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Robbie Williams e Angine de Poitrine marcaram um arranque ecléctico e vibrante no primeiro dia do festival que acontece no Parque da Bela Vista.

Esta reportagem começou, na verdade, a ser escrita na quarta-feira. Em cima da hora, ficámos com a tarefa (o privilégio?) de cobrir o primeiro dia do Meo Kalorama, no Parque da Bela Vista. O que nos conduziu a duas reflexões: o que sabíamos afinal sobre o legado de Robbie Williams, para escrevermos sobre um concerto dele, e como é que nos vamos manter acordados até à 1.20 para ver o cabeça-de-cartaz?
A memória mais forte que temos do artista é de ouvir “Bodies” na MTV e ter a canção a circular no leitor de MP3, o que não se pode considerar com um grande conhecimento sobre o seu espólio. De resto, foi alguém cuja discografia sempre desvalorizámos. Passou-nos ao lado. Por isso, como bons jornalistas, decidimos ver Better Man (2024), o filme autobiográfico do cantor britânico em que este é interpretado por um chimpanzé, para preparar o espectáculo.
Algumas das lições aprendidas: origem proletária em Stoke-on-Trent; pai aspirante a artista, apaixonado pela música, que o abandonou e o deixou com complexos e falta de auto-estima; fama precoce numa boy band (entrou nos Take That aos 16 anos); um sucesso muito maior a solo (menos nos Estados Unidos); afundado em álcool e cocaína de uma forma que faria o Tony Montana de Scarface corar de vergonha; Liam Gallagher era meio amigo, meio inimigo; deu um dos maiores concertos da história do Reino Unido em Knebworth e isso deixou-o à beira do colapso mental; e, finalmente, a redenção e a sobriedade – currículo impressionante. E, claro, a representação do macaco funciona como metáfora para o espírito selvagem e irreverente do cantor – muito mais interessante do que os Bohemian Rhapsody desta vida.
Com a lição estudada, restava a dúvida: será que ele ainda benze as fotografias de Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr. antes de subir ao palco?
Finalmente, à 1.20 da manhã, chegou o momento do cabeça-de-cartaz. Robbie Williams entrou em cena com uma entrada a pés juntos com o clássico “Let Me Entertain You”, conquistando de imediato o Parque da Bela Vista. Em “Let Love Be Your Energy”, a voz oscilou, mas sabemos que a afinação perfeita nunca foi o atributo central do cantor britânico. O carisma e o humor compensaram: “Acabei de ver um fã com quem dormi nos anos 90. Quase não o reconhecia porque agora tem barba”, atirou para a plateia, que respondeu com uma gargalhada geral.
Entre tiradas autodepreciativas – “Será que ainda tenho a capacidade para entreter? Ainda sou o bastardo gordo dos Take That?” –, Robbie desfilou êxitos como “Rock DJ”, envergando um casaco vermelho vivo, enquanto no ecrã passavam imagens de Better Man. Apresentou também “Pretty Face”, tema do novo disco, mas que poderia ter sido retirado de qualquer um dos seus álbuns de sucesso do final dos anos 90.
O concerto funcionou em parte como uma narrativa autobiográfica, na qual Williams abordou a família e a paternidade, mas também a sua história de superação. “Eu estava perdido, mas os meus filhos salvaram-me. Eles não queriam saber da minha popularidade, só queriam que eu estivesse presente. Esta música é para os meus bebés e para os vossos”, dedicou em “Love My Life”.
Este é um concerto onde se fala muito de saúde mental sem, uma única vez, usar o clichê moderno de “nós falamos pouco sobre saúde mental” – que tem sido uma muleta para tantas bandas. Provavelmente, é verdade, ainda assim, não falamos o suficiente sobre a importância da nossa saúde mental, mas isto é respeitar a regra número 1 do cinema: “show, don’t tell”.
