Clássicos de cinema para totós. Lição 4: os anos 50

Farto de não fazer ideia do que falam os cinéfilos à volta? Cansado de se perder em referências desconhecidas quando se fala de cinema? O “cinema para totós” quer resolver esse problema no melhor espírito de serviço público

Ora aqui está uma década de prosperidade, medo nuclear, que entretanto começara a Guerra Fria, e esperança. Uma década em que o cinema prosperou artisticamente e ainda mais comercialmente. Dez anos em que o preto e branco resistiu quanto pôde, mas acabou batido pela cor.

Clássicos de cinema para totós. Lição 4: os anos 50

Crepúsculo dos Deuses (1950)

Uma das melhores decisões do realizador Billy Wilder para este filme, sátira trágica sobre o lado negro de Hollywood, foi contratar William Holden para contracenar com a veterana Gloria Swanson e dar a Erich von Stroheim o papel do sinistro mas dedicado mordomo da antiga estrela Norma Desmond, já muito passada dos carretos, vivendo ilusões de glória. A relação entre os actores torna o enredo ainda mais dramático na elaboração deste retrato cru sobre a “indústria dos sonhos”, onde a capital do cinema surge como uma entidade cujo brilho incandescente esconde uma realidade cruel e determinada pelo lucro sob o lema de "o espectáculo tem de continuar".

Serenata à Chuva (1952)

A alegria de viver depois das amarguras da guerra foi exemplarmente captada por Stanley Donen e Gene Kelly nesta extravagância de música e dança, conseguindo o raro feito de realizar um dos mais importantes musicais de sempre e ser, ao mesmo tempo, apreciado por crítica e público. Melhor, conseguiram, com a grande colaboração dos argumentistas Betty Comden e Adolph Green, mais as brilhantes interpretações de Debbie Reynolds e Donald O'Connor, que tornam ainda mais exultante a representação de Kelly, criar um filme que sobrevive ao tempo e continua a ser uma película encantadora – por muito que agora aquele transbordante optimismo pareça bastante ingénuo.

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Há Lodo no Cais (1954)

Pelo contrário, o optimismo não singrava na obra-prima de Elia Kazan, que um par de anos depois estreou Há Lodo no Cais, filme no qual Marlon Brando enfrenta uma quadrilha e tenta com um grande e redentor gesto fazer justiça e repor a verdade. O papel de Terry Malloy, um ex-pugilista com atitude, foi, sem dúvida, o que melhor lhe assentou e o que lhe deu entrada no panteão dos grandes actores do século XX, apesar de Don Corleone, de O Padrinho, ou do coronel Kurtz de Apocalipse Now – e mesmo contando com a sua interpretação em Um Eléctrico Chamado Desejo.

A Sombra do Caçador (1955)

Charles Laughton ficou conhecido como o excepcional actor a que os realizadores recorriam quando precisavam de alguém capaz de fazer qualquer papel, não diremos com o mesmo empenho, mas garantidamente com uma categoria acima da média. Mas Laughton foi também realizador de um filme que, como hoje se diz um pouco levianamente, a propósito de tudo e de nada, se tornou um “clássico instantâneo” ou um “filme de culto”. Embora a perturbadora interpretação de um assassino em série por Robert Mitchum e a inspirada contracena de Shelley Winters e Lillian Gish tenham um papel fundamental no estabelecimento do carácter da obra, a negra e densa exploração da psicologia do matador compulsivo vem do argumento de James Agee, melhor, do romance de Davis Grubb que adaptou, e da realização quase experimentalista de Charles Laughton.

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Fúria de Viver (1955)

E ao segundo filme confirmou-se a ascensão de James Dean ao estrelato, actor que, morrendo aparatosamente pouco depois das filmagens da sua terceira película, O Gigante, se tornou uma lenda. Nicholas Ray, que, como toda gente, dera por ele em A Leste do Paraíso, foi o grande responsável por este estatuto, ao confiar no instinto interpretativo de Dean para o papel do revoltado e confuso Cal Trask, e assim derrubar o estereótipo do adolescente inconsciente, quer na variante rebelde, quer na opção atinada.

O Sétimo Selo (1957)

Contrariando a hegemonia norte-americana e a ligeireza geral do cinema de Hollywood, o realizador sueco Ingmar Bergman mostrava, por assim dizer, a sua graça, com um filme que é na verdade uma reflexão sobre a fé e a mortalidade (sim, é nesta película que a Morte joga xadrez com um cavaleiro). As interpretações de Max von Sydow, Gunnar Björnstrand e Bengt Ekerot são fundamentais para esta espécie de fábula em que o realizador não esconde o desapontamento com a condição humana que levaria o seu cinema a caminhos ainda mais estimulantes e obsessivos.

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A Sede do Mal (1958)

O filme para o qual Orson Welles imaginou e concretizou uma das mais empolgantes e belas sequências de abertura foi tudo menos querido dos estúdios que o produziram. Ao ponto de abdicarem da montagem do realizador e optarem por uma versão mais moralmente higiénica de uma película que tem no seu âmago a perversão e a corrupção. Enfim, o tempo acabou por fazer justiça ao criador, e hoje A Sede do Mal pode ver-se com as imagens alinhadas da maneira desejada pelo cineasta. O que torna ainda mais impressionista a abordagem de Welles e a utilização que faz dos seus actores, Charlton Heston, Janet Leigh, ele próprio, e, em pequeno mas decisivo papel, Marlene Dietrich.

Os 400 Golpes (1959)

Em França, entretanto, sopravam novos ventos e François Truffaut era um dos semeadores de tempestades a caminho de criar um novo cinema, ou melhor, uma nova e diferente aproximação da que era comum na Europa, ainda demasiado dependente do neo-realismo, ou do simplismo generalizado em Hollywood, ainda assim a viver uma das suas grandes épocas. Jean-Pierre Léaud começava aqui a sua carreira como alter ego do realizador no papel de Antoine Doinel, então ainda um rapaz dado à rebeldia e à fantasia romântica anti-sistema até chocar com a vida real e as suas circunstâncias e obrigações.

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Rio Bravo (1959)

Apesar da já falada ligeireza do cinema norte-americano e de uma certa tendência para a rotina e para a repetição de fórmulas até à exaustão, que aliás permanece, realizadores havia, como Howard Hawks, que não estavam para aí virados. Rio Bravo é provavelmente o melhor exemplo de um cinema sempre preocupado com a clareza da história que contava, porém capaz de introduzir camadas de simbolismo suficientes para proporcionar leituras mais amplas. É uma película na qual se sente a tensão, a pulsão pela sobrevivência, tanto como a inclinação suicidária, nas interpretações de John Wayne, mas principalmente no bêbado com dignidade interpretado por Dean Martin.

Plano 9 do Vampiro Zombie (1959)

Está certo. Plano 9 do Vampiro Zombie é um mau filme. Mas é um filme tão mau, tão mau, tão mau que, mesmo sendo geralmente considerado “o pior filme de sempre”, é uma das películas mais pateticamente divertidas da história do cinema e o sinal de como a atracção pelas câmaras e pela fama pode levar certos sonhadores a um grau de maluquice que os torna, de maneira algo distorcida, é certo, uma espécie de visionários com azar. A extraordinária história de Edward D. Wood Jr. é contada em película de muito maior qualidade (Ed Wood) por Tim Burton, em 1994, mas é imprescindível ver Bela Lugosi, no seu último papel, contracenar com uma apresentadora de filmes de terror na televisão (Maila ‘Vampira’ Nurmi) e um lutador (Tor Johnson) com peso a mais a fazer de detective enquanto uns extraterrestres de pijama tentam executar o seu nono plano de ocupação da Terra.

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Lição 6: os anos 70

Na década de 70 o olhar de Hollywood mudou. E o “sistema” dos estúdios foi substituído por um cinema mais estético e politicamente atrevido, por um lado, enquanto, por outro, começava a era dos blockbusters e o triunfo do cinema de entretenimento e efeitos especiais. Dez exemplos com final feliz já a seguir.

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