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Após o sucesso na Portugal House durante o Mundial de futebol, o projecto de Fernando Vaz conquistou um espaço próprio em Brooklyn para promover a sandes mais famosa do país.

A bifana portuguesa acaba de conquistar um lugar cativo na cidade que nunca dorme. Após o sucesso estrondoso na Portugal House durante o Mundial de Futebol, com milhares a fazerem fila só para comer “A febra perfeita no pão perfeito”, o Mr. Bifana tem agora o seu próprio espaço no Time Out Market de Nova Iorque. “Esta história dava cinco ou seis minutos de podcast”, avisa-nos Fernando Vaz ao telefone, directamente de Brooklyn, onde tem estado ocupado a ser embaixador da sandes mais famosa de Portugal. “Gotch-ya”, ouvimo-lo dizer do outro lado. Pouco tempo depois, volta a dedicar-nos a sua atenção. São mais 20 minutos do que o prometido para nos contar a sua aventura nos Estados Unidos.
Vaz estava no Bahrein, com a TAP, quando a pandemia acabou com a sua carreira na aviação. Seria o princípio de um novo projecto de vida, mas ainda não sabia. Por isso, recua uns anos na história, para quando teve oportunidade de fazer um intercâmbio na Nova Zelândia, durante a sua licenciatura em Gestão na Universidade Nova de Lisboa. “Foi o meu primeiro ‘abre-olhos’. Depois do curso, comecei a trabalhar num quiosque na Avenida da Liberdade para poupar dinheiro para uma viagem pelo mundo, que fiz com dois amigos. Durou oito meses, com cerca de dez dólares por dia, sempre a acampar e à boleia, a dormir em casa de outras pessoas. Quando chegou ao fim, resolvi tirar uma licença de aviação, para ser piloto”, recorda.
O sonho não se cumpriu, já sabemos, mas, habituado a desenrascar-se além-fronteiras, resolveu pôr mãos à obra, comprou um tuk-tuk e fez uma parceria com o Solar dos Presuntos: o restaurante cedia-lhe uma garagem para estacionar e Vaz fazia publicidade enquanto conduzia estrangeiros pela capital. “Ainda tenho esse tuk-tuk, apesar de obviamente já não ser eu a conduzi-lo, mas durante os três anos em que trabalhei em Lisboa constatei duas coisas. A primeira era que Portugal estava a ficar cada vez mais popular entre os americanos. A segunda, que tem a ver com as viagens que eu continuei a fazer, foi que não é fácil encontrar cozinha tradicional portuguesa cá fora.”
Long story short, foi assim que, eventualmente, o Mr. Bifana nasceu. “Levava os estrangeiros às Bifanas do Afonso. Dizia-lhes ‘imaginem-se em Nova Iorque a comer isto’, e o feedback era sempre positivo, por isso juntei-me outra vez ao Solar dos Presuntos, para pensar numa receita que nos honrasse, e agora aqui estamos”, diz, entre risos. “A bifana representa autenticamente sabores típicos da cozinha tradicional portuguesa, como o azeite, o alho, o vinho, e depois tem a questão da operação, porque me fascinava ver como no Afonso estava sempre a sair, a sair, a sair. E, aqui, tudo o que seja produto de grab and go tem potencial. Não é como nós, que nos sentamos, com sopa, prato, pão, café e sobremesa, e às vezes ainda nos queixamos. Aqui é tudo muito mais rápido. Por isso, a bifana é perfeita.”
Duarte Vicente, director-geral da Time Out Portugal, que promoveu a Portugal House durante o Mundial nos EUA, subscreve a opinião: “Algumas das coisas mais extraordinárias da gastronomia são aparentemente muito simples. O que faz a diferença é a autenticidade, a qualidade do produto, a execução e a capacidade de representar uma cultura. É precisamente esse o princípio da curadoria Time Out. Não procuramos necessariamente o mais sofisticado, procuramos aquilo que é genuinamente bom, relevante e representativo de um lugar. A bifana tem uma enorme portugalidade. É imediatamente reconhecível para um português e, ao mesmo tempo, suficientemente simples e universal para ser descoberta e compreendida por alguém em Nova Iorque.”
Quando chegou a Nova Iorque em 2025, Fernando Vaz começou a realizar eventos pop-up em bares, como o Tradesman em East Williamsburg e o Time Again em Chinatown, até finalmente conquistar um espaço fixo no Ten Degrees, no East Village. Mas o que queria mesmo era participar no Campeonato do Mundo, que aconteceu entre Junho e Julho deste ano. Vai daí apresentou a ideia à Federação Portuguesa de Futebol, que o levou primeiro ao Time Out Market de Union Square, depois ao terraço do Time Out Market de Nova Iorque, onde chegou a servir ex-jogadores de futebol portugueses, como Beto, Jorge Andrade e Bruno Alves.