Após partilhar episódios do seu passado nos Take That, que o levou a reclamar “Relight My Fire”, décadas depois de lhe terem negado ser a voz principal deste tema, interpretar “Supreme” (com alusões a Gloria Gaynor) e “Something Beautiful” junto ao público, o cantor assumiu o seu lado mais pop: “Eu aceitei que não sou cool e nunca fui. Se estão a tentar ser fixes, parem. Vamos levantar as nossas bandeiras de foleiros juntos”, partindo numa rendição de “New York, New York”.
Ainda a acenar a sua bandeira cringe, o alinhamento incluiu ainda uma apresentação original da banda – o segundo método criativo de fazer este ritual a que assistimos este Verão – através de um medley de rock que passou por “Personal Jesus”, “9 to 5”, “Jolene” (duas homenagens a Dolly Parton), “We Will Rock You”, “Y.M.C.A.”, “Just Can’t Get Enough” e “Hey Jude”, esta última cantada pelo seu colaborador de longa data, Gary Nuttall. Por muito foleiro que Robbie possa ser (ele é e admite-o), colocar o recinto composto a cantar e dançar “Y.M.C.A.” às 2.20 da manhã é prova da sua capacidade de comunicação.
Seguiram-se “Kids”, “She’s the One” (dedicada a uma espectadora chamada Isabel) e “My Way”, dedicada ao pai, acompanhada por projecções de fotografias pessoais. No regresso para o encore, “Feel” fez surgir milhares de telemóveis a gravar o momento, antes de o espectáculo encerrar com “Angels”, cantada sob um mar de luzes a pedido do artista, e uma imagem de Dolly Parton projectada no ecrã em fundo.
Ficou clara a resposta à pergunta inicial. Robbie Williams continua a ser um comunicador de mão-cheia. Este não é um concerto para cínicos. Ouvir versos clichê como “I love my life/ I am powerful/ I am beautiful/ I am free” pode soar a lugar-comum, mas ver o artista interpretar estas canções em palco, tendo ultrapassado os seus próprios dilemas, encerra a primeira noite do festival com um sentimento de celebração. Se calhar estar sóbrio e atinar até é fixe. Ser auto-destrutivo é uma seca.
Uma grande enchente marcou a abertura do festival. O que leva tantas pessoas a dirigirem-se às 16.00 para o Parque da Bela Vista, quando as portas do recinto ainda nem tinham sido escancaradas? A quantidade de festivaleiros com roupas pretas e brancas provavelmente ditava a resposta.
Os Angine de Poitrine são uma das bandas do momento. Poucas bandas rock fizeram correr tanta tinta na imprensa, ao lado de nomes como Geese ou The Strokes, por bons e maus motivos. A diferença é que a discussão se prendia à questão de porquê estar tão interessado no som e apresentação pouco convencional da dupla do Quebeque. O que apela tanto neste duo para ter furado a bolha e chegado ao mainstream?
Os fatos estrambólicos e um som com ritmos tão precisos quanto confusos são um condimento diferente – uma corcuma ou sumac para quem só está habituado a usar sal fino e pimenta preta – para quem está habituado à música comercial a que somos expostos no nosso dia-a-dia. Mas esta dupla de mascarados é daqueles casos em que primeiro se estranha, mas depois entranha-se.
Ao vivo, este factor é mais intenso. É impossível não ficar hipnotizado pela energia, pelos disfarces (parecem gigantes, fruto do tamanho das cabeças em papel machê) e pelos sons microtonais da guitarra que fogem ao habitual. Contudo, apesar de comunicarem com uma linguagem própria e fazendo sinais estranhos por cima da cabeça, é fácil perceber a mensagem: perder a cabeça durante uma hora e ouvir música com atenção enquanto se faz headbang.
Se desmontarmos as peças, podemos chegar à conclusão de que o grupo talvez não seja assim tão original. Como os Magma, estes também inventaram uma linguagem para cantar as suas canção no final dos anos 60; como os Gwar ou Mac Sabbath, usam disfarces extremos; e, como os King Gizzard & The Lizard Wizard, brincam com microtons com a pujança do stoner rock dos Kyuss.
Olhemos então para os detalhes. Fora os disfarces, o baterista ficará na memória pela precisão e intensidade com que bate na bateria. Através de uma cavidade, conseguimos ver os seus olhos e a atenção que dedica à arte que está a fazer. Pode ser engraçado ver o seu longo nariz a abanar com o vento, mas este nível de técnica não é piada nenhuma.
O guitarrista/baixista/vocalista impressiona pela forma como consegue fazer tanta coisa ao mesmo tempo e em tempos que nenhum relógio consegue marcar sem nunca se perder ou confundir. Além disso, também dançam enquanto fazem agachamentos. Não é para todos.
Numa altura em que a música caminha para a normatização movida pela inteligência artificial, é refrescante ouvir alguém tentar ser completamente alienígena, arrancando danças estranhas, mosh pits e até um comboio no público.
Anna Von Hausswolff trouxe uma proposta pesada que talvez fizesse mais sentido num Amplifest ou num SonicBlast do que a actuar num palco secundário às 18.15. No entanto, o seu vozeirão e as músicas de inspiração clássica, ambient e doom metal tornaram este um dos concertos mais pesados e especiais do festival. Com músicas como “The Mysterious Vanishing of Electra” alcançou uma intensidade que ainda mais ninguém conseguiu replicar.
O Palco Sagres recebeu ainda o regresso de Melody’s Echo Chamber a Portugal, mais de dez anos depois da sua última actuação. A distorção das guitarras contrastou com a doçura da voz de sotaque francês de Melody Prochet, que estava acompanhada por uma banda experiente, que incluía o guitarrista Reine Fiske, dos Dungen. Com influências de estilos como o rock psicadélico, dream pop e prog, o regresso da francesa foi um dos pontos altos deste primeiro dia do Kalorama. As canções do álbum homónimo de estreia, de 2012, como “Crystallized”, remetem-nos para o toque de Kevin Parker (fundador dos Tame Impala) que produziu este trabalho. No entanto, com o desenvolvimento do set, podemos perceber como a artista foi evoluindo e desenvolvendo a sua própria voz, com a introdução de novos elementos, com influências mais electrónicas e dançáveis.
Infelizmente, nem tudo foi perfeito, a mistura de som deixou muito a desejar – com o baixo a sobrepor-se a todos os outros elementos e a voz a tornar-se praticamente inaudível em diversas ocasiões –, mas saímos deste concerto com vontade de instalar o Duolingo e aprender francês para perceber a 100% aquilo que a cantora canta em “Quand Vas Tu Rentrer?”. Esperemos não estar tanto tempo outra vez sem cantar ao vivo temas como “I Follow You” e “Shirim”.
A noite seguiu com a energia de Judeline. A artista espanhola apresentou um reggaeton mais lento e sensual, com forte influência andaluza e nuances de flamenco e electrónica, fazendo lembrar a linguagem de LUX de Rosalía. Mais tarde, os Interpol subiram ao palco para apresentar o trabalho mais recente, This Mirror Weighs a Ton, e percorrer o seu repertório habitual. A actuação decorreu a meio gás, apesar de manterem a competência técnica e a postura sóbria que os caracteriza, tendo as faixas de Turn On the Bright Lights conquistado mais simpatia da parte do público.
Grace Jones, por sua vez, que entrou em palco com 15 minutos de atraso, ostentando uma máscara dourada. Arrancou com uma versão reggae de “Nightclubbing”, de Iggy Pop, antes de pedir um banco para se sentar. Aos 78 anos, a artista manteve a presença cénica, tocando pratos de bateria com baquetas e exibindo uma vitalidade assinalável. Entre interacções com o público – brincando com o atraso por ter tido de “subir a colina” –, Jones entregou uma versão estendida de “Slave to the Rhythm” e mostrou que, apesar de a idade pesar, ainda é capaz de dar um grande show.
O Kalorama continua este sábado, 29 de Agosto, com nomes como Lauryn Hill, Vince Staples ou Sam the Kid.
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