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O Café Central é "sobre lutar pelos bairros populares"

O espaço da Graça abriu em Abril, sob a ideia de acrescentar algo à comunidade e "resistir à gentrificação". Não demoraram a vir elogios e críticas. Fomos perguntar à equipa como se cria um café de bairro.

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
Joana Mortágua no Café Central
Rita Chantre | Joana Mortágua no Café Central
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Abrir um café não estava nos planos, mas o antigo Camones, no Bairro da Estrela d'Ouro, Graça, fechou e o espaço ficou vazio. "Quisemos arranjar um projecto para ele", explica Joana Mortágua, que com Victor Ribeiro, Sam Santos e Leonor Godinho (na cozinha), montou o Café Central. Queriam que este fosse um lugar de encontro, para comer e beber, com alguma programação cultural, aberto das 17.00 à meia-noite, fazendo a "pré-noite" de outros "espaços que resistem" na cidade.

Numa das primeiras entrevistas dada pela equipa do Café Central, ao jornal Público, a ex-deputada do Bloco de Esquerda explicou que nem o senhorio nem os antigos gerentes queriam que o local "se transformasse num sítio gentrificado", por isso, acolheram bem a proposta de abrir um café de bairro. “Todos os sítios tradicionais e espaços culturais estão a fechar e queremos contrariar isso”, acrescentou Victor Ribeiro. Em cerca de um mês, aconteceram concertos, um baile de forró, sessões de fado ou um workshop de cante alentejano. Vieram os elogios, mas também críticas: aos preços praticados, às bebidas com nomes estrangeiros, ao facto de o menu ser fora do clássico tradicional, conceito ao qual poderia induzir o nome que a equipa escolheu para o espaço.

A Time Out foi à Graça conhecer o Café Central, perguntar como planeiam resistir à gentrificação e criar um café de bairro numa zona da cidade que tem assistido ao fecho de vários negócios, à invasão de tuk-tuks e a projectos de hotéis e alojamentos de luxo. Porque ser café de bairro também é sobre acessibilidade, falámos de alguns preços e ficam aqui outros: imperial a 2€ (nos dias de abertura era a 1,50€), copo de vinho da casa a 3€, cerveja sem álcool a 3€, café a 1€, mojito 8€ ou moscow mule a 10€; nas comidas, sandes de cachaço a 12€, pica-pau de língua de vaca com milho frito a 14€ ou pão pita com tofu fumado a 11€. Vamos à conversa, ponto por ponto:

  • Resistir à gentrificação

Decidiram abrir um espaço na Graça, que está a viver uma transformação profunda e tem como reacção um movimento organizado de cidadãos contra a gentrificação. Isso teve peso — emocional e politico — na vossa decisão?

Joana Mortágua (JM) - Nós achamos que temos uma responsabilidade a partir do momento em que abrimos um espaço aqui, que é não contribuir para essa lógica de descaracterizar completamente os bairros, para ter uma espécie de cidade paralela que só funciona, pensa e tenta falar com os turistas. Não vamos ter como objectivo chamar turistas, que é muito o que tem acontecido. Quase todos os sítios que abrem são de brunch, cocktails e não sei o quê. Nada contra e isto não tem nada a ver com as referências de um espaço serem ou não portuguesas. Aliás, há restaurantes muito típicos que só conseguem sobreviver à conta de turistas… Tem a ver com a nossa opção de tentar manter uma programação e um diálogo que não seja só virado para a economia do turismo.

O que é que define um "sítio gentrificado" e o que se pode fazer para não ir por aí?

JA - Não sei o que define um sítio… [pausa] Ou seja, não acredito que haja um restaurante que seja gentrificado por si só, face à gentrificação de um bairro. O que eu acho é que haver pontos de referência, nestes bairros, que procurem uma permanência no tempo, que procurem contacto com a população local e que não tenham como objectivo primordial a economia do turismo é bom. Não temos o poder de impedir a gentrificação. Não decidimos quantos Airbnb e quantos hotéis abrem num bairro. O que decidimos é se queremos ser ou não um sítio confortável para quem vive cá. É isso que estamos a tentar fazer. 

Victor Ribeiro (VR) - É olhar ao que vamos fazer e para quem vamos fazer. E, nisso, também vamos tentar ser acessíveis, que as pessoas tenham condições para vir, beber e comer. Outra coisa é conseguirmos atrair pessoas pela nossa produção cultural, sendo que nunca cobramos à porta. Tudo isto também tem a ver com manter coisas que a gente tem perdido. Muitos dos espaços novos que têm aberto não estão a fazer esse trabalho. Aqui, tivemos fado, um workshop de cante alentejano, um baile de forró, porque a comunidade brasileira aqui também é muito grande. Acho que tudo isso afasta um pouco essa gentrificação.

Café Central
Rita ChantreCafé Central
  • O menu

Indo ao menu e ao conceito de típico. Os caracóis [introduzidos recentemente, como experiência, com a dose pequena a 6€ e a grande a 10€] serão do mais típico que estão a oferecer, porque o menu não é o clássico tradicional.

JM - Essa é outra das coisas que acho piada. Houve quem apontasse que somos contra a gentrificação, mas temos coisas “estrangeiras”. Claro que temos. O propósito deste sítio é ser um encontro de tudo. 

"Não sei o que há de pouco típico e português em pica-pau e em língua de vaca"

A minha questão não é sobre as referências estrangeiras, mas sobre existir uma certa modernidade no menu.

JM - Claro que há. Nós não somos um restaurante típico nem tradicional. E, lá está, há muito restaurante típico e tradicional que é uma vitrine para turistas. Da mesma forma que na oferta cultural temos fado, cante, musica brasileira e podemos ter outras coisas, achamos que também o menu devia reflectir um bocadinho essas referências, sem perder o pé. A Leonor Godinho fez o menu com essa orientação e as sugestões têm corrido muito bem. Só para dar uma ideia: não sei o que há de pouco típico e português em pica-pau e em língua de vaca. E com milho frito, que há-de ser típico, mas na Madeira. A sandes de cachaço fui eu que meti na cabeça que queria uma coisa com carne de porco, muito tempo no forno, manteiga de cor — que vem do talho do Alvito — e maçã. Sobre os pleurotus fritos ou pita de tofu: temos muitos amigos vegetarianos e essa era uma coisa sobre a qual queríamos ter muita atenção. Não queremos ser um sítio onde os vegetarianos comem acompanhamentos. Depois, há salada de polvo, salada de bacalhau com grau, escabeche de mexilhão. Também há beringela em escabeche de miso e aí a Leonor já está a divertir-se um bocadinho. E há dadinhos de tapioca também porque queríamos muito ter alguma referência brasileira.

Dadinhos de tapioca
Rita ChantreDadinhos de tapioca

Uma das características do bairro é ter uma comunidade muito envelhecida. O menu tem isso em conta?

JM - As nossas vizinhas, e temos um grupo que vem cá com frequência, gostam bastante. E gostam de provar. Acho que este é um sítio onde as pessoas podem provar coisas que não conhecem sem perder as referências. Mas ainda precisamos de um bocadinho. Este sítio foi um bar durante muito tempo, e já foi discoteca. Acho que as pessoas do bairro vão demorar um bocadinho a habituar-se à nova dinâmica do espaço. 

Tirando a chamuça, o croquete, o pastel de bacalhau ou as azeitonas, não há nada para comer abaixo de 4€, o que suscitou críticas. Como é que se balizaram no que toca aos preços?

