou-os ao adversário… [risos] Portanto, a minha mãe sempre quis que eu me soubesse defender. À minha volta, podia ter tido pessoas que me tivessem arrastado para o bem, mas eu nunca tive essas pessoas. O meu pai, qualquer coisa, descascava-me. Depois, só os meus treinadores. Agora, o Orlando que está aqui à sua frente é alguém que ama as pessoas, e que quer tirá-las do mal para o bem.

"Um miúdo de 8 anos com aquela gente toda ou é malandro ou não é malandro. Ou se sabe defender ou não se sabe defender. Se não sabe, é engolido"

Vamos recuar. Nasceu e cresceu na Ajuda, depois foi para a Musgueira. A mudança mexeu consigo? O que encontrou lá?
A Musgueira era um ajuntamento de vários bairros. Eu fui da Ajuda [Campo dos Ingleses], outros foram do Casal Ventoso, do Alto do Pina, da Madragoa, do Intendente… As casas foram abaixo e juntaram-se vários bairros na Musgueira. Então, um miúdo de 8 anos com aquela gente toda ou é malandro ou não é malandro. Ou se sabe defender ou não se sabe defender. Se não sabe, é engolido. Portanto, se eu já andava à pancada antes, ali muito mais. Era diário. Mas depois levei muitos miúdos comigo para o boxe também. Eu andava por todo o lado, era um rapaz da rua.

Atravessava a cidade.
Sempre. Pendurava-me no eléctrico, descia, corria descalço… Ia para a Pastelaria Suíça e os turistas davam-me sandes e galões. Eu tinha um tio, que era o pintor Mário Reis, das Belas-Artes, que às oito ou nove da manhã estava sempre num café do Rossio… Como era?

O Nicola?
O Nicola. Ele ficava lá a ler aqueles jornais grandes, com o monóculo e tal, e eu aparecia lá. O empregado não me deixava entrar, mas o meu tio mandava-me ir lavar as mãos e sentar ao pé dele. Vai um galão, vai uma sandes, 25 tostões ou 5 escudos e vai para casa, ou para a escola. São coisas que me ficaram gravadas.

O Diogo Varela Silva diz que essa Lisboa que está a desaparecer.
Desapareceu toda. Para mim, era uma Lisboa maravilhosa e uma Lisboa de todos. Hoje, poucos alfacinhas vivem em Lisboa. E depois é uma cidade totalmente modificada: mais poluição, mais automóveis, mais ruído. Também já não se vê os miúdos a jogar ao pião nem de arco na rua, ou bolas feitas de trapos, como eu fazia, com as meias de vidro da minha mãe.

'Soco a Soco'
DR'Soco a Soco'

Mas sente nostalgia em relação a isso?
Ultrapassei o que me lembro do antigamente para melhor. Aprendi e fui-me cultivando.

Diz quase sempre "jogar ao boxe", em vez de "combater". Porquê?
O boxe tem duas vertentes: tem o jogo, a esgrima e o bailado, e também tem o combate. Quando eu estou com o adversário, quero bater, vou combater. Mas eu nunca vi o boxe assim. Vejo-o como um jogo, um bailado com cabeça, inteligência.

Foi a cabeça que o fez ganhar quase tudo?
Eu nunca perdi.

Só contra o espanhol.
O Alfonso Redondo [em 1982]. Mas é a cabeça que manda, sim, porque com ela o boxeur joga com as dificuldades que encontra no adversário. O bruto não vai chegar muito longe no boxe.

Orlando Jesus em 'Soco a Soco'
DROrlando Jesus em 'Soco a Soco'

É isso que passa aqui para os alunos.
É o que tento passar.

Quem vem hoje à procura do boxe?
Hoje já não há barracas, e ainda bem. Mas os rapazes menos favorecidos também procuram o boxe. Há instituições que me trazem três ou quatro rapazes, e miúdas, para eu os ensinar aqui, porque vêem o tratamento que eles têm aqui. Mas também vem a média-alta sociedade. As pessoas aperceberam-se que tira o stress, as dores de barriga, de cabeça. Tenho aqui rapazes, deputados da Assembleia da Republica, com milhões de problemas quando entram. Depois ligam a dizer: "Mestre, estou impecável." Também os pais da média-alta trazem os filhos e percebem que aqui é que eles estão bem. Os filhos, em casa, mandam um ténis para aqui e outro para acolá, e aqui…

É a disciplina.
Aqui é a disciplina. "Oh menino, os ténis é para ficarem a par, ali."

Além do desporto, o Orlando também teve vários negócios, como o Truque. O mundo da noite era próximo do do boxe?
Havia pessoas que vinham do estrangeiro e que depois gostavam de ir à noite beber um copo, depois de jogar. As casas fechavam às cinco, seis, sete, oito da manhã… A malta gostava de ir ao Porão da Nau, à Cova da Onça, à Cova do Galo, ia comer ao Gato Preto, no Parque Mayer, ia ao Hipopótamo…

Mas então tornou-se empresário porque saía à noite?
Andei na noite muitos anos, à volta de 50.

Onde é que parava?
Eu parava em todo o lado, não tinha sítio certo. Ia a casas com fado, sossegadas… Havia A Viela, onde a dona Celeste Rodrigues, a avó do Diogo Varela, cantava, e eu ia lá. Íamos ao Painel, à Tipóia, depois abriu a Nonó, no Bairro Alto… A bem dizer, eu corria tudo. As casas de fado e as boîtes eram o nosso entretenimento.

"Eu tinha de ser empresário. Ganhei dinheiro no estrangeiro, mas cá nunca ganhei rigorosamente nada…"

Então e os negócios, como surgiram?
Eu tinha de ser empresário, não é? Ganhei dinheiro no estrangeiro [combateu mais de quatro anos em Espanha], mas cá nunca ganhei rigorosamente nada…

Não ganhava nos combates?
Só nos combates. Então comecei a investir. Dei 300 contos pela Cova do Galo e meti lá o meu manager, a tomar conta da casa. Isto em 76. Mas eu ia jogar lá fora, era desertor [do serviço militar].

Tinha de pagar as contas.
Para dar dinheiro à minha mãe e às minhas filhas. Tive uma filha aos 16 e outra aos 17 [teve 12 filhos de cinco mulheres]. Então, depois abri outra casa e mais outra, abri sociedade com um e com outro. Tive um grande restaurante no Parque Mayer, o Júlio das Miombas. Tive vários negócios. Mas o que ficou mais vincado foi o Truque, na Calçada Marquês de Abrantes [Madragoa]. O Johnny Guitar era por cima, onde ia muito ali em puto o Diogo Varela. Mas por que é que ficou mais vincada? Porque eu dava três sessões de espectáculo por noite.

'Soco a Soco'
DR'Soco a Soco'

Que tipo de espectáculos?
Dava fado [Orlando Jesus também se arrisca no fado, como mostra o filme], dava strip, dava humor, canção, e iam lá os melhores artistas que hoje estão velhotes, como eu.

"Eram 12. Eu dava saltos por cima das carrinhas, tinha uma ginástica do outro mundo, e comecei a dar cabo deles. Até que há um que diz: "Temos de abater este gajo!""

E também ia lá a malta do boxe?
Ia, e havia muito respeito. Todos se davam bem, lá dentro. Lá fora não era comigo.

Havia respeito mas também aconteciam coisas. O Orlando levou vários tiros, sobreviveu sempre, e há um episódio que o filme não explica. Como é que lhe encostam uma arma à cabeça e está agora aqui?
Esse é o último, é o nono. Mas todos foram graves, eu é que não tinha de ir. Deus achou que era assim. Vou falar dos primeiros: eu estava na tropa, em 75, à porta do Parque Mayer, e a polícia, na altura, era muito agressiva. Houve qualquer situação que eles vieram logo para cima de mim e eu disse que era militar. Quando me quiseram dar com o cacetete do lado do metal, virei-me a eles. Aí, veio outra carrinha e já eram 12. Eu dava saltos por cima das carrinhas, tinha uma ginástica do outro mundo, e comecei a dar cabo deles. Até que há um que diz: "Temos de abater este gajo!" E pom, pom, pom! Disparou oito vezes e acertou-me cinco. Eu tinha uma moeda aqui, do lado do coração – ainda hoje guardo essa moeda –, e a bala acertou nela. Levei tiros aqui e aqui [aponta para as pernas], no pénis, nos pés, em todo o lado. Passados três meses saio do hospital, vou à sede do Atlético, e estava lá um gajo que era chauffeur do embaixador de Cuba e o gajo agarrou logo na pistola e começou a disparar. Eu fui para cima dele mas ele conseguiu fugir no Volkswagen pela Avenida da Liberdade e a polícia militar foi atrás dele. Agarraram-no e eu fui à minha vida. O último foi de uma rixa antiga...

De anos, conta o filme.
Três, quatro anos. Eu tinha feito mal a outros, mas não àquele, e nunca andei com armas. Mas, anos antes, tinha descascado todos e disse-lhe para se ir embora, que não era nada com ele. Mas muito depois ele apareceu-me por trás para me dar o tiro na cabeça.

Foi um tiro mal dado?
Não foi, não. Só que ele encostou a arma com medo e a bala passou-me entre o céu da boca e as narinas. Era uma 22.

Foi logo para o hospital.
Para o Santa Maria. O Dr. Mário André operou-me logo, tiraram-me a bala e fiquei lá, mas nunca parei. Subia e descia escadas, de um lado para o outro. Só fiquei na cama do hospital quando fui obrigado. Depois também tenho outra: uma vez levei sete punhaladas nas costas, na cabeça e tal. Mas essa é outra história.

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