Notícias

“Vende-se para hotel”. Da Graça ao Desterro, há dezenas de cartazes contra o rumo de Lisboa

Em vários edifícios entaipados ou à espera de obras de reconversão em hotel, foram colados cartazes imitando anúncios de uma agência imobiliária. Neles, reclama-se falta de espaço para o uso colectivo.

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
Palácio do Patriarcado, Campo Mártires da Pátria
DR | Palácio do Patriarcado, Campo Mártires da Pátria
Publicidade

"Vende-se exclusivamente para hotel. Não aceitamos associações recreativas, culturais e desportivas de uso colectivo." É esta uma das mensagens que se pode ler nos cartazes recentemente colados em edifícios vazios e expectantes, em várias zonas da cidade, de Picoas ao Campo Mártires da Pátria, passando pela Estefânia, Graça ou Intendente. Do outro lado, sobre um fundo vermelho, surgem, de forma resumida, os pontos do caderno reivindicativo apresentado a semana passada por algumas colectividades de Lisboa, exigindo o "fim dos despejos", a "cedência de património público" para associações, "proteger o bem comum" e o "fim da perseguição".  

Já um pouco rasgados, nesta manhã de terça-feira, 14 de Outubro, os cartazes colados sobre a extinta pastelaria Centro Ideal da Graça faziam jus à situação que ali se vive, enquanto as últimas máquinas eram retiradas do interior do local. O estabelecimento, que serviu os fregueses da Graça durante mais de cem anos (mesmo antes de ser pastelaria), fechou portas a 30 de Setembro, na sequência da compra do edifício por um fundo de investimento que pretende transformá-lo em hotel. 1377 pessoas chegaram a assinar uma petição para preservar este café de bairro, ponto de encontro de muitos e paragem obrigatória para os amantes de húngaros, torradas, galões e imperiais.

Centro Ideal da Graça, em 2019
DRCentro Ideal da Graça, em 2019

Na petição pode ler-se que os compradores propuseram "condições impossíveis de suportar para a continuidade do negócio, levando os seus proprietários a anunciar o encerramento do espaço no final de Setembro de 2025". À Time Out, na altura, os proprietários não quiseram prestar declarações, por ainda vislumbrarem alguma incerteza na situação. Mas a pastelaria, por fim, fechou portas e o edifício já está coberto por panos de obra.

Antigo Maracanã, Picoas/Saldanha
DRAntigo Maracanã, Picoas/Saldanha

Também no Palácio do Patriarcado, no Campo dos Mártires da Pátria, freguesia de Arroios, avistam-se os cartazes ao estilo de agência imobiliária. O edifício, comprado em 2007 por uma empresa espanhola para ser transformado em hotel de luxo, está abandonado há vários anos. Cenário semelhante pode descrever-se em relação ao antigo Hospital do Desterro, no Intendente, vendido em 2022 pelo Estado à empresa Mainside (proprietária da LxFactory) e que dois anos depois viu a alteração de projecto, englobando a construção de hotel, ser aprovada pela Câmara Municipal de Lisboa (CML)

Antigo Hospital do Desterro, Intendente
DR via Fórum Cidadania LxAntigo Hospital do Desterro, Intendente

Entre 2022 e 2025, o executivo camarário terá aprovado o licenciamento de mais de 70 hotéis na cidade, de acordo com João Ferreira, candidato pela CDU à presidência da CML nas autárquicas do último domingo, em que Carlos Moedas voltou a ser eleito presidente.

À Time Out a associação Sirigaita referiu por e-mail que "a publicação do caderno reivindicativo é um passo por parte das colectividades em luta, e outras acções seguirão". 

Notícia actualizada às 17.00 do dia 15 de Outubro, com a declaração da Sirigaita.

🗞️ Mais notícias: fique a par das novidades com a Time Out

📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn

Últimas notícias
    Publicidade