Clássicos de cinema para totós. Os melhores filmes dos anos 60

De "O Acossado", de Jean-Luc Godard, a "2001: Odisseia no Espaço", de Stanley Kubrick, eis os melhores filmes dos anos 60
Sci-fi movie: 2001: A Space Odyssey
Por Rui Monteiro |
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A década dos sonhos mais floridos, extravagantes e idealistas, também teve o seu lado violento. O cinema atravessou uma das suas épocas mais curiosas e experimentalistas em que, parecia, valer tudo, desde que fosse contra a corrente dominante. E os melhores filmes dos anos 60 foram contra a dita. Como, por exemplo, O Acossado (1960), de Jean-Luc Godard; O Enviado da Manchúria (1962), de John Frankenheimer; Blow-Up – História de Um Fotógrafo (1966), de Michelangelo Antonioni; Bonnie e Clyde (1967), de Arthur Penn; ou 2001: Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick.

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Os melhores filmes dos anos 60

O Acossado (1960)

O papel de Jean-Luc Godard na história do cinema ainda está, e pelo andar da conversa estará por muito tempo, por determinar com precisão. O que agora não interessa nada, pois, há quase 60 anos, ele introduzia um pauzinho na oleada engrenagem da indústria que provocou um efeito bola de neve em toda a cinematografia posterior a O Acossado. História de criminoso e assassino sem escrúpulos nem moral (Jean-Paul Belmondo), embeiçado por uma rapariga burguesa e educada na Sorbonne (Jean Seberg), a película de Godard como que se apropria dos códigos cinematográficos então tradicionais para os sabotar através de uma nova e muito ágil forma de narrativa em que nada acaba bem e ninguém é feliz para sempre.

Psico (1960)

A cena do chuveiro já foi tantas vezes e de tantas formas copiada, adaptada, satirizada, que a maioria dos espectadores nem faz ideia de onde vem. Pois é daqui, de Psico, mais um filme em que o génio de Alfred Hitchcock transformou entretenimento em arte pela elaboração do seu método de criação de suspense. O qual, nesta obra, chega a ser angustiante e até um pouco perturbador na maneira como o realizador expõe a história e a conduz até ao enigmático sorriso de Anthony Perkins que encerra o filme.

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O Enviado da Manchúria (1962)

Há muito que John Frankenheimer é uma espécie de funcionário público de Hollywood, realizador para qualquer encomenda, que entrega pontualmente a produção, cumprindo, pelo menos, os serviços mínimos exigidos à cultura de massas. Por sorte ou inspiração, em O Enviado da Manchúria, Frankenheimer realizou a sua obra-prima – com o belo argumento que George Axelrod lhe entregou, a música hipnótica de David Amram por pano de fundo, a representação exemplar de Frank Sinatra, Laurence Harvey, Janet Leigh e Angela Lansbury, sem esquecer a patusca e arrepiante personagem interpretada por Henry Silva. Uma bem doseada mistura de thriller psicológico com intriga política, condimentado por grande e justificada quantidade de paranóia e manipulação de informação, que, infelizmente, a evolução desta era mantém demasiado actual, com as devidas adaptações às novas circunstâncias.

Fellini 8½ (1963)

Um dos melhores exemplos da diversidade e versatilidade, do experimentalismo e da ousadia estética do cinema da década de 1960 é esta obra delirante de Federico Fellini. Aqui, o realizador italiano monta um verdadeiro circo de emoções a partir das suas próprias emoções, entregando ao maior dos actores europeus, Marcello Mastroianni, o papel de seu alter ego. E, como no circo, o cineasta faz da sua história uma enorme festa, uma celebração, por vezes algo carnavalesca, mas que com o seu olhar entre o satírico e o trágico se transforma quase num hino à vida e um sinal do optimismo da época para este realizador atormentado com o final a dar ao seu filme.

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Blow-Up – História de Um Fotógrafo (1966)

E por falar em optimismo, outro realizador italiano, Michelangelo Antonioni, aproveitava a festiva “swinging London” dessa década para criar um filme luminoso que a evolução narrativa tornará cinzento e misterioso, pondo em causa o niilismo ligeiro que ele próprio imprime como matriz do desenvolvimento do enredo. Com David Hemmings e Vanessa Redgrave, entre sessões fotográficas, oficiais e clandestinas, formais ou improvisadas, uma sexualidade assumida como libertação saltitando no ecrã, a possibilidade de um crime e de uma traição, Antonioni criou uma espécie de cápsula do tempo e uma obra-prima paradoxalmente intemporal.

Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966)

Se houve instituição que os anos 60 puseram em causa, e mal ou bem todas a puseram, a família foi sem dúvida a que foi mais dissecada. Embora bater na família seja uma espécie de desporto de interior para ficcionistas, seja na literatura, no teatro ou no cinema, a particular crueldade da relação entre George e Martha, na peça de Edward Albee, é ampliada pela realização de Mike Nichols. Isto faz do texto, já por si um exemplo de maledicência conjugal compulsiva, impulsionado ainda pelas grandes interpretações de Elizabeth Taylor e Richard Burton, uma demonstração quase hiper-realista do sadismo e masoquismo psicológico de que é capaz um casal com os dias contados.

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O Bom, o Mau e o Vilão (1966)

Foi tratado como coisa menor, produção baratucha italiana com uns actores americanos medíocres, mas o tempo deu razão a Sergio Leone. E hoje, O Bom, o Mau e o Vilão não é já dado como o melhor exemplo do western-spaghetti, mas sim como um grande filme, que, mais do que ter dado uma carreira a Clint Eastwood e mostrado a genialidade musical de Ennio Morricone, criou um novo conceito, direi mesmo um novo paradigma para o cinema de acção. Através de uma receita simples: tratar o cinema como uma ópera, isto é, um espectáculo total onde até os mais pequenos pormenores têm um significado.

Bonnie e Clyde (1967)

Há muito que o cinema era acusado de glamorizar o crime e os criminosos. Pois foi exactamente isso que Arthur Penn fez ao contar a história de dois miseráveis desajustados e iludidos. Mais, além de tornar os cruelmente famigerados Bonnie (Faye Dunaway) e Clyde (Warren Beatty) numa espécie de Romeu e Julieta do crime de pé-descalço que realmente representavam, glamorizou em magníficas imagens a violência dos seus actos e, mais do que tudo, a sua barbárica captura e execução pelas forças policiais numa sequência tão chocante como fascinante.

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A Semente do Diabo (1968)

Roman Polanski sempre foi, como se costuma dizer, um realizador de confiança, capaz de abordar diversos temas de maneira criativa, apesar de a sua carreira mostrar um grande desequilíbrio entre filmes. Por esta altura, mesmo no início da sua vida na América, aproveitando o êxito da sua sátira ao cinema de vampiros, Por Favor Não Me Morda o Pescoço, dela se aproveitou para dirigir um dos mais psicologicamente assustadores filmes de terror. Precisou de uma boa e esquinada história, adaptada por Gérard Brach de um romance de Ira Levin, de dois actores de categoria, Mia Farrow e John Cassavetes, uma casa gótica e uma carrada de imaginação na colocação das câmaras e na obtenção de cada plano para deixar muito boa gente a pensar melhor na maternidade.

2001: Odisseia no Espaço (1968)

Ainda está para nascer, provavelmente, a pessoa, ou entidade, capaz de explicar de maneira clara e de uma vez por todas o que significa 2001: Uma Odisseia no Espaço, especialmente as suas cenas finais. E este é um dos encantos desta obra que, de certa forma, quer dizer, metafisicamente, sintetiza o espírito dos anos 60 como uma epopeia de ficção científica a caminho do desconhecido. Entretanto, são tantas as teorias já desenvolvidas, muitas das quais ainda em vigor, algumas até inteligentes, que o aconselhado é mesmo ver a película com que Stanley Kubrick deixou meio mundo a pensar no que está além, de preferência na perspectiva de que a compreensão de uma obra de arte está francamente sobrevalorizada, pelo que mais vale perdermo-nos nas imagens e tentar não ser levados na conversa do perverso HAL 9000 – a não ser para ver aí uma das possibilidades de futuro da Inteligência Artificial.

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