Rio de Onor


Onor canta aos primeiros raios da manhã. O rio que atravessa a povoação galga furioso a pequena cascata no meio do leito, criando uma banda-sonora que serve de compasso à dança matutina dos pardais. Nas margens do rio que dá nome à aldeia, passeiam-se raposas felpudas e crescem couves e pés de alho-francês viçosos, plantados em campos comunitários, partilhados pela população. Rio de Onor, bem junto à fronteira, no nordeste transmontano mais profundo, é uma das mais bonitas e emblemáticas aldeias do país, inserida no Parque Natural de Montesinho, em Bragança. Além da sua indiscutível beleza, tem também uma história rica e castiça que adora contar a quem a visita. É atravessada pela fronteira internacional entre Portugal e Espanha – de um lado fica Rio de Onor e do outro Rihonor de Castilla – mas essa separação vigora apenas nos mapas geográficos e nos documentos oficiais. Para tudo o resto dão as mãos e entreajudam-se nas tarefas diárias mais comuns. Além dos campos de cultivo, antigamente partilhavam-se também rebanhos e fornos comunitários e até um governo e dialecto próprio, derivado do Asturo-Leonês, muito semelhante à Língua Mirandesa, mas que aos poucos se vai emudecendo pela falta de uso. A população não chega à meia centena, conta-nos Bernardino Preto, encostado à ombreira da porta da sua loja, onde vende máscaras em latão, cortiça ou madeira e faz pequenos trabalhos manuais, para ir entretendo as mãos e mantendo sagaz uma mente que já conta com 90 anos. “Há 15 anos reformei-me. Fechei o café que tinha aqui e abri isto para descansar”, diz-nos, convidando-nos a entrar no seu pequeno espaço, repleto de recortes de jornais nas paredes, onde aparece em grande destaque, e de outros recuerdos, como bengalas, canecas em forma de Careto e porta-chaves, que vai vendendo aos grupos de excursões que por ali aparecem com frequência.


















