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A elevada média de idade dos artistas em cartaz criou uma falsa expectativa, a de que o terceiro dia do festival iria decorrer sem sobressalto. Mas foram muitos os grandes concertos no Parque Papa Francisco. Velhos são os trapos.

Ao início da tarde deste sábado, 27 de Junho, terceiro dia de Rock in Rio Lisboa, tínhamos dois títulos para este artigos: “4 Non Blondes vão viver para sempre” e “Linda Perry, uma deusa do rock mais sedutora do que nunca”. O primeiro era uma referência directa a “Live Forever”, um dos novos temas que a banda, que se reuniu no ano passado para dar concertos e – excitação absoluta – gravar o sucessor de Bigger, Better, Faster, More! (1992). O segundo vem de, um, termos olhos na cara e, dois, de um gracejo meteorológico da própria Perry a meio do concerto: “Are you guys hot? Are we hotter?” A resposta foi sim à primeira pergunta e SIM à segunda. A resposta colectiva. Estamos juntos, Rock in Rio.
O problema destes título é que ainda íamos no início e o festival, com um cartaz de sexagenários, septuagenários e um cabeça-de-cartaz octogenário, ainda tinha muitas e boas surpresas reservadas para nós até ao fim da noite. O que, à partida, poderia parecer um dia ameno no Parque Papa Francisco tornou-se memorável graças aos concertos de primeira linha que teve para nos oferecer. E 4 Non Blondes foi a melhor maneira possível de o começar. Com um alinhamento maioritariamente composto por canções inéditas (algumas novas, algumas com certeza material antigo que ficou pendurado com o fim do grupo, em 1994), a reacção expectante do público dá mesmo a sensação de estarmos perante uma banda de abertura. Mas uma banda de abertura de luxo, capaz de deixar em êxtase.
Toda a gente estava à espera de “What’s Up”, o êxito absoluto de 4 Non Blondes. Balada confessional sobre as dores de crescimento tornada hino, canção de fogueira, base de entendimento intergeracional, é o tema que deu a Linda Perry um lugar de pleno direito no cânone da música popular. E “What’s Up” veio, claro, já depois de “Train”, e de “Spaceman” ter feito o público erguer os telemóveis bem alto pela primeira vez naquele sábado de calor. Quando chegou o aguardado momento, a vocalista de sangue português mas que nunca havia tocado em Portugal (o pai, fez questão de dizer, era “português” – na verdade, um luso-descendente de Fall River, uma cidadezinha do Massachusetts há muitas décadas tomada pela comunidade portuguesa), a vocalista, dizíamos, percorreu o palco de um lado ao outro, desceu para cantar com os fãs, à esquerda, à direita correu o corredor que dá para a mesa de som, trouxe a filha para uma fotografia – e a menina de nove anos acabou por cantar um refrão, para aparente surpresa da mãe – e pôs toda a gente diante do Palco Mundo a cantar a plenos pulmões. Lindo, lindo, lindo. “Estive 25 anos fechada num estúdio a fazer música para outras pessoas. É óptimo estar aqui”, tinha dito antes. Foi mesmo.
A baixista Christa Hillhouse, a única companheira que está com Perry na banda desde 1989, manteve-se discreta o concerto todo. A baterista Dawn Richardson (desde 1991) e o guitarrista Roger Rocha (desde 1992) estiveram em maior evidência, acompanhados ainda por um terceiro guitarrista convidado (Nick Maybury). Todos em grande forma. Num cenário de amplificadores e colunas Marshall, à antiga (esqueçamos os vídeos de cavalos de crina molhada a galopar sobre as nuvens ao pôr-do-sol), a banda transpirava uma coolness intemporal. Na dianteira, Linda Perry de chapéu de coco alto, longsleeve, grossas correntes de ouro com pesados pendões, gordos anéis e pulseiras, guitarra Fender descascada, com uma fluência musical irrepreensível, com todos os versos cantadas milimetricamente. Uff…
Por esta altura, achávamos que não haveria melhor concerto reservado para este dia. Se fossemos embora logo após esta estreia de 4 Non Blonde em Portugal, iríamos satisfeitos, entoando loas aos quatro ventos. E no entanto, depois de um passo em falso com UHF no Palco Music Valley, fomos em boa hora ver The Wailers ao Palco Super Bock. É certo que nenhum dos actuais elementos da banda que se autonomizou após a morte de Bob Marley, em 1981, escreveu ou ajudou a escrever nenhuma destas canções. Mas também é certo que “Three Little Birds”, “Could You Be Loved”, “Get Up Stand Up” ou “Buffalo Soldier” transportam com elas uma alegria e um sentimento de comunhão e de pertença que é sempre bem-vindo. É bonito de ver e melhor ainda fazer parte de uma multidão assim.
The Wailers e UHF tocaram curiosamente ao mesmo tempo. Duas bandas cuja longevidade as forçou à regeneração. Acontece que, enquanto António Manuel Ribeiro pugnava de forma professoral pela cultura portuguesa (Camões, Pessoa, Saramago, Lobo Antunes, exemplificou), os jamaicanos espalhavam boa onda e ia pedindo para não desistirmos da “luta”. “Ainda se lembram da mensagem, Lisboa? Paz, amor, unidade”, recordou o vocalista Mitchell Brunings. “A questão com a união é que não a conseguimos alcançar sozinhos.” Às tantas, tivemos um grande momento gospel, com toda a gente a levitar um nadinha com o verso “Give thanks and praise to the Lord and I will feel alright”. Não foi tanto um grande momento da banda, da performance em palco, foi um transe colectivo. Magnífico.
O conterrâneo Shaggy ocuparia logo a seguir o Palco Mundo para aquele que foi, sem sombra de dúvida, o pior concerto do dia. Sempre “ladies” para aqui, “my ladies” para ali, “independent women” para acolá – independentes, mas para lhes dizer “you don’t need a man, except me”, note-se –, com a realização dos ecrãs gigantes constantemente à cata dos maiores decotes que conseguisse encontrar na plateia, foi sempre um concerto com cheirinho no ar a misoginia e a objectificação barata muito mal disfarçadas. Shaggy é, de resto, a imagem perfeita do seu espectáculo: fatiota branca acetinada, manga cava, cruz de diamantes ao pescoço, micro dourado e muito pouco entrega musical para tanta promessa. Muita parra e pouca uva. Dito de maneira que talvez o próprio entenda e aprecie, parece aquele macho cheio de bazófia que faz e acontece, mas que nunca ninguém se cruzou com uma testemunha, muito menos uma pessoa envolvida nesses acontecimentos. Embora tenha reclamado a herança do reggae e dos Wailers, não podia estar-lhes mais distante.
Abandonámos para aproveitar o Kau estava quase sem fila (na fim-de-semana era a maior da zona da restauração) e ferrámos o dente num brisket de respeito (e muitos pontos acima da típica refeição festivaleira) – e seguimos para o Palco Super Bock, para apanhar a sequência de abertura de Joss Stone. Que banda, que groove, que vozeirão! A cantora de 39 anos (neste contexto, uma jovem incontestável) interagiu e aproximou-se do público desde o primeiro instante. Acabaria até por amadrinhar um pedido de casamento em cima do palco, o que não vimos porque, mesmo tendo de abandonar uma boa companhia, estamos moralmente obrigados a ver GNR, que tocava à mesma hora no Music Valley.
Chegámos a tempo de “Efectivamente”, de “Asas” e de substituir Isabel Silvestre, em mais um momento de partilha colectiva, quando foi hora de “Pronúncia do Norte” (até uma bandeira do FC Porto esvoaçou, justamente, na dianteira). “Popless”, “Quero Que Vás Pró Inferno”, “Morte ao Sol”, Sexta-feira (Um Seu Criado)”, “+ Vale Nunca”, “Oculto Sangue”: um alinhamento imaculado, como é imagem de marca da banda, com Rui Reininho a introduzir o caos, em doses controladas, ao longo de todo o espectáculo, como tem de ser. “Até daqui a 20 anos”, brincou, depois de agradecer o convite aos Xutos & Pontapés, que programaram todo o dia deste palco (também por lá passaram os Jafumega, a abrir).
Os Xutos & Pontapés, por sua vez, deram um dos concertos da noite. Vamos escrever outra vez. Os Xutos & Pontapés deram um dos concertos da noite. Se não estivéssemos habituados a este nível de adesão nos espectáculos da banda, o espanto obrigar-nos-ia, com certeza, a ir mais longe: um dos concertos do festival. Com a maior enchente do Music Valley que vimos até agora nesta versão do Rock in Rio Lisboa junto ao Tejo, tiveram o público na mão do princípio ao fim e nem o timing incompreensível do fogo-de-artifício, a querer sobrepor-se à fase final dos espectáculos dos palcos secundários, abalou essa ligação. Logo no arranque, “Contentores” é cantado pela multidão como se fosse o hino da Selecção num jogo do Mundial, de peito aberto e vontade férrea. “Remar, Remar”, “Direito ao Deserto” e “Circo de Feras” também são bons momentos, mas quando entram “Não Sou o Único”, “Para Ti Maria” e “Casinha” transforma-se tudo numa grande festa. “Não sei qual é melhor palco, se o outro [principal], se este”, diz Tim, cravo de tecido na lapela do colete de couro. Os Xutos mostraram, pela enésima vez, por que são uma instituição nacional. No fim, quando nos dirigíamos para Rod Stewart, ouvimos o lamento de um fã: “Soube a pouco”.
O que soube a pouco, contudo, foi Rod Stewart. Na sua digressão de despedida, o cantor britânico de 81 anos foi jovial, provocador, comunicativo, e ainda é dono de uma voz segura, que é acompanhada por uma banda competentíssima, mas tudo soa um bocadinho deslocado, anacrónico. Os hits estão lá e a audiência reage até aos êxitos alheios, como “It’s a Heartache” (Bonnie Tyler), “The First Cut is the Deepest” (Cat Stevens), “I’d Rather Go Blind” (Etta James), Sailing (Sutherland Brothers), a que se juntam “It Takes Two” (recordando o dueto com Tina Turner), “Forever Young” (com interlúdio de riverdance), “Hot Legs”, “Young Turks”, “Baby Jane” ou a incontornável “Do Ya Think I’m Sexy”. Mas as fardas da banda encanitam-nos durante aquela hora e meia de concerto: a secção masculina, está de facto e gravata; a secção feminina, de vestido de minissaia. Porque são uma secção própria da banda, o coro porventura? Não. Elas cantam, tocam guitarra, banjo, violino, bombo… Pelo meio ainda fazem versões de “Jolene” e “Proud Mary” sem Rod.
Anacrónico, dizíamos. O exacto oposto do que sentimos com Cyndi Lauper, que aos 73 anos entra em palco de crista e vai chegar ao fim a cantar no chão, em “Shine”, e de punho cerrado em “True Colors”, quando um arco-íris rasga o ecrã gigante por detrás da banda, quase integralmente composta por mulheres, e a cantora norte-americana exorta toda a gente a mostrar as suas verdadeiras cores, “não tenham medo”. Esta sequência de três canções finais vai desembocar, claro, em “Girls Just Want to Have Fun”, em que enverga um vestido de grandes bolas vermelhas fruto de uma colaboração com a artista japonesa Yayoi Kusama (que ainda recentemente expôs em Serralves). Cyndi Lauper dedicou-o a quem está a tentar “empurrar as nossas irmãs para baixo”, pedindo para que gritássemos bem alto e desejando que meninas possam crescer “livres” e “viver as suas melhores vidas”.
“The Goonies ‘R’ Good Enough”, “Change of Heart” e “Time After Time” não faltaram, esta última muito bem enquadrada pelo crepúsculo, pela Ponte Vasco da Gama e por uma Lua crescente quase, quase cheia (e pelo melhor trabalho visual da noite nos ecrãs). Mas aquele final foi exuberante, feroz, terno, sedutor, contestatário, fabuloso. Cyndi Lauper tem a voz com que a ouvimos nos discos. Não. Por vezes parece que a voz vai mesmo falhar-lhe, mas de forma mais ou menos airosa segura-se sempre, nem que seja por um fio. Isso não a trava. A cantora arrisca e leva-se ao limite, expõe as suas vulnerabilidades para nos dar o melhor espectáculo possível, por experimental sem medos, atitude punk qb e luminosa, sempre luminosa. Desafinou? Sim. E no entanto deu um dos melhores concertos do Rock in Rio Lisboa, talvez de toda a temporada de festivais. Sim: estamos a medir bem as palavras.
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