Um movimento cultural chamado FAKA

Mais que uma dupla musical e de performance, os FAKA tornaram-se sinónimo de libertação para a comunidade queer na África do Sul. Na semana passada trouxeram a Lisboa o seu gqom, reinvenções do gospel e outras inspirações religiosas. Falámos com eles.
Faka
©Nick Widmer
Por Clara Silva |
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Black Spiritual Music. É assim que Desire Marea (o alter ego de Buyani Duma) define o que vai acontecer dali a umas horas no aquário da Galeria Zé dos Bois, no Bairro Alto, ao lado do companheiro Fela Gucci (Thato Ramaisa), a outra metade dos FAKA. “A Nina Simone disse que fazia ‘black classical music’, odiava o termo jazz”, diz. “Nós fazemos black spiritual music.” A estreia em Portugal da dupla sul-africana aconteceu na quinta-feira passada numa espécie de ritual enérgico entre fumos, perucas, projecções de vídeo e gqom (já lá vamos) que serviram para apresentar o último EP, Amaqhawe, lançado o ano passado, e que os tem levado a viajar pela Europa.

Conheceram-se “no Facebook” em 2010 e começaram a trabalhar juntos algum tempo depois, primeiro em casa, depois em espaços públicos, como galerias e discotecas mais underground de Joanesburgo, onde, quando não estão em digressão, organizam as noites Cunty Power. “Foi muito orgânico. Havia uma falta de representação queer na cena artística e queríamos desafiar isso”, contam.

Em 2015, apresentaram- -se oficialmente como FAKA com uma performance, #WaitLorraine: A Wemmer Pan-African Introduction to Siyakaka Feminism, na galeria Hazard, também em Joanesburgo. O nome, FAKA, significa “penetrar”, “ocupar”, e foi isso que quiseram fazer: ocupar espaços onde não havia representatividade queer. Ou melhor, “trazer outras narrativas da representação queer”, sublinha Desire. “Nem sempre somos retratados de uma maneira positiva pelos media mainstream. Há sempre o mesmo estereótipo de pessoas queer retratadas através de piadas televisivas, sempre com comic relief.”

Mais que uma dupla musical ou de performance, os FAKA tornaram-se numa espécie de movimento cultural que inspirou outras pessoas queer, “sobretudo mais jovens”, a libertarem-se, a ganharem uma voz e um “espaço seguro”.

O site que criaram serve como plataforma para apresentar e contar a história de outros artistas e activistas LGBT+, alguns deles, como o jovem casal Nkulsey (modelo) e Bradley (bailarino), mais tarde retratados num documentário com a comunidade queer de Joanesburgo da série Out of This World, do rapper Mykki Blanco, que também inclui os FAKA. “Curiosamente, o Mykki [Blanco] era o nosso herói”, conta Desire. “Descobrimo-lo em 2011/2012 e inspirou-nos muito a fazer o que fazemos hoje. Era muito disruptivo naquela altura.”

A sonoridade dos FAKA começou por surgir no quarto de Desire. “Éramos só nós a divertirmo-nos”, conta Fela Gucci. “Compusemos a primeira música no programa e pusemo- -la no Soundcloud, Foi muito espontâneo. Com o nosso primeiro EP [Bottoms Revenge, de 2016], com a produção feita por nós, tornou-se tudo mais formal. Marcávamos sessões para produzir e mais recentemente, o ano passado, arranjámos produtores como o DJ Bigger [que agora os acompanha nos concertos].”

A música é uma mistura de gospel e sons ancestrais e espirituais com gqom (lê-se gomme, mas o “q” corresponde a um click com a língua), um house com sons zulu que surgiu entre DJs e produtores da cidade sul-africana de Durban e que se difundiu através dos rádios de taxistas.

O suficiente para conquistar a Europa (depois de Lisboa seguem-se concertos em cidades como Paris, Varsóvia, Munique ou Bristol) mas “um gqom demasiado queer” para ser incluído no cartaz de festivais na África do Sul, onde a igreja tem um papel fundamental. “A espiritualidade tem uma importância grande na nossa música, porque também sentimos que as pessoas queer nasceram daí, dos diálogos espirituais da arte e da música, especialmente no gospel”, continua Desire. “Se olhares para a estrutura da igreja na África do Sul, o ritmo cultural é muito queer. Muitas pessoas queer arranjam maneira de se expressar ali e é o único sítio onde é aceitável dançar e cantar livremente. Fora daí é tipo: ‘És queer? [faz uma cara depreciativa]. Mas se é por Deus, sim, claro, está tudo bem.’”

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