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Abram alas, cancelas, pits, tudo, para os reis do Meo Kalorama: Turnstile

Com as atenções do dia voltadas para Deftones (e bem, como se provaria), a festa foi da banda de punk hardcore que anda pelo mundo a falar de amor-próprio e a espalhar alegria. Peaches, Clipse e Wednesday também marcaram o terceiro dia de festival.

Hugo Torres
Escrito por
Hugo Torres
Director-adjunto, Time Out Portugal
Turnstile no Meo Kalorama 2026
João Silva/Meo Kalorama | Turnstile
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A cultura pop tem uma característica profundamente aborrecida: muitos dos seus mais dedicados consumidores, os mais atentos e informados, os mais disponíveis a inflectir e a adoptar a novidade, a ousadia, a “próxima grande cena”, adoram dizer que conhecem este ou aquele artista há muito mais tempo do que toda a gente e que se desinteressaram por esses artistas no momento em que se tornaram populares. É um tipo especial de snobismo. O povo não é julgado pela sua ignorância. Pelo contrário, é por saber, conhecer, praticar. Este tipo de snobismo também é uma negação da própria cultura pop – isto é, popular. E decorre do facto de esses vanguardistas, esses lobos solitários, acharem que operam fora do circuito, quando a verdade é que estão dentro da sala, mas sentadinhos nas cadeiras encostadas à parede enquanto toda a gente está a dançar no centro da pista. Tristes.

Vem este relambório, também ele pretensioso, a propósito do terceiro dia do Meo Kalorama, festival que chegou ao fim este domingo no Parque da Bela Vista. Em particular, a propósito de Deftones. A banda norte-americana está a viver uma segunda vida, redescoberta pelas gerações mais novas em plataformas inóspitas para a velha guarda, como o TikTok.

Redescoberta em boa hora. A juventude apanhou-a em grande forma e na vertigem de lançar um disco fenomenal, Private Music, no Verão de 2025. Mas a mesma conversa gasta infecta os fãs mais recentes: eu comecei a ouvir antes de, eu ouvi por mim depois de, eu sou especial, singular, olhem para mim. Isto ainda não é a conversa do parágrafo anterior – é a semente. O que importa o caminho? Estamos cá, juntos, somos todos diferentes, mas viemos todos ao mesmo. Novos, muito novos, velhos e assim-assim. Houve quem trouxesse as suas Eastpak, quem trouxesse os seus casacos Adidas, quem trouxesse crianças de abafadores nos ouvidos, quem trouxesse os filhos adolescentes com os seus namoros envergonhados… Houve de tudo, com certeza muitas histórias e camadas. E no entanto a beleza de um concerto é a experiência colectiva; é que, por umas horas, é mais forte aquilo que nos une do que tudo o resto. E isso é muito bonito, sobretudo nos tempos que correm.

É tão bonito ver um fã claramente acima dos 50 vibrar tanto com temas como “my mind is a mountain”, “locked club”, “infinite source” e “milk of the madonna” (os temas de Private Music que a banda incluiu no alinhamento) como ver fãs sub-20 a perder a cabeça com “Be Quiet and Drive (Far Away)”, “Around the Fur”, “Feiticeira” e “Sextape”. Ou todos juntos em  “My Own Summer (Shove It)” – que provocou um deslocamento tectónico na plateia – e na sequência completa do encore, com “Change (In the House of Flies)”, “Lotion” e “7 Words”. No total, um hora e vinte de perfeita sintonia, com uma multidão tão vasta na madrugada de uma segunda-feira que o próprio Chino Moreno se mostrou espantado. Ninguém parecia estar com ar de sacrifício, pelo contrário. E o que levam na memória ainda enevoada para o regresso ao trabalho é a de um belo concerto, embora os Deftones sejam uma daquelas bandas que têm sempre o melhor dos problemas em mãos: os temas que os fãs querem ouvir ao vivo são tantos que o número de ausências é sempre assinalável.

E um belo concerto apesar de o do ano passado, no Primavera Sound Porto, ter estado uns furos acima – mas essa é uma responsabilidade partilhada. Pela banda, necessariamente (o espectáculo passado parecia mais uma bola de energia, concentrada e sempre prestes a rebentar, o que lhe conferia uma certa aura), mas em igual medida pelo público, mais reverencial e porventura cansado pela absoluta festança a que aquele mesmo palco assistiu no concerto anterior, cortesia dos Turnstile. A banda de punk hardcore norte-americana foi uma fonte inesgotável de alegria por todo o seu set e deu um dos melhores concertos dos três dias de festival na Bela Vista (o primeiro lugar está em disputa com Robbie Williams).

