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Até ao infinito e mais além. Esta experiência imersiva leva-nos ao Espaço

A sala subterrânea da Estação de Metro do Terreiro do Paço é o ponto de partida para mais uma viagem em realidade virtual. Desta vez, numa produção desenvolvida em colaboração com o Observatório de Astrofísica Smithsonian.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Smithsonian Viagem Pelo Cosmos
Smithsonian Institution & Fever | Smithsonian Viagem Pelo Cosmos
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O universo está prestes a ficar ao alcance de todos. A partir desta quinta-feira, 17 de Setembro, Lisboa transforma-se numa porta de entrada para o cosmos com a chegada de “Smithsonian Viagem Pelo Cosmos: Uma Experiência”. É a terceira experiência imersiva, com recurso a realidade virtual, a ocupar a sala subterrânea da Estação de Metro do Terreiro do Paço. Depois de uma viagem no tempo até ao Antigo Egipto e de subirmos até ao Machu Picchu, no alto da Cordilheira dos Andes, somos convidados a ir mais longe, mais alto e, literalmente, para fora deste mundo.

Desenvolvida em colaboração com o prestigiado Smithsonian Astrophysical Observatory (SAO), esta produção combina tecnologia de realidade virtual com dados astronómicos reais recolhidos ao longo de décadas. Fundado em 1890, o SAO integra actualmente o Center for Astrophysics, um dos principais centros mundiais de investigação em astrofísica. A premissa é ambiciosa: aproximar o público de fenómenos que, pela sua escala e distância, parecem impossíveis de experimentar em primeira mão. 

A ideia é que, em apenas 40 minutos, experienciemos uma jornada que atravessa o ciclo de vida das estrelas, a formação das galáxias, o funcionamento do Sistema Solar e alguns dos fenómenos mais extremos do universo, até chegar aos misteriosos e insondáveis buracos negros. Mas não se trata apenas de observar. Pela primeira vez, os visitantes podem também interagir directamente com aquilo que os rodeia, explorando objectos, manipulando elementos do cenário e descobrindo diferentes camadas de informação ao longo do percurso.

Smithsonian Viagem Pelo Cosmos: Uma Experiência
Smithsonian Institution & FeverSmithsonian Viagem Pelo Cosmos: Uma Experiência

A dimensão científica é, aliás, uma das características centrais da produção. Em vez de construir um universo puramente imaginado, a equipa partiu de informação e observações astronómicas reais, com supervisão de cientistas do Smithsonian. Entre os elementos que podemos explorar estão os diamantes do exoplaneta 55 Cancri e, também conhecido como Janssen, e pequenas réplicas de alguns dos instrumentos que transformaram a nossa compreensão do cosmos, como os telescópios Hubble e James Webb e o Observatório de Raios X Chandra da NASA, operado pelo próprio SAO.

O Chandra é apenas uma das várias ligações entre a experiência e a investigação que decorre no mundo real. O SAO participa em alguns dos grandes projectos de observação astronómica contemporâneos e gere também o Minor Planet Center, responsável pela recolha e divulgação de observações e órbitas de pequenos corpos do Sistema Solar, incluindo asteróides e cometas.

Convém, no entanto, avisar os mais sensíveis: esta não é uma experiência particularmente discreta para os sentidos. O programa não é recomendável a pessoas que enjoem facilmente ou que sofram de foto-sensibilidade, uma vez que inclui estímulos visuais e sonoros intensos. Durante os 40 minutos de duração, somos convidados a flutuar por impressionantes paisagens tridimensionais e até aproximar-nos de fenómenos cósmicos que, na realidade, se encontram a distâncias impossíveis de percorrer. 

“Smithsonian Viagem Pelo Cosmos”
Smithsonian Institution & Fever“Smithsonian Viagem Pelo Cosmos”

É a nossa primeira experiência imersiva que também é interactiva”, destaca Pedro Borges, site manager da Fever. O responsável revela ainda que a produção nasceu de um concurso lançado pelo próprio SAO, com o objetivo de criar uma experiência cativante que aproximasse a astronomia e a astrofísica do grande público. “Este projecto demonstra como as experiências imersivas podem tornar ideias científicas complexas mais concretas e envolventes”, reforça Randall Smith, director-adjunto para a Ciência no Centro de Astrofísica do SAO. 

“As nossas experiências não são todas produzidas pelo mesmo estúdio. A do Antigo Egipto, por exemplo, esteve a cargo do Excurio. Já esta foi desenvolvida maioritariamente por nós, com a supervisão directa de cientistas do Smithsonian, para garantir a veracidade de tudo o que as pessoas vêem e lêem nesta experiência”, partilha Pedro, que acredita que esta oferta reforça a missão da Fever de democratizar não só o acesso à cultura, como “ao extraordinário”. “Para mim foi amor à primeira vista, porque sou um entusiasta do Espaço. Na verdade, venho da área da engenharia e sempre tive uma paixão por ciência e astronomia”, confessa. “Nós também estamos presentes em Washington, nos EUA, e na Áustria, em Viena, e até agora é a experiência que melhor foi recebida pelo público. Esperamos que o sucesso seja replicável em Lisboa.”

