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Ir a um festival já não serve apenas para vermos os nossos artistas favoritos. Existem muitas outras contas que é preciso fazer para não estourar o orçamento do mês. Fizemos as contas à vida de um festivaleiro.

Ir a um festival de Verão já se tornou um ritual. Dos gigantes NOS Alive e Rock in Rio Lisboa a festivais mais alternativos, como o Paredes de Coura ou o Primavera Sound, passando por propostas mais recentes, como o Sol da Caparica ou o MEO Somnii, de norte a sul do país, os fãs de música e festa reservam vários dias para se entregarem ao espírito destes eventos. No entanto, além da discussão sobre que artistas é que mais querem ver, existe outro tema que prevalece quando se fala sobre estes certames: o dinheiro que se vai gastar.
Entre o preço dos bilhetes, que muitas vezes sobe devido a taxas de intermediários, os copos reutilizáveis, a bebida e a comida, fazer orçamentos tornou-se algo essencial antes de mostrarmos a pulseira para entrar no recinto. Antes de o comboio de festivais se tornar imparável, entre Junho e Setembro, pedimos às promotoras de vários deles que nos ajudassem a perceber os preços com que os festivaleiros se vão deparar este ano e fizemos as contas: quanto custa, afinal, ir a um festival. Para este texto, decidimos fazer incidir os holofotes sobre quatro dos maiores festivais urbanos do país: Rock in Rio Lisboa, NOS Alive, MEO Kalorama e Primavera Sound Porto. Pode abrir a folha de Excel e começar a preencher.
O primeiro embate financeiro ocorre logo na bilheteira. As políticas de preços são distintas entre promotores, especialmente no que toca à aplicação de taxas adicionais sobre o valor facial do bilhete, um custo frequentemente criticado pelos consumidores. Segundo Ricardo Acto, director de operações (COO) do Rock in Rio Lisboa – que regressa ao Parque Tejo nos dias 20, 21, 27 e 28 de Junho para a sua 11.ª edição –, a organização não aplica qualquer taxa de serviço adicional na venda oficial de bilhetes, assumindo o valor anunciado como o valor final. É caso único entre os festivais em apreço, embora os bilhetes também possam ser adquiridos através de um intermediário, como a plataforma Fever.
Nesta edição, que pela primeira vez permite a modalidade de pagamento em prestações, sem juros, através da plataforma Klarna (uma facilidade que se aplica a todas as categorias de ingressos), o bilhete para um dia do festival custa exactamente 89€, ou três prestações de 29,67€. O passe de fim-de-semana, correspondente ao acesso para dois dias consecutