Rio de Onor
©DR | Rio de Onor, Bragança
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Aldeias de Trás-os-Montes que parecem suspensas no tempo

História e tradição. Conheça as mais bonitas aldeias do Nordeste Transmontano.

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Quando as bússolas apontam para Nordeste, encontram-se, entre montes e vales, aldeias castiças que parecem resistir aos avanços do tempo, onde habitam línguas que quase já não se falam. Conservam a memória de quando a vida se vivia mais devagar, em que o espírito comunitário era mais forte do que qualquer lei. Nestas aldeias que parecem suspensas no tempo e que criam raízes profundas nas terras altas de Trás-os-Montes, os hábitos e costumes passam de geração em geração, a natureza cresce selvagem e indomável e as paisagens são de cortar a respiração. E a hospitalidade transmontana, calorosa e genuína como em mais lado nenhum, tem sempre à sua espera café e bolos de laranja acabados de fazer. 

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As aldeias de Trás-os-Montes que tem mesmo de conhecer

Rio de Onor

Onor canta aos primeiros raios da manhã. O rio que atravessa a povoação galga furioso a pequena cascata no meio do leito, criando uma banda-sonora que serve de compasso à dança matutina dos pardais. Nas margens do rio que dá nome à aldeia, passeiam-se raposas felpudas e crescem couves e pés de alho-francês viçosos, plantados em campos comunitários, partilhados pela população. Rio de Onor, bem junto à fronteira, no nordeste transmontano mais profundo, é uma das mais bonitas e emblemáticas aldeias do país, inserida no Parque Natural de Montesinho, em Bragança. Além da sua indiscutível beleza, tem também uma história rica e castiça que adora contar a quem a visita. É atravessada pela fronteira internacional entre Portugal e Espanha – de um lado fica Rio de Onor e do outro Rihonor de Castilla – mas essa separação vigora apenas nos mapas geográficos e nos documentos oficiais. Para tudo o resto dão as mãos e entreajudam-se nas tarefas diárias mais comuns. Além dos campos de cultivo, antigamente partilhavam-se também rebanhos e fornos comunitários e até um governo e dialecto próprio, derivado do Asturo-Leonês, muito semelhante à Língua Mirandesa, mas que aos poucos se vai emudecendo pela falta de uso. A população não chega à meia centena, conta-nos Bernardino Preto, encostado à ombreira da porta da sua loja, onde vende máscaras em latão, cortiça ou madeira e faz pequenos trabalhos manuais, para ir entretendo as mãos e mantendo sagaz uma mente que já conta com 90 anos. “Há 15 anos reformei-me. Fechei o café que tinha aqui e abri isto para descansar”, diz-nos, convidando-nos a entrar no seu pequeno espaço, repleto de recortes de jornais nas paredes, onde aparece em grande destaque, e de outros recuerdos, como bengalas, canecas em forma de Careto e porta-chaves, que vai vendendo aos grupos de excursões que por ali aparecem com frequência.

Mariana Morais Pinheiro
Mariana Morais Pinheiro
Directora Adjunta, Porto

Jerusálem do Romeu

Uma tabuleta mesmo à chegada indica o caminho: “Romeu. Aldeia das Rosas”. Seguimos nessa direcção e para trás deixamos uma casa amarela onde em tempos funcionou o salão de festas da casa do povo de Jerusalém do Romeu, no concelho de Mirandela. Entrar nesta pitoresca aldeia é fazer uma viagem no tempo e ver muita história preservada. Depois de uma refeição no conhecido restaurante Maria Rita, que chama muitos visitantes à freguesia, passamos pela Loja do Romeu, um espaço que vende vinho, azeite, compotas e outros produtos da Quinta do Romeu. Maria Adélia prepara-se para fechar o espaço, mas fica mais uns minutos para nos receber. Vive ali ao lado e conhece cada canto desta aldeia. “A nossa igreja é das mais antigas por aqui”, garante. A lojista nasceu e viveu a vida toda em Jerusalém do Romeu e recorda o recente encerramento do Museu de Curiosidades que, durante 60 anos, foi uma das grandes atracções da aldeia e também o seu local de trabalho. A história de Romeu é indissociável da história de uma família que teve um grande papel no desenvolvimento deste local e Maria Adélia apressa-se a contá-la. Em 1874, Clemente Menéres chega à aldeia para comprar sobreiros e acaba por criar uma propriedade – a Quinta do Romeu. Ao longo dos anos, a sua família deixou várias marcas importantes no território: “Mandou construir uma escola, trouxe para aqui os caminhos de ferro, luz, saneamentos, casas de banho... tivemos tudo aqui antes de toda a gente”, conta, com ar orgulhoso. E o orgulho parece ser geral por esta terra que, em vários espaços, faz questão de ter esta história bem contada. Um grupo de crianças brinca junto à fonte construída em 1935, mas há outros pontos importantes de visita, como a capela silenciosa, a igreja rodeada por roseiras e o Santuário de Nossa Senhora de Jerusalém, bem no alto da aldeia, que se ergue entre oliveiras.

