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A idade dos proprietários, o afastamento da população do centro e os negócios do imobiliário têm ditado o fecho de muitas pastelarias tradicionais em Lisboa. “O desenlaçar das redes é terrível.”

É a última semana da Padaria da Patriarcal (ou de São Roque), depois de mais de 100 anos entre o Bairro Alto e o Príncipe Real (no início do século XX, funcionou como Padaria Italiana). Pede-se meia torrada e a funcionária, embora fraca na simpatia, fá-la sem falhas, como é habitual: muita manteiga, dos dois lados de uma fatia alta, de quase três centímetros, que é absorvida devagar até ao interior. Na montra, manhã tardia, ainda há meia dúzia de bolos e, claro, nos cestos atrás do balcão de mármore, o pão.
“Sábado [17 de Janeiro] é o nosso último dia”, diz à Time Out a funcionária da casa onde trabalha há mais de 40 anos, cingindo-se a três palavras de resignação: “É a vida.” Ainda não é certo o que acontecerá no local: se passará a ser o lobby de um hotel, o seu bar ou o restaurante. Dos andares superiores desaparecerá a Pensão Londres, dando lugar ao novo alojamento turístico da cidade – de acordo com as contas da Câmara Municipal de Lisboa (CML), 2026 é o ano de abertura de 12 hotéis, da Baixa ao Campo Pequeno.
Da São Roque em direcção ao Rato, não é preciso caminhar muito para encontrar outras pastelarias tradicionais recentemente encerradas: primeiro, a Doce Real, conhecida pelas empadas, pelo atendimento familiar e pela decoração do interior, com pinturas em azulejo e em vidro, as pequenas mesas em mármore rosa e um recanto escondido da aceleração da cidade; depois, a Cister, que funcionou ininterruptamente desde 1838 (primeiro sob a gerência dos monges da Ordem de Cister) e que tinha como cartão-de-visita o facto de ter sido pouso regular do escritor Eça de Queiroz.
As razões que têm levado ao desaparecimento de pastelarias tradicionais do mapa lisboeta são muitas, sendo a falta de clientes a menos provável e apontada pelas pessoas contactadas pela Time Out. No caso da Padaria de São Roque, o gerente, Manuel Laranjeira Torres, de 92 anos, viu-se obrigado a ceder nas negociações com a empresa que ali irá instalar o hotel, relatou ao jornal Público. Na Doce Real terá pesado a idade avançada do proprietário, de acordo com os relatos do comércio local vizinho. Na Cister, pesem embora os rumores da compra do prédio por um investidor, os motivos não foram divulgados.
Mas o fecho de pastelarias não se restringe ao centro histórico. Também no ano passado, perderam-se pontos de encontro de bairro como a Mujique, na Rua Luciano Cordeiro (o prédio foi vendido, alegadamente para habitação), a Vitória, no Largo da Estefânia (entretanto transformada num Burger King), ou a Centro Ideal da Graça, na Graça (onde vão nascer apartamentos de luxo, com piscina e ginásio privados). “Veja-se a Avenida de Roma, que é um verdadeiro case study. Era uma das principais vias de comércio de Lisboa e está uma lástima”, chama a atenção Paulo Ferrero, da associação Fórum Cidadania Lx, acrescentando que não são apenas as pastelarias a fechar. “Foram os cinemas, as lojas de bairro, os talhos”, enumera. Muitos espaços passaram para o sector dos serviços, como bancos e seguradoras, e “agora são lojas de souvenirs”, ironiza o responsável, alertando para a ausência de fiscalização do fenómeno que descaracterizou grande parte da Baixa e não só, nos últimos anos.
O fenómeno pode não ser de agora (ler "Desaparecidas do mapa", mais abaixo), mas o ritmo parece estar a acelerar, o que mobilizou a associação de moradores Vizinhos em Lisboa a criar o projecto “O Último Bolo de Arroz de Lisboa”, um mapa dinâmico das pastelarias vivas e desaparecidas da cidade, com fotografias e informações sobre cada uma. “Muitas vezes faltam dados para que se possam tomar decisões políticas, que às vezes são tomadas com base em percepções. E saber onde estão os cafés tradicionais da cidade, onde estão a fechar e porquê é o nosso objectivo”, explica à Time Out Rui Martins, da associação. Sem critérios rígidos, entre pastelarias, cafés e restaurantes tradicionais, foram documentados 221 estabelecimentos até ao momento de consulta da Time Out (a 20 de Janeiro).
A partir dos dados recolhidos, o colectivo planeia elaborar e enviar um relatório com conclusões e sugestões à CML, ainda em Fevereiro. “É preciso proteger o comércio local”, defende Rui Martins, lançando ideias como a expansão ou adaptação do programa Lojas com História, que impede, ao abrigo da legislação, os proprietários de aumentarem o valor da renda de espaços com interesse histórico e comercial para a cidade até 2027, mas que nem sempre se tem mostrado suficiente. Outra sugestão é modificar a “abordagem fiscal” aos proprietários. “Fizemos um levantamento do número de lojas vazias no Areeiro e encontrámos 300. E perguntámos: quanto paga um proprietário por ter uma loja vazia? Já mantê-la aberta é bem diferente”, exemplifica Rui Martins.
