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Crítica
O meu amigo Bartolomeu meteu-se nos TVDE. À terceira semana, parecia entusiasmado. Podia gerir o seu tempo, não aturava patrões, facturava o suficiente. O trânsito de Lisboa, o stress, nada disso o afectava. “Ponho a Smooth FM e fico bem”, contou-me.
Três meses depois, convidei-o para almoçar no Pomme Eatery. Estava muito magro, os olhos cavados. “Esta profissão dá cabo de uma pessoa. Está-me a comer por dentro. Perdi massa muscular. Chego ao fim do dia e dói-me o corpo todo”, confessou, depois de provar os espargos brancos com molho de queijo (“estão um pouco assim-assim” – e estavam).
Para conseguir dinheiro para a renda, para a pensão de alimentos da filha e para os psicotrópicos, Bartolomeu trabalha 14 horas por dia ao volante e está obrigado a "biscates". Não quis entrar em detalhes, mas percebi que isso podia envolver o acompanhamento integral de turistas, durante a estadia.
“Esta semana, conheci uma mulher que trabalha para o Ministério das Finanças da Bélgica. Fui buscá-la ao aeroporto, levei-a a um hotel a Peniche, onde estava hospedada. Acartei-lhe as malas para cima, fumámos um charro, dormi com ela e voltei para Lisboa. No dia seguinte, fui buscá-la e fomos ver a Boca do Inferno. Deu-me 300 euros, achei justo.”
Bartolomeu entrou desconfiado no Pomme, porque o restaurante parece mais um sítio onde vamos beber café do Quénia e kanelbulle de Estocolmo do que uma casa para alimentar um motorista da Uber. Quando chegaram as asinhas de frango com molho “Dorblu”, todavia, o seu ânimo melhorou. “Isto, sim.”
O empratamento era poético, as ditas de pé, fritas e caramelizadas, de mangas arregaçadas, como bailarinas, ao lado uma molhanga que a empregada citou ser de Roquefort e não do queijo alemão Dorblu, como inscrito no menu (ambos são queijos azuis). Estavam suculentas por dentro e comiam-se como se fossem perninhas, em duas ou três dentadas.
“Tenho de ter cuidado. Se como muito, agora, fico com uma bola na barriga. Já não carburo como antigamente.”
Podia ter ajudado ao metabolismo um copinho de sidra, mas ajuizadamente Bartolomeu descartou o álcool. A sidra é uma das apostas do casal Hanna e Misha Lytvynenko, donos do Pomme, ucranianos estabelecidos em Portugal desde 2015, responsáveis por outras casas bonitas e internacionais de Lisboa, como são o Heim, o Seagull ou o Kefi.
Na carta, há escolha variada de sidras espanholas, francesas, dinamarquesas e alemãs, mas das portuguesas só da Daughters of Madness, de Lisboa. Onde estão as sidras do Minho? E as da Madeira? Faz muito sentido bebermos mais sidra, porque é fresca e leve e casa bem com comida ou sem nada, mas não faz sentido os preços das garrafas andarem todos acima dos 25€.
Bartolomeu pediu água com gás e limão e apreciou o design de interiores. O Pomme tem um lugar apropriado a cada ambiente, mesa comunitária ao centro, lugares para uma refeição rápida com o laptop, recantos interiores ou à janela. Não parece bem um restaurante, mas o chill out de um hostel de praia para nómadas digitais.
Eis então a sanduíche de porco, à maneira da katso japonesa, bem montada, a carne suculenta e limpa, supostamente com um molho de paprika mexicano, que era na verdade um pico de gallo chocho. “O meu preferido”, atirou Bartolomeu, abocanhando o pedaço, já com o olho no prato de pescada com batatas fritas, outra maneira de dizer fish and chips, que acabara de aterrar na mesa (polme exageradamente grosso, peixe exageradamente fino).
Nisto, já se fazia tarde. Despachámos a panna cotta de manjericão (porventura o prato mais surpreendente: primeiro estranha-se, depois ama-se) e voltámos à estrada. Bartolomeu parecia mais animado, mas tinha sobre ele o peso de ter parado para o almoço. “Podia ter feito uns 40 euros”, desabafou.
Esse dinheiro não tinha chegado para pagar a refeição. Com vinho, um almoço no Pomme passa os 30 euros por cabeça. Não vale a pena lamentarmos. A maioria das casas neste segmento serve menos por mais, hoje em dia.
Bartolomeu não virá cá a suas expensas, mas admite recomendá-lo às suas clientes. Ou até usá-lo nalgum biscate.
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