[category]
[title]
Villa Dorothéa, do século XIX, viveu nos últimos anos uma lenta degradação. Transformada em unidade hoteleira de luxo, guarda do original o traçado, os nomes das ruas e a vista divina sobre Lisboa.

É um daqueles casos em que a classe social dominante mudou do A para o Z. No pátio alfacinha da Rua das Trinas – criado em 1878, para albergar famílias de pescadores da Madragoa – viveram classes populares, gente que fazia as compras nas mercearias da Lapa, mulheres que tinham os filhos em casa e crianças que jogavam à bola nas ruas estreitas desta nano-aldeia. Os prédios nunca foram muito altos – tapar as vistas nem pensar – e as ruas internas tiveram nomes desde o início, preocupação do proprietário, pai de Dorothéa, que foi pelo simples: da Rua dos Pescadores à Travessa da Caseira.
Os anos passaram, a vila nunca viu obras e envelheceu com remendos aqui e ali, rachas um pouco por todo o lado. E era "há muito tempo uma situação do conhecimento de todos, com as casas em avançado estado de degradação e perigo", dava conta em 2020 o Grupo Municipal do Partido Ecologista Os Verdes numa carta endereçada à Câmara de Lisboa, fazendo ver que vilas e pátios lisboetas eram património a proteger. Para o pátio, houve diferentes planos e inclusive um período de obra embargada, em 2021. Este Verão, a Villa Dorothéa inaugurou como hotel boutique, pondo-se fim àquele ponto em branco entre a Lapa e a Madragoa.
A poucos passos da mítica casa de fados Senhor Vinho e da embaixada francesa (mas também de tascas como O Tachadas e de novas pâtisseries), são agora cinco as casas (com um total de 20 quartos) abertas a viajantes. Recebem sobretudo casais, exploradores solitários, homens e mulheres de negócios, no máximo, casais com filho único. O preço mínimo por noite é de 280 euros (talvez o valor da renda mensal de um dos apartamentos, há 20 anos). Aberto a não-hóspedes há ainda o gastrobar The Secret. Mas já lá iremos.
Jacob Perez Toledano, fundador da chancela hoteleira Tradition Signature (dela fazem parte o Porta de Gaia, no Porto, mas também projectos ainda em desenvolvimento em Marrocos e no Sul da Europa, sempre dentro do universo "boutique"), pegou na Villa Dorothéa com a ideia de "preservar o espírito original da propriedade". "Nunca quisemos criar mais um hotel de luxo desenhado em torno de protocolos e encenação”, explica o empresário, citado no comunicado da nova unidade. Não existe, por isso, um lobby formal de hotel. Quem entra passa o portão, cheira os jasmins, avista os azulejos com os nomes das ruas e ouve a água a cair da fonte, até encontrar a sua porta. Entrando sobe as escadas e chega a casa, onde está um dos maiores atractivos da vila: a vista. Cristo-Rei, Ponte 25 de Abril, o Tejo. Desconfiamos que, do quarto, mesmo sem dizer Lisboa em voz alta, ela entra pela janela.
Se não há como rivalizar com a perspectiva sobre a cidade, o Dorothéa manteve-se sóbrio nos tons. Estamos numa escala de mínimos e no espectro do natural: o castanho claro do pinho no chão, o cinzento dos lavatórios em pedra maciça, o creme do travertino numa ou noutra peça de mobiliário. Seguindo o mesmo comprimento de onda, não há atritos tácteis, tudo é macio – tapetes, toalhas, roupão, roupa de cama –, até os perfumes, evocativos de uma ideia florida, vinda dos canteiros, do champô ou do amaciador para o cabelo (atenção, estamos no campeonato da francesa Fragonard). Todas as setas são claras e apontam para uma ideia de conforto, de estar noutra cidade sentindo-se em casa.
Nesta aldeia de luxo, sem pescadores mas com gambas para petiscar, o que está aberto a todos (e não apenas a hóspedes) é, como dizíamos, o The Secret. O nome não é hipérbole. O pequeno gastrobar (25 lugares), cujo forte são os cocktails (quatro são de autor e dedicados à obra máxima de Camões, Os Lusíadas) e pratos para partilhar, fica nas traseiras da aldeia, se quisermos continuar esta brincadeira de ruas.
Por uma porta discreta, entra-se no ambiente semi-vitoriano, de luzes baixas. Já na esplanada, regressa o cheiro a jasmim. "Cada cocktail tem sempre um show associado, de gelo seco ou tabaco... E também temos uma forte selecção de vinhos, que abrange quase a totalidade das regiões demarcadas de Portugal", dá conta o libanês Ezzat Ellaz, consultor do projecto. Também foi Ellaz (que fala num português fluente), claro, que a par dos vinhos portugueses, franceses, italianos e alemães incluiu um vinho do Líbano na lista. "Vamos acrescentando vinhos todas as semanas", afirma, sublinhando a ideia de um bar dinâmico, com afinações, inovações, inclusive na oferta de pratos, que se querem sazonais e sintonizados com a oferta nacional.
Mas a métrica, essa, não muda. "O nosso grande foco são os produtos de máxima qualidade." Di-lo o carpaccio de gamba-vermelha (24€), ex-libris da casa no Verão, provado pela Time Out ao som de "Breathe", hit do duo francês Télépopmusik, que nos transporta para o início dos anos 2000, quando a vila era outra. Provámos ainda o tataki de atum com molho de champagne (18€), acompanhado de folhas de arroz, e demos conta do prato mais quente do menu, as bochechas de porco preto (17€), da tábua mista, do bife tártaro (18€) ou da tempura de cogumelos enoki (12€), tudo assinatura de Margarida Dias, que tem no currículo passagens pelo JNcQUOI, LOCO, MasterChef Portugal e Bicho Mau. Já o pão vem da padaria artesanal Pão do Pastor e o café da torrefação Filtrô, ambos vizinhos.
Este Verão, ainda, deverá chegar ao The Secret a opção de menu executivo, pensando-se nas embaixadas em volta, mas não só, como um dos públicos-alvos do gastrobar. Nos planos estão também as Sunday Suppers, almoços de domingo para hóspedes e residentes, "em torno de longas mesas partilhadas". Querem que seja mais ou menos segredo, mas não tanto assim.
📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn
Discover Time Out original video