Para a associação, as pastelarias tradicionais estão a fechar embaladas pela turistificação, pelo aumento dos preços da matéria-prima, pelo afastamento da população dos bairros mais centrais, pelo aumento das rendas, pelo licenciamento zero (que permite a alteração de uso de um espaço comercial sem necessidade de licenciamento prévio) e pela falta de protecção da parte do poder público. “Esta é uma questão de interesse nacional”, acredita Rui Martins, criticando uma Lisboa em que há “ruas inteiras de alojamentos locais” e uma Baixa de "lojas de pastéis de nata e fast food".
Paulo Ferrero, do Fórum Cidadania Lx, fala ainda do facto de o Plano Director Municipal não contemplar como deveria o comércio no planeamento da cidade. No caso da Mujique, da Centro Ideal da Graça e da Padaria da Patriarcal, por exemplo, pastelarias que faziam parte do tecido social lisboeta transformam-se em domínios privados restritos, frequentados por "pessoas de passagem" e de um determinado escalão sócio-económico, alterando as dinâmicas da cidade.
Atenta às dinâmicas de Lisboa, em Novembro, a associação teve conhecimento do possível fecho da Padaria de São Roque, no Príncipe Real, e pediu ao instituto público Património Cultural que abrisse um processo de classificação do espaço (como forma de salvar, pelo menos, o património material), tendo em conta o valor arquitectónico e simbólico “de excepção" desta ex-Loja com História. A sua "preservação e valorização são indispensáveis à memória colectiva da cidade”, defendem. Mas, de resto, o que há a fazer?
“Sou muito pessimista quanto a este tema”, responde Paulo Ferrero. Mais do que as leis escritas, afirma o responsável, o que está a regular a vida comercial da cidade são “a lei da vida e a lei do mercado”, isto é, a idade avançada dos proprietários, que não têm em muitos casos quem os queira substituir num sector tão exigente, e as movimentações do mercado imobiliário. Também é certo para Paulo Ferrero que muitas pastelarias tradicionais entraram numa recta descendente no que toca à qualidade. “Há uns 15 anos que a Cister não era boa e o mesmo aconteceu a muitas outras pastelarias. No controlo e certificação da qualidade, acho que a AHRESP [Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal] deveria ter algo a dizer”, sugere.
Ao mesmo tempo, a tipologia da procura foi mudando. “Se fecha uma pastelaria tradicional e abre outra com bolos de massa pré-cozida, aquilo a que eu chamo de ‘sintéticos’, as pessoas vão e gostam. A procura é totalmente diferente. Já ninguém vai de propósito a um sítio destes para comer o bolo que é a especialidade da casa”, relata.
A AHRESP foi contada pela Time Out para este artigo, mas não indicou disponibilidade para uma entrevista. Ao jornal Público declarou recentemente reconhecer a onda de “encerramentos silenciosos” no sector, problema “que se tem agravado”. “São fechos que, muitas vezes, não têm que ver com insolvências e, por isso, não entram nos números oficiais”, afirmou a secretária-geral Ana Jacinto, referindo-se a “dificuldades resultantes de vários factores”, um dos quais a exigência do próprio sector. “É uma actividade exigente para quem trabalha, obrigando, muitas vezes, a que se esteja ao serviço quando as outras pessoas estão a descansar”, sublinhou, defendendo melhores remunerações e medidas de incentivo fiscal. No mesmo artigo, a presidente da União de Associações do Comércio e Serviços (UACS), Carla Salsinha, referiu a “grande mudança nos hábitos dos consumidores, sobretudo a partir da pandemia". "As pessoas habituaram-se a comer em casa e a fazer compras online”, retirando-se dos espaços físicos.
A maior parte dos estabelecimentos referidos neste artigo, no entanto, contou durante anos com uma clientela fiel, atraída pelo registo familiar e pela relação qualidade-preço, tanto na pastelaria como nas diárias. “A Centro Ideal da Graça não é apenas uma pastelaria centenária. É uma excelente pastelaria, com um excelente serviço e um ponto de encontro da comunidade. Nada a pode substituir”, escrevia o ex-jornalista José Vítor Malheiros nas redes sociais a propósito do desaparecimento da concorrida pastelaria da Graça.