“A equipa do Time Out Market em Brooklyn teve um papel fundamental no acompanhamento do conceito, na análise da reacção do público e na avaliação, de forma muito concreta, da sua capacidade para permanecer no Market. Esse trabalho foi extremamente importante porque deu ao processo uma verdadeira avaliação de mercado. Não estamos apenas a falar de um conceito português que ganhou visibilidade durante uma activação; estamos a falar de um conceito que foi testado perante um público nova-iorquino, acompanhado pela equipa local e considerado suficientemente forte para continuar”, explica Duarte Vicente, que acredita que para nos diferenciarmos nem sempre é preciso apresentar “algo mais complexo”, mas sim um produto “com personalidade e com uma história por trás”.
No Mr. Bifana, tudo começa com o papo-seco perfeito, de crosta estaladiça e miolo macio, encomendado exclusivamente a uma padaria em Newark. Já o segredo da carne de porco ibérica reside no tempero: azeite, vinho, alho e colorau, desenhado “numa manhã de sol em Lisboa, na cozinha do Solar dos Presuntos”. Mas, entretanto, com um lugar fixo no Time Out Market de Nova Iorque, o menu teve de crescer.
“Eu aceitei o desafio e também já fazemos pastéis de bacalhau, rissóis de camarão, sanduíches de queijo de São Jorge, pastéis de nata, azeitonas, tremoços e pão aberto com produtos enlatados portugueses – atum de escabeche, sardinhas em azeite, caldeirada de lulas –, que nos permite manter a operação simples e, ao mesmo tempo, proporcionar uma experiência boa a quem aqui vem. E eu já aqui estou, a beber o meu cafezinho Delta – é a marca que servimos, mais ninguém tem aqui – e a preparar o tacho para as bifanas”, remata Vaz, que está entusiasmado com o futuro do negócio.
“Portugal tem hoje uma geração extraordinária de chefs, conceitos e empreendedores gastronómicos com potencial internacional. O que muitas vezes falta não é qualidade, mas uma plataforma de entrada”, avisa Duarte Vicente, que defende o papel de marcas como a Time Out na criação de oportunidades, incluindo exportação de talentos nacionais. “Fazemos parte de uma marca global, com conhecimento local em algumas das cidades mais relevantes do mundo. Essa combinação permite-nos funcionar como uma ponte entre talento português e audiências internacionais”, esclarece. “Para nós isso também reforça o papel da Time Out Portugal. Não queremos ser apenas um meio ou uma plataforma que dá visibilidade. Queremos conseguir identificar talento, ajudá-lo a crescer e, sempre que fizer sentido, criar pontes para outros mercados. Quando um projecto português funciona internacionalmente, não beneficia apenas essa marca. Ajuda a construir reputação para toda a oferta portuguesa e torna mais fácil o caminho para os que vêm a seguir.”
Para Duarte Vicente, a Portugal House em Nova Iorque é o exemplo perfeito do que acredita que se pode fazer quando se junta uma marca global como a Time Out com “uma instituição com a dimensão e capacidade de mobilização da Federação Portuguesa de Futebol e a visão estratégica do Turismo de Portugal”. A ideia, explica-nos, foi – mais do que criar uma activação – levar Portugal a um dos lugares mais centrais e influentes do mundo. E, mais do que isso, deixar marca. “Portugal não esteve apenas em Nova Iorque, ficou em Nova Iorque.” Para isso, o trabalho da Federação Portuguesa de Futebol também foi fundamental. Duarte Vicente destaca as equipas lideradas por João Medeiros e Pedro Ribeiro Telles, “fundamentais na construção e concretização desta iniciativa”, bem como “o apoio” de Carlos Abade, presidente do Turismo de Portugal, e “a visão” de Lídia Monteiro, membro do Conselho Directivo da Autoridade Turística Nacional.
“Havia uma oportunidade de dar continuidade ao que tínhamos criado e transformar uma acção temporária numa presença portuguesa com permanência num mercado internacional. E essa ideia parte também de uma reflexão que considero muito relevante do Turismo de Portugal: para que a gastronomia portuguesa ganhe notoriedade seja verdadeiramente valorizada internacionalmente tem de estar presente nos mercados internacionais. Não basta falar sobre ela, é preciso que as pessoas possam prová-la, experimentá-la e criar uma relação com os nossos produtos, conceitos e histórias.” Foi exactamente isso que fizeram com o Mr. Bifana: “Passámos de uma activação com um princípio e um fim para uma presença continuada no Time Out Market em Brooklyn, perante nova-iorquinos e visitantes de todo o mundo.”
Para a Time Out Portugal, assegura Duarte Vicente, não basta convidar as pessoas a visitar o país, também é importante levar-lhes Portugal onde estiverem. “Criar primeiro uma relação e uma ligação emocional com o destino e fazer com que depois queiram descobrir a sua origem”, diz. “É neste ponto que a Time Out pode acrescentar muito valor. Os Time Out Markets são plataformas físicas internacionais, com uma curadoria reconhecida e audiências muito relevantes, onde podemos criar oportunidades para marcas portuguesas que tenham projectos distintivos, autênticos e, sobretudo, uma história para contar. O Mr. Bifana demonstra que esse percurso é possível. E penso que traduz muito bem aquilo que o Turismo de Portugal procurou construir com esta iniciativa: não olhar apenas para o impacto imediato de uma acção, mas perceber como transformar exposição em legado.”
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