Eles avisaram: antes de subirem ao palco, entoaram nas colunas “O Corpo É Que Paga”, de António Variações. Por um lado, como diz a cantiga, “Quando a cabeça não tem juízo/ Quando te esforças mais do que é preciso/ O corpo é que paga”. Por outro, “Deix’ó pagar, deix’ó pagar/ Se tu estás a gostar”. E haveríamos de gostar – e muito. Com um alinhamento essencialmente dividido entre os discos mais recentes, Glow On (2021) e Never Enough (2025), o Meo Kalorama recebeu os Turnstile a levantar poeira logo no acorde inaugural de “Birds” (pó que só assentaria bem depois de saírem de cena), com circle pits à direita e à esquerda, e com um fluxo ininterrupto de crowd surfing do princípio ao fim do concerto. Ao terceiro tema, “Endless”, o vocalista Brendan Yates já estava em cima do público, nas grades. Este ano, o festival ainda não tinha visto um concerto assim. Uma apoteose permanente, sorrisos rasgados por toda a parte, comunhão absoluta em “Never Enough”, tudo certo, tudo em altas, tudo bom. “Hot people listen to Turnstile”, lia-se num cartaz. Correcto. Ou o inverso: talvez as pessoas sejam atraentes porque ouvem Turnstile. É o ovo e a galinha.

Turnstile no Meo Kalorama 2026
Sara Hawk/Meo KaloramaTurnstile

Do meio para a frente, o concerto entrou numa sequência imaculada e avassaladora que viria a desembocar nesse momento único que foi “Never Enough” e depois, a fechar, “T.L.C. (Turnstile Love Connection)”, em grande. Uma sequência com “Mystery”, “Sole”, “Look Out For Me”, “Holiday” e “Blackout” que nos fez suar do bigode. Para ajudar à festa, a banda pôs a circular câmaras de vídeo pelo meio da plateia e foi projectando os fãs nos ecrãs gigantes, aproximando-os ainda mais, integrando-os no espectáculo e cumprindo à risca o mote da camisola que tinham sobre um dos amplificadores em palco: “De todos, um” (isto apesar de o único momento divisivo do concerto ter acontecido quando uma das câmaras focou essa camisola do Benfica). Uma dose muito quentinha de amor-próprio e amor pelo outro, que é o que estes moços do punk hardcore andam a propagar por onde passam.

Clipse, Wednesday e Peaches: para mais tarde recordar

Pusha-T deve uma coisa ou duas a Kanye West, com quem colaborou num disco de boa memória (é o que resta), My Beautiful Dark Twisted Fantasy, em 2010. O rapper tornou-se uma das pessoas de confiança de Kanye ao longo dos anos, presidindo até à sua editora, a GOOD Music. Esse período já lá vai (em 2022, Pusha-T afastou-se, após os comentários anti-semitas e racistas do amigo), mas foi ainda graças a Kanye West que os Clipse se reuniram, em 2019, para participar no álbum Jesus Is King. A ideia de regressarem ficou e os dois irmãos, Pusha-T e No Malice, decidiram reanimar a dupla com que se tornaram nomes incontornáveis do hip hop norte-americano. No ano passado, editaram Let God Sort Em Out – e foi esse disco, muito bem recebido pela crítica, que vieram apresentar a Lisboa.

Clipse no Meo Kalorama 2026
Guilherme Cabral/Meo KaloramaClipse

Com a difícil tarefa de fazer a ponte entre Turnstile e Deftones, ofereceram algo melhor: fizeram-nos esquecer a performance deprimente de Freddie Gibbs e The Alchemist, neste mesmo palco, duas horas antes. O novo disco foi o foco de um óptimo espectáculo, embora não faltassem temas do passado, em particular de Hell Hath No Fury (2006). A música só parou para distribuir autógrafos em alguns vinis e ovações para cada um dos rappers, à vez. Merecido. Com um público fiel num dia que parecia mais vocacionado para guitarras do que para o hip-hop, os Clipse não se deixaram engolir pelo cartaz e, com a sua proficiência e a sua inegável e reconhecida química, gravaram em relevo o nome na dupla na história deste dia do festival – e aí o mérito é integralmente deles, não devem nada a ninguém.

Tal como foi mérito de Wednesday (sem MJ Lenderman na guitarra), igualmente no palco secundário, ter-nos mantido de ouvidos bem abertos ao cair da noite, esquecendo a fome para o jantar. Entre o alt-country, o sludge e a dream-pop – isto é, entre Dolly Parton e uma Olivia Rodrigo hardcore –, cativou-nos durante todo o concerto. Mais houvesse. O mesmo não se pode dizer dos brasileiros Pelados, que tinham ocupado este espaço imediatamente antes. No primeiro concerto fora do seu país, pareceram algo diletantes e incapazes de agarrar o público (havia quem aproveitasse para pôr a conversa em dia ou fazer joguinho de Sudoku…).

Wednesday no Meo Kalorama 2026
Rita GazzoWednesday

Já no palco principal, a adesão foi sempre acima do que é costume para cada hora: fossem os bracarenses Travo (aplausos), os ingleses High Vis (com um som de guitarra de fazer ranger os dentes) ou a norte-americana Peaches (de energia inesgotável). A autora de “Boys Wanna Be Her” e “Fuck The Pain Away” veio apresentar o novo No Lube So Rude (o grosso do alinhamento) e pedir-nos para protegermos os jovens trans e intersexo – e mandar o fascismo e o racismo às malvas. Com uma performance feroz, libertária e hipersexualizada, abriu uma pista de dança de electroclash à hora de jantar e, a meses de completar 60 anos, mandou recado a dizer que velhos são os trapos. Já o sabíamos, mas com tanta gente nova no recinto fica sempre bem recordar: deixem a idade e as singularidades na gaveta e divirtam-se em conjunto. O resto é paleio.

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