A escassos metros da Ideal, a Cabreira, fundada em 1977, traça um retrato limpo do dia-a-dia: “Quebras no negócio? Antes pelo contrário, está sempre a melhorar”, partilha com a Time Out Carlos Barata, um dos gerentes. À hora do almoço, mal se consegue entrar na requisitada pastelaria, onde a oferta é extensa e os preços parecem ter resistido a sucessivas inflações. O responsável sabe, no entanto, que poderá não ser assim para sempre. “Não estamos livres que nos aconteça o mesmo que aconteceu aos nossos vizinhos”, reconhece, ciente do processo de transformação pelo qual está a passar a zona, com a criação de um hotel de luxo no antigo quartel ou o fecho recente de várias lojas de bairro.
“Numa cidade com o espaço público tão degradado como Lisboa, os cafés são espaços de encontro, onde as pessoas podem estar", alerta Aquilino Machado, geógrafo com interesse pela história e cartografia dos cafés lisboetas, sobretudo os associados à vida criativa e literária em Alvalade, onde vive. Numa investigação na qual participou em 2016, foram contabilizados 14 cafés, pastelarias e snack-bares tradicionais no bairro (em 1967, eram 34), entre os quais a Luanda, o Vá-Vá (agora uma cervejaria), a Biarritz ou a Suprema. Até 2026, nas contas da Time Out, terão fechado pelo menos seis, algumas das quais negócios de cariz familiar substituídos pela lógica do franchising ou por grandes grupos, redundando naquilo que os moradores têm classificado como uma descaracterização da zona, em particular da Avenida da Igreja, onde recentemente fecharam a Biarritz (1962-2018) ou a Helsínquia (década de 1960-2025).
“A transformação tem tido maior expressão no centro da cidade, mas há um efeito de contágio nos bairros populares, quase como réplicas de um sismo. Tudo isso leva a um desaparecimento da memória, até porque, hoje, o ciclo dos espaços comerciais é muito mais curto”, descreve o geógrafo. Como consequência, criam-se “relações muito pouco concretas com o território” e com a própria comunidade, resume.
“Muito do ritmo que tínhamos enquanto sociedade há uns anos acontecia nos cafés. E muitas vezes nem eram cafés interessantes do ponto de vista arquitectónico mas eram importantes para o encontro, para a discussão. Desaparecendo isso, o desenlaçar das redes de sociabilidade é terrível”, diagnostica Aquilino Machado, lembrando o tipo de lugares que escolhiam escritores como José Cardoso Pires ou cineastas como Paulo Rocha para pensar e criar. Mas também o cidadão comum. “Quantas pessoas não víamos antes a estudar nos cafés? Era um hábito. Agora não se pode estar a ocupar uma mesa”, concorda Paulo Ferrero, do Fórum Cidadania Lx.
Lisboa deveria ser “pensada de outra forma”, com uma “estratégia que eliminasse desigualdades em vez de as acentuar", remata o geógrafo.
Na Mujique, até há bem pouco tempo, falava-se mais do que se escrevia. O fabrico próprio era um dos atractivos, mas havia outros, com o facto de o senhor Joaquim e a dona Natália conhecerem os clientes pelos nomes. A 31 de Dezembro, o último dia de funcionamento da casa, houve quem chorasse com o fecho. “Tem algum sentido que, ao fim de 30 e tal anos a servir o bairro, me tirem dali?”, questiona, indignado, Manuel Lage, antigo gerente, que se viu obrigado a ceder à pressão imobiliária e a abandonar o projecto.
Sentidos à parte, o desfecho adveio da compra do prédio por investidores estrangeiros, alegadamente para ali fazerem habitação. "Não tive hipótese. Ainda fiz uma proposta para ficar com a loja, toda a gente me pedia, mas eles queriam vender o edifício todo", por 3,5 milhões de euros, de acordo com o também responsável pela pastelaria Az de Comer, em Campo de Ourique, onde recebe a Time Out. "Aquela zona ficou sem uma única pastelaria tradicional de qualidade", lamenta. Do mesmo edifício terá também de sair a loja-atelier FuFu, aberta em 2023.
Em reacção ao fecho da Mujique, propagaram-se os comentários de decepção. "Vamos ficar muito mais pobres", comentou a actriz e apresentadora Joana Barrios, nas redes sociais. “Aquela que foi durante muitos anos uma espécie de extensão de casa e lugar de encontro da vizinhança, a pastelaria que também servia almoços, era referência quando se queria precisar a zona da rua. Vai fazer falta", partilhou João Torres, produtor na área do cinema.
Cinco funcionários da Mujique ficaram sem emprego, três foram integrados noutro estabelecimento gerido por Manuel Lage, que já esteve à frente de perto de dez pastelarias em Lisboa e que começou o percurso a servir cafés aos 17 anos no Gigante, na Rua Ferreira Borges, acabado de chegar de Trás-os-Montes. "Se os produtos forem de qualidade, como a gente sempre fez, as pessoas vão. Nunca tivemos problemas com o negócio. Não é aí que está o problema, só que é preciso o poder público defender estes espaços", declara o empresário de 66 anos, reconhecendo que, quando se reformar, não terá descendência para assegurar os negócios. “E talvez estejam a pensar bem”, admite.
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