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Terreno é da Escola Gil Vicente mas Exército exige acesso para fazer obra em parcela vizinha. Projecto funcionou dois anos como teste para algo maior: criar rede de alimentos e emprego agrícola na cidade.

Já eram para cá não estar, até porque, um ano depois de terem começado a preparar o terreno nos fundos da Escola Básica e Secundária Gil Vicente, para ali fazer nascer uma horta, chegou o primeiro aviso do Exército Português. Contado por Sylvain Papyon, mentor, com Rodrigo Borralho, do projecto Cultiva (ambos da cooperativa Rizoma), era qualquer coisa como isto: "Até ao final do mês, têm de sair". "A minha primeira reacção foi: a escola cedeu-nos o terreno do vizinho?", relata à Time Out. Não parece ser o caso. No Registo Predial (2011), a Parque Escolar consta como proprietária do terreno. Mas, em 1965, um documento entregue pelo Exército referia a autorização para utilizar a dita parcela, sob o fim de realização de obras. Quando? Nunca um prazo foi estipulado e o tempo passou. "Quando contactámos a escola para pedir a cedência do terreno para um projecto Bip/Zip eles acederam de imediato. Foi tudo normal", declara o responsável, recuando a 2024. Foi, então, assinado o devido protocolo, renovado no ano seguinte, pelo facto de o Cultiva – o único projecto de agricultura biológica certificada em Lisboa – ter sido pela segunda vez apoiado pela Câmara.
Ao lado do terreno – até há dois anos baldio e onde hoje crescem beringelas, quiabos, tomates, couves e quejandos – fica a Messe de Santa Clara (edifício número 133 e área exterior adjacente) e é para reabilitá-la que o Exército alega precisar de instalar o estaleiro em cima da horta, destruindo-a. "Negociámos com eles, eles vieram até aqui. Mas a proposta era que ficássemos apenas com uma pequena faixa de terreno, e sem a estufa", expõe Sylvain Papyon, apontando para o que restaria da horta. Mesmo que tivessem sido condescendentes, sendo financiados pelo Bip/Zip (programa camarário de apoio ao desenvolvimento social e comunitário), não poderiam abandonar o compromisso com a Câmara de Lisboa a meio, sob pena de terem de devolver o montante investido pela Câmara. Por outro lado, havia o compromisso com a população – receberam seis mil pessoas num ano, entre visitas espontâneas e actividades programadas em conjunto (e em circuito) com o projecto Brincapé e a Agrofloresta da Gil Vicente – e com a mercearia da Rizoma, para onde é escoada a produção da horta, de à volta de 60 quilogramas por semana. Para não falar dos voluntários regulares do projecto, perto de 40.
Em 2025, o colectivo decidiu recorrer aos serviços do advogado Ricardo Sá Fernandes, num processo através do qual conseguiram prolongar o projecto por mais um ano. Mas agora que a execução do Bip/Zip está para terminar, o Exército pôs em cima da mesa um novo prazo para o fim da horta: 12 de Setembro. "Em Abril deste ano, a direcção da escola enviou-nos um e-mail a dizer que não queria renovar o acordo connosco e que tínhamos de sair a 30 Junho. Mais uma vez, tivemos de responder que tínhamos um projecto em execução com financiamento público e que não podíamos ser penalizados. Tínhamos de ficar até Setembro... Além de que já tínhamos uma série de actividades agendadas", explica o responsável.
O acordo foi fechado, mas, "quando as pessoas souberam, ficaram escandalizadas e quiseram mobilizar-se", conta Sylvain Papyon. Mexeram-se colectivos mas também cidadãos que conheciam o projecto ou faziam o circuito Brincapé-Agrofloresta-Cultiva aos sábados. A 21 de Julho, foi lançada uma petição, entretanto assinada por mais de duas mil pessoas. Pedem a preservação do "valioso impacto social, educativo, ambiental e comunitário" do projecto no território e defendem que "o Cultiva não é apenas uma horta urbana escolar". "Trata-se de um espaço comunitário de interesse público que, em pleno centro da capital portuguesa, tem aproximado pessoas da natureza e da produção sustentável de alimentos", pode ler-se no documento.
À chegada do Cultiva ao bairro da Graça, o horizonte ideal do grupo perspectivava-se pelo menos em três anos: o primeiro para "montar" a horta, o segundo para testar actividades (de oficinas a refeições partilhadas) e o terceiro para implementar cursos de agricultura biológica profissional. É que o objectivo sempre foi maior do que os 600 metros quadrados da horta. "Havendo adesão da comunidade, o ideal era que este projecto fosse para sempre", reconhece Sylvain. O Cultiva serviria como projecto-piloto para provar que é possível ter uma rede agrícola biológica na cidade, capaz de gerar um novo sector económico, por um lado, e uma oferta alimentar diferenciada, a menor custo e com zero pegada ecológica (a venda aconteceria em circuitos curtos, através de associações parceiras). Em 15 meses, produziram-se 2,5 toneladas de produtos, uma quantidade possível pelo regime de biointensividade adoptado (produzir muito em pouca área). "Para pessoas com poucas qualificações, só o turismo é uma saída, neste momento, em Lisboa. E nós queríamos criar uma alternativa a isso", explica o fundador da Rizoma, que também decidiu, há alguns anos, tornar-se "agricultor na cidade".
Antevendo o fim da horta da Graça, a Rizoma começou a procurar alternativas. Abriram-se as portas da Escola Secundária de Camões, na freguesia de Arroios (o protocolo com a Junta de Freguesia já foi assinado), onde deverá nascer em breve uma horta com os mesmos princípios mas praticamente o dobro da dimensão. Se o 12 de Setembro for realmente o último dia do pequeno oásis alimentar da Gil Vicente, haverá festa, bandas, comida e vizinhança, prometem os agricultores.
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