Até já, Terra

Assim que colocamos os óculos de realidade virtual, a transição é imediata. O espaço físico desaparece e somos recebidos por Astro, um guia cósmico vestido com um fato espacial. É também a imagem que passa a representar cada participante no universo virtual, funcionando como uma espécie de avatar durante a viagem. A jornada começa no topo do Observatório Whipple, no Arizona. É a partir daí que abandonamos progressivamente a Terra e iniciamos uma viagem pelo Espaço profundo, acompanhados por alguns dos instrumentos mais poderosos alguma vez construídos para observar o universo. 

Smithsonian Viagem Pelo Cosmos
Smithsonian Institution & FeverSmithsonian Viagem Pelo Cosmos

Do Big Bang à Via Láctea e ao Sistema Solar, a experiência coloca-nos no centro de uma história que é, simultaneamente, a história do universo e a história da nossa tentativa de o compreender. Mas, ao contrário das produções anteriores – “Horizonte de Quéops: Viagem ao Antigo Egito” e “Machu Picchu: Viagem à Cidade Perdida” –, esta proposta não assenta numa narrativa dramatizada com um início, um desenvolvimento e um desfecho claramente definidos. No Egipto e em Machu Picchu, a realidade histórica permitiu construir uma narrativa em torno de pessoas, sociedades e acontecimentos. No Espaço profundo, a escala é outra. Não há civilizações a percorrer, cidades a visitar ou personagens a conhecer. Há, em vez disso, milhares de milhões de estrelas, galáxias, nebulosas e fenómenos que ultrapassam a nossa experiência quotidiana.

Ao longo do percurso, Astro orienta a visita, estabelece o ritmo e fornece o contexto necessário para compreender os diferentes instrumentos e fenómenos científicos. Mas a estrutura permite também momentos de descoberta livre. Podemos olhar em redor, aproximarmo-nos dos objectos e interagir com o ambiente, em vez de seguirmos simplesmente uma sequência de imagens. É aqui que a dimensão interactiva ganha verdadeiro significado. A realidade virtual deixa de funcionar apenas como uma janela para outros lugares e transforma-se num espaço que podemos explorar.

Smithsonian Viagem Pelo Cosmos
Smithsonian Institution & FeverBuraco negro em Smithsonian Viagem Pelo Cosmos

O momento de maior impacto surge quando nos aproximamos da fronteira de um buraco negro supermassivo. A escala é difícil de apreender apenas através da imagem, mas a experiência acrescenta-lhe uma dimensão física: parece-nos que a temperatura desce, que o vento começa a soprar à nossa volta (estaremos debaixo de um ar condicionado ou é de propósito?) e temos de repente a vertiginosa sensação de estarmos a aproximar-nos daquilo que não conseguimos ver.

A iniciativa traz assim a Portugal a chancela da Smithsonian Institution. Fundada em 1846, a instituição norte-americana é o maior complexo de museus, educação e investigação do mundo, somando 21 museus, o National Zoological Park e uma colecção de cerca de 157 milhões de objectos e espécimes. Mas o mais interessante é a forma como uma instituição científica com quase dois séculos de história se adapta a uma linguagem tecnológica contemporânea. Em vez de apresentar a ciência como algo distante, encerrado em laboratórios, observatórios ou páginas de livros, “Smithsonian Viagem Pelo Cosmos” transforma-a num lugar onde podemos entrar.

Smithsonian Viagem Pelo Cosmos
Smithsonian Institution & FeverSmithsonian Viagem Pelo Cosmos

Durante séculos, olhámos para o céu a partir da Terra, tentando interpretar pontos de luz demasiado distantes para alcançar. Construímos telescópios cada vez mais poderosos para ver mais longe e instrumentos cada vez mais sofisticados para compreender o que encontrávamos. Agora, durante 40 minutos, podemos fazer o percurso inverso: deixar de olhar para o universo à distância e entrar, ainda que virtualmente, dentro dele. No fim, quando os óculos regressam ao seu lugar e a sala subterrânea do Terreiro do Paço volta a substituir galáxias, estrelas e nebulosas, a distância entre nós e o cosmos volta a ser a mesma de sempre. Mas talvez não pareça exactamente igual.

“Nós experimentámos o Machu Picchu em Junho e adorámos. Na altura não sabíamos bem ao que vínhamos, então fui super inesperado e ficámos muito surpreendidas, foi muito imersivo. Gostámos muito desta também, mas a outra tinha uma história que seguíamos e esta é mais informativa, com mais texto no ecrã. Mas a nível de realismo esta é muito superior e foi bom aprender coisas novas”, partilha Beatriz Reis, que visitou a exposição como produtora de conteúdos para as suas páginas de Instagram e TikTok (@bia.lisbon.insider). Para a acompanhar, convidou a amiga Raquel Oliveira, que destaca o facto desta experiência ser interactiva. “Eu rodava imensas vezes os painéis dos telescópios”, confessa, entre risos, antes de revelar que adorava viver uma experiência imersiva sobre o Titanic. “Não sei se com ou sem a parte do naufrágio, mas adorava ir ao fundo do mar e fazer uma tour pelo navio.”

Sala Subterrânea da Estação de Metro do Terreiro do Paço. A partir de 17 Set, Qui-Dom vários horários. 14€-25€ (salvo descontos online)

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