JM - Como estamos a funcionar nestes horários, estamos na base dos petiscos e jantares partilhados. Ao não abrirmos durante o dia, não temos o típico menu de café, com torradas, alguma pastelaria, coisas assim, que normalmente são mais baratas. Tudo isto é cozinha confeccionada, com qualidade, e reflecte isso. A nossa preocupação é cobrar preços justos. Não são preços a pensar: "isto é para turistas, eles pagam". Também não são preços que não permitam pagar salários razoáveis a quem trabalha aqui. Mas é tudo um teste, vamos ajustando. Também não me serve de nada ter um sítio muito barato e depois não conseguir manter a porta aberta. Além disso, isto é um sitio com programação diferenciada, que não cobra um euro à porta para nada e que paga cachets aos artistas. Tudo isso está na balança. 

  • Fazer bairro

Além da turistificação e gentrificação, há talvez dois fenómenos a contribuir para as pessoas se encontrarem menos: as redes sociais e a pandemia da Covid-19, que mudou estilos de vida. Pensaram também nisso, numa necessidade maior de espaços para nos encontrarmos? 

JM - Lançámo-nos um bocado de cabeça para isto, sem pensar muito, na verdade. Mas um dos comentários que se faz na minha geração, que é uma geração que cresceu no Bairro Alto — o Agito era a minha segunda casa — e que tinha referências de lugares onde as pessoas se encontravam... Bom, isso desapareceu. E uma coisa que muita gente diz é: "Nós já não temos onde ir, onde estejamos confortáveis, onde nos reconheçamos no ambiente." No Bairro Alto isso é evidente. Há sítios que ficaram mas a estrutura mudou muito. E é normal que vá mudando, as cidades mudam. Por isso, sim, também era [para] responder a isso. Nós somos um sítio de encontro, que às vezes passa por momentos culturais. Já reparámos que a maioria dos nossos clientes quer vir cá comer, beber um copo e, num dia especial, ter uma coisa que lhe interesse do ponto de vista cultural. Acho que é isso que dá graça ao espaço e que torna a coisa um bocadinho inesperada. 

A equipa
Rita ChantreA equipa

VR - Tudo coincide com o fecho de vários espaços também. Os lugares onde eu gostava de ir foram fechando. Já não vou ao Cais do Sodré, por exemplo. [A ideia é] haver um lugar onde se possa encontrar um ambiente conhecido, conviver ou mesmo ir beber uma cerveja sozinho e ler alguma coisa.

Há algum bairro onde continuem a sair?

JM - Acho que houve espaços que foram respondendo exactamente ao mesmo que nós. A Casa Capitão é um exemplo óbvio de um sítio que não quer ser uma discoteca de despedidas de solteiros de ingleses. Nada contra, mas o público deles é a comunidade que vive, trabalha, conhece e interessa-se pela programação. A Musa também faz isso, a Oitava Colina também, a Fábrica do Braço de Prata, o Damas, o Bota. Há espaços que resistem. E nós queremos ser um "pré-essa noite".

Atomizámo-nos e os lugares de encontro também. Já não falamos de zonas ou bairros, mas de espaços na cidade. 

VR - O Beato/Marvila está a ganhar um espaço assim, com muitas coisas em volta. 

JM - A cidade mudou muito e as regras da cidade também, do álcool ao ruído. A forma como as pessoas consomem a noite também mudou. Agora, há esta rede de sítios que as pessoas procuram para fugir ao ambiente de Rua da Oura. O importante é a cidade não ser só um parque de diversões e acho que vai haver cada vez mais resistência a isso, sobretudo neste tipo de bairros, que olham para si próprios e vêem uma paisagem de tuk-tuks. Agora, depende pouco de nós. Eu posso querer sustentar o negócio com locais mas se não param de abrir hotéis... Foi o que aconteceu a Alfama, um bairro aparentemente igual, mas do ponto de vista social completamente destruído.

Abrir um café foi uma decisão política?

JM - É um posicionamento sobre a cidade, sobre a economia da cidade, e sobre não desistir e lutar pelos bairros populares.  

Rua Josefa Maria, 4B (Graça). Qui-Ter 17.00-00.00 

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