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O roteiro ganhou mais duas paragens: a Trading Post, uma selecção com toque americano e malas que nos fazem olhar duas vezes para a montra, e a Curated, portal para os anos 2000, onde as stylists de serviço só trabalham com peças em segunda mão.

Vamos à Avenida da Liberdade quando procuramos lojas de luxo. Percorremos o eixo Cais do Sodré-Santos, em busca de marcas portuguesas. Rumamos à Lapa e à Estrela para encontrar espaços dedicados ao design e à decoração. A mesma lógica começa, agora, a aplicar-se a São Bento, com a recente proliferação de lojas de moda vintage e em segunda mão nesta zona da cidade.
Já tínhamos dado conta das três lojas que Julie Nobrega e Anthony Bogas da Costa abriram aqui, entre 2022 e 2024. Arquívos, Aq2 e Third Thrift Store estão separadas por apenas alguns metros (no caso das duas primeiras é só atravessar a estrada) e têm identidades próprias. Uma tendência que as novas aberturas seguem à risca. Para quê atafulhar uma loja com um pouco de tudo, se pode ser um estilo e refinar a curadoria de peças?
É esta a nova estratégia das lojas de moda vintage e em segunda mão. Numa zona já bem servida, o último ano trouxe ainda mais motivos para vir às compras a São Bento. Um deles chama-se Trading Post e é a morada fixa de um projecto que começou por ser itinerante. Ao fim de uns tempos a cirandar por Lisboa, em mercados e pop-ups, Antony e Kevin assentaram arraiais e deixaram bem claro, logo na montra, qual a especialidade do negócio. Com alguma liberdade linguística, podemos traduzir o slogan hand-picked por escolhido a dedo. O que vem mesmo a calhar, já que a dupla selecciona uma a uma as peças que aqui põe à venda.
"Nós não fazemos compras em grandes quantidades. Depende sempre de para onde viajamos, do que encontramos. Vamos muito para França, há lá coisas boas, além disso somos de Paris. Vamos a Itália, aos Estados Unidos. No mês passado, por exemplo, estivemos na Tailândia. As compras que fazemos são em mercados de rua, em vendas de garagem. Se gostamos do estilo da peça e da qualidade, compramos – é assim que mantemos a melhor selecção", explica Antony.
A loja pode parecer pequena, mas tem mais salas para descobrir. O que encontramos é, sobretudo, um guarda-roupa de inspiração americana, com t-shirts cheias de logotipos nostálgicos, blusões ao estilo universitário, calças de ganga de corte clássico e muitas camisas Ralph Lauren e seus derivados. Os acessórios entram em cena para apimentar o styling. O chamado mix and match faz-se com recurso a marcas de luxo europeias e sobretudo com malas e carteiras. É, por isso, comum encontrar etiquetas como Gucci, Prada, Versace, Hermès ou Louis Vuitton. Mas há mais. Se vasculhar bem os expositores, ainda encontra peças Marni, Jean Paul Gaultier e Kenzo para ajudar à festa.
Concorrência? Os proprietários não olham para a concentração de lojas vintage no bairro dessa forma. "As vibes são diferentes", exclama Antony. Além disso, o mercado da moda em segunda mão está em crescimento. Na Trading Post, acredita-se que a transformação é um pouco mais profunda do que uma tendência passageira. Os estrangeiros são quem mais entra pela porta e muitos dão sinais de querer desistir das grandes cadeias de fast fashion. Procuram qualidade, mas também abraçar num novo lifestyle, baseado num consumo mais consciente.
Rua de São Bento, 71 (São Bento); Seg-Sáb 11.00-19.00, Dom 13.00-18.00
Maria Francisca é engenheira de formação e abriu a Curated em Maio do ano passado. Para trás, tinha já cinco anos de compra e venda de peças vintage e em segunda mão – uma selecção curada, feita sobretudo em plataformas como a Vinted, a Depop e o próprio Instagram (onde vendia), focada na estética Y2K, tão característica do início deste século, mas também com algumas peças fetiches, como é o caso dos casacos de peles ou das malas Guess, Gucci e Cavalli. O projecto deixou de ser apenas online e materializou-se em São Bento.
"À medida que fui investindo cada vez mais tempo, a loja começou a crescer imenso no Instagram", conta. Mudou-se de Coimbra para Lisboa e encontrou o espaço perfeito para montar os charriots. Mesmo com as exigências de uma porta aberta ao público, as peças continuam a ser escolhidas uma a uma. Não há fornecedores, apenas uma procura constante dos melhores achados – em preço, estilo e qualidade. Às plataformas que já usava foi adicionando outras, como o Ebay ou o Facebook Marketplace. Frequenta feiras e mercados, mas também grandes armazéns, que remexe em busca das melhores peças.
"Gosto muito daquelas peças vintage que são timeless, ou seja, que daqui a 20 anos ainda vão estar in. É uma preocupação minha – não quero que ninguém comprei aqui uma peça para, daqui a seis meses, já não se identificar com ela. Tento também seguir as trends e estar atenta. É o melhor dos dois mundos, basicamente", refere. Há peças de luxo à venda, com etiquetas como Moschino, Yves Saint Laurent e Prada a espreitarem.
A Curated termina na cortina que fica atrás do balcão, mas o trabalho de Maria Francisca não. Depois de abrir a loja, juntou-se a Teresa para criar o Layers, um estúdio de styling e guarda-roupa, que trabalha somente com roupa e acessórios em segunda mão. "Focamo-nos muito na sustentabilidade. Se eu há dez anos que já só visto roupa em segunda mão, não faria sentido abrir um estúdio de styling e impingir fast fashion. É difícil para nos, porque estamos restringidas à Humanas, à Dona Ajuda e a lojas de segunda mão como a minha. Temos de nos esforçar mais, mas compensa. E está a correr bem", remata.
Styling para eventos, reorganização de guarda-roupa ou personal shopping – para prestar estes e outros serviços, a dupla vale-se de uma rede de lojas em segunda mão e não apenas do stock da Curated. Por muito especial que seja a ocasião, Maria e Teresa correm a cidade em busca das peças certas e, às vezes, ainda as modificam. Tudo em nome da sustentabilidade.
Rua da Quintinha, 58 (São Bento); Ter-Dom 12.00-19.00
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