Ecrã Total. Será que ainda há vida além dos ecrãs?

Determinado em alertar os portugueses para o consumo excessivo de ecrãs, notificações, scrolls e replies, o MEO quer tirar as pessoas da bolha, apelando a que se liguem melhor com moderação.
MEO
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Time Out em associação com MEO
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As dicas para aproveitar a vida offline têm sido mais do que muitas. Desta vez, o MEO convida-o a ir ao teatro assistir à peça Ecrã Total, em cena de 5 a 29 de Novembro na Sala Café Teatro – Teatro da Comuna. Com os actores Maria Clementina e Miguel Lambertini, e encenação de Hugo Franco, este não se trata apenas de um alerta sobre o excesso de tecnologia, mas de uma excelente ocasião para tomarmos consciência e repensarmos a forma como usamos o digital no nosso dia-a-dia. A Time Out falou com Maria Clementina sobre a peça.

Como surgiu a ideia de criarem esta peça?

A nossa motivação em criar e interpretar Ecrã Total parte das nossas próprias vivências pessoais na utilização do smartphone e na observação dos outros em nosso redor. Integrados numa geração que teve ainda o privilégio de interagir em comunidade numa era essencialmente analógica até à fase de jovens adultos, testemunhámos na primeira pessoa a transição abrupta da revolução digital (a qual trouxe novas barreiras a uma experiência humana sensorial sintonizada com o momento presente e com o mundo real e palpável). A nossa forma de pensar, de fazer e de interagir mudou muito desde a época em que estudávamos juntos na faculdade.

É a primeira vez que contracenam juntos?

Ambos trabalhámos durante muitos anos no ramo da comunicação e só mais tarde nos permitimos enveredar pelo mundo do espectáculo e da representação. Tínhamos, já há algum tempo, vontade de fazer um projecto juntos de raíz, pois os nossos percursos eram semelhantes e fazia todo o sentido puxarmos um pelo outro. Foi depois de eu produzir a minha peça Não Disfarces o ano passado, no Teatro Villaret, que se tornou óbvio para mim que o meu único caminho possível seria continuar a escrever e fazer teatro, por isso, assim que se proporcionou, o Miguel e eu juntámo-nos para pensar em ideias de temáticas para uma comédia. A ideia sobre este tema surgiu muito rapidamente de forma totalmente orgânica, pois ninguém está livre do frenesim digital.

Além de alertar o público para uma maior e mais consciente responsabilidade digital, há mais alguma mensagem que queiram passar?

Num sector tão competitivo como o teatro português e com menos oportunidades de trabalho do que o desejável (decorrente de uma escala geográfica reduzida), esta iniciativa propõe também encorajar outros artistas em fase de construção de carreira a criar e produzir projectos singulares e a serem, também, os seus próprios empregadores. Queremos muito passar esta mensagem de confiança e de possibilidade, incentivando a que outros projectos independentes conquistem a projecção merecida.

Perante este desafio, qual foi a vossa primeira reacção ou pensamento?

Desenhar um esqueleto narrativo com o objectivo de realçar, até ao limite do ridículo, a cascata frenética e anarca de solicitações e hiperactividade a que todos somos submetidos, voluntária ou involuntariamente, ao aceitarmos as regras do jogo ditadas por um objecto que cabe na palma de uma mão. Quisemos escrever para uma audiência e faixa etária potencialmente abrangente e desconfiamos que a identificação com várias peripécias da narrativa seja inevitável. Acreditamos que é o tipo de peça que desperta a típica autorreflexão “quem nunca?”.

Quem é a Ana? Pode descrevê-la?

Ana é a típica executiva empoderada, profissionalmente competente e bem-sucedida. É ela quem veste as calças lá em casa. Ana é eficiente e orienta o grosso da logística familiar (este casal tem dois filhos). É bastante gozona, tem sentido de humor. É pragmática e tem pouca paciência para lamechices, embora seja bastante impulsiva e emotiva, sobretudo, no que toca à sua vida pessoal. Ana há muito que desistiu do casamento, mas faz tudo “by the book” e teve a iniciativa de despoletar a terapia de casal, nem que seja, como um acto de justificação para si própria, de que tentou salvar o casamento a todo o custo. No entanto, já há algum tempo que mantém um flirt virtual com um misterioso “Carlos P.” que conheceu no Instagram e ao qual está totalmente rendida, apesar de ainda não se ter encontrado fisicamente com ele. 

E o Mário?

Mário é típico “totó”, é técnico de IT e faz o menos possível para se justificar. É dos que usa pijaminha. Com gola. Mário é inseguro e nervoso. Há muitos anos que esconde a sua homossexualidade, mas está finalmente decidido a revelar tudo à mulher, além de um grave diagnóstico de saúde que esconde também de toda a gente, inclusive do amante Cláudio.

E quanto à figura do Algoritmo, pode explicar-nos o seu papel?

O Algoritmo é um narrador voz-off omnisciente e omnipresente que vai situando, sempre com muito sarcasmo, cena a cena, o que se está a passar nos telemóveis dos protagonistas Ana e Mário. Ou seja, apesar de protagonizarmos o casal Ana e Mário, o Miguel e eu desdobramo-nos em múltiplas personagens secundárias que representam as inúmeras figuras que interagem nos telemóveis de cada um. O Algoritmo é representado por uma voz e não é uma voz qualquer! Atrevemo-nos a cometer a inconfidência de que se trata da mítica Voz da Casa dos Segredos!

Desde que começaram os ensaios, mudou algum comportamento no que diz respeito ao uso do telemóvel?

Infelizmente as nossas horas de tempo de telemóvel só pioraram! Enquanto autores, actores e produtores exclusivos e a tempo inteiro, tem sido difícil largar este pequeno objecto, pois as frentes de trabalho multiplicam-se à medida que a data da estreia se aproxima. Mas a verdade é que nos últimos tempos o telefone passou a ter um papel meramente funcional e, ainda assim, menos distractivo, relativamente a outros tempos. Nas últimas semanas, não me posso dar ao luxo de derreter um minuto que seja a ver vídeos parvos para rir no Instagram ou a responder a chats do WhatsApp com o afinco com que antigamente respondia, por isso nesse sentido, a minha relação com o telemóvel passou a ser, de certa maneira, mais incisiva, no sentido de me ligar apenas para fazer o que tem de ser feito e com menos floreados.

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