Ana Catarina Peixoto
Ana Catarina Peixoto
Jornalista, Porto
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Montesinho

A espessa neblina torna o cenário ainda mais misterioso e encantador, envolvendo as árvores e as casas de pedra numa espécie de véu. Não se vê vivalma pelas ruas desta aldeia no alto da serra. Montesinho está a 1030 metros de altitude, o que faz dela uma das mais altas aldeias de Portugal e a mais alta da serra que lhe dá nome. Inserida no Parque Natural, muitas das suas típicas casas em granito, com telhados em lousa e varandas em madeira, foram recuperadas e transformadas em turismo rural, que alojam visitantes que tentam escapar ao bulício citadino de todos os dias. Depois de dez minutos a deambular pelas suas ruas empedradas, envolvidos por uma natureza que nos engole a cada passo, somos também contagiados pela vontade de aqui ficar. A maior parte dos forasteiros que a visitam refugia-se no Café Montesinho, mesmo à entrada da aldeia, junto da salamandra que aquece o ambiente. Não espere grandes repastos, mas um prato de bom presunto e queijo nunca há-de faltar por aqui, nem o copo de vinho a acompanhar. Elsa retira do forno um bolo de laranja acabado de fazer, que é devorado em minutos, juntamente com o café quente. “O meu pai abriu este negócio há 30 anos, agora ficou para mim”, sorri. Sobre o balcão vende queijos, mel de Montesinho e doces: de tomate, figo, abóbora com nozes ou abóbora com avelãs. Todos caseiros. Se a fome apertar, a Casa da Edra tem refeições mais compostas, como o arroz de galo com carqueja ou o arroz de lebre com castanhas. À porta, anunciam ainda que lá dentro vendem pão de castanhas, queijos de ovelha, licores, mel e doces, e que têm quartos para quem decidir ficar a pernoitar. A Lagosta Perdida é outra das possibilidades. Tem seis quartos, piscina exterior aquecida e muitas sugestões de programas para fazer nas redondezas, como caminhadas, montanhismo, escalada ou passeios de bicicleta. 

Mariana Morais Pinheiro
Mariana Morais Pinheiro
Directora Adjunta, Porto

Picote

As ruas empedradas e as casas de granito com portas coloridas dão as boas-vindas a Picote, uma aldeia pousada sobre as arribas do rio Douro. Conhecer esta terra exige percorrê-la sem medo de se perder pelos vários recantos, onde encontra a Igreja Matriz, várias hortas cuidadosamente plantadas pela população e ainda vestígios arqueológicos de épocas remotas. Entramos num território onde o mirandês é uma marca de identidade visível em vários detalhes, desde o nome das ruas que têm tradução para a segunda língua oficial portuguesa aos cartazes e informações afixados um pouco por toda a aldeia. Margarida Teles, a viver em Picote desde 2006, encontra-nos pelo caminho. De forma despachada, atira algumas indicações sobre o que há para apreciar por esta terra mirandesa e recorda-se de uma aldeia pacata desde sempre, mas com muitos visitantes. O negócio do turismo rural vai, em breve, crescer e a população, garante, tem tentado dinamizar o local. A prova disso é uma das casas ao fundo da sua rua. “Têm feito um bom trabalho”, assegura. Margarida refere-se à Frauga – Associação para o Desenvolvimento Integrado de Picote, uma associação que nasceu com o objectivo de estudar, salvaguardar e defender o património cultural e natural de Picote, incluindo a Língua Mirandesa, e que também vale a pena visitar. Ali mesmo ao lado, encontra o Centro Interpretativo do Ecomuseu Terra Mater, que organiza várias actividades na aldeia, e uma pequena loja de produtos regionais onde fazer algumas compras. Seguimos viagem e, ao fundo da povoação, chegamos a uma verdadeira varanda sobre o rio Douro. O miradouro de Fraga de Puio, recentemente reabilitado, é uma das principais atracções de Picote e oferece uma vista única para os vales escarpados e verdejantes do rio, que serpenteia no seu leito profundo, em pleno Parque Natural do Douro Internacional. É o momento perfeito para parar, ouvir a natureza e admirar o cenário que tem à frente. E, se quiser, pegar no telemóvel para tirar uma fotografia.

Ana Catarina Peixoto
Ana Catarina Peixoto
Jornalista, Porto
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Uva

Ao chegar a Uva, dezenas de pombais vão surgindo através das janelas do carro. Construções de pedra pintadas de branco e em formato de ferradura, um dos grandes símbolos do Nordeste Transmontano. É nesta aldeia do concelho de Vimioso que vive a maior quantidade destas estruturas. Há cerca de 40, quase tantas quantas as pessoas que aqui habitam. A paisagem é, por isso, uma das mais interessantes para ver e visitar. Os pombais que em tempos serviram para a criação de pombos – como alimento e para fertilizante agrícola – tornaram-se num legado único que a população tem lutado para manter, em grande parte com a ajuda do trabalho de recuperação de várias destas estruturas feito pela Palombar (que significa Pombal em mirandês), uma organização que se dedica à conservação da natureza e do património e que tem sede nesta aldeia. Continuando a percorrer as ruas estreitas de Uva, onde se sucedem casas de granito, encontramos a igreja da freguesia, bem tratada e dona de um sossego que é comum a toda a aldeia. Com a chegada da noite, o café central torna-se o ponto de encontro da comunidade e é lá dentro que se vão ouvindo as conversas mais animadas. Se estiver pela zona, e com tempo, aproveite ainda para conhecer um dos produtos vindos desta terra: os vinhos biológicos da Menina D’Uva, uma marca criada por Aline Domingues, habitante desta aldeia, que aproveitou algumas vinhas velhas para começar a produzir vários vinhos biológicos – do branco ao tinto, passando pelo rosé. A prova de que Uva, além de passado, também tem muito futuro. 

* Reportagens originalmente publicadas em 2025, na Edição Especial Time Out dedicada a Terras de Trás-os-Montes

Ana Catarina Peixoto
Ana Catarina Peixoto
Jornalista, Porto

Mais Portugal para descobrir

  • Coisas para fazer

É uma das mais bonitas vilas de Portugal e uma visita ao Minho não fica completa sem uma passagem por aqui. Em Ponte de Lima não faltam recantos – dentro ou fora de portas – que valem muito a pena descobrir. Dos restaurantes rústicos com sua gastronomia ímpar e fortemente tradicional aos jardins e trilhos pela natureza de cortar a respiração, por aqui há programas capazes de entreter toda a família. E ao contrário do que conta a lenda do rio Lethes, antigo nome do rio Lima, que dizia que quem o atravessasse rapidamente se esqueceria de tudo, esta vila minhota é para lá de inesquecível. 

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  • Viagens

"Um poema geológico. A beleza absoluta." As palavras são de Miguel Torga, sobre a região que o viu nascer, e não podiam ser mais merecidas ou verdadeiras. O Douro é a primeira e mais antiga região demarcada e regulamentada do mundo e, em 2001, foi considerada pela UNESCO como Património da Humanidade. Desde então, espalhadas pelas arribas durienses há cada vez mais quintas e alojamentos com propostas tentadoras. Umas são clássicas como manda a tradição, outras mais modernas e com designs arrojados. Umas apostam nos tesouros que guardam nas suas adegas e outras em soalheiros piqueniques no meio das vinhas. Corremos este pedaço de paraíso de lés a lés para lhe dizer onde dormir, comer, passear e brindar à sua saúde.

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  • Coisas para fazer

Habituada a que lhe chamem de “Princesa do Lima”, Viana do Castelo enche-se de chieira (que é como quem diz ‘vaidade’ para estes lados) e mostra sobranceira, da altivez do seu monte, a linda cidade que tem aos pés. Bela todos os dias do ano, durante o Verão – muito por causa da Romaria de Nossa Senhora da Agonia – recebe enchentes de turistas que se espalham por toda a cidade. No entanto, há muito para ver, descobrir e admirar com calma, quando os meses mais frios se instalam. Da boa comida que reconforta até a alma, aos desportos ao ar livre que exercitam os músculos, passando pelas boas camas quentinhas dos hotéis, é impossível não sentir aquele calorzinho cá dentro quando se chega a esta vaidosa cidade minhota.

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  • Viagens

São lugares com uma vasta riqueza natural, histórica e gastronómica, cápsulas de um tempo em que a vida corria devagar. Partimos à procura das mais belas aldeias minhotas e chegámos a Soajo, Sistelo, Lindoso e Castro Laboreiro, que merecem, no mínimo, pelo menos uma visita nesta vida. Prepare as pernas e as câmaras fotográficas.

Mas há mais para fazer por estas bandas. O Minho é rico em bonitas praias, pastelarias com doces de perder a cabeça, e uma série de galerias de arte que deve visitar. Leia o que se segue e fique a conhecer esta região um pouco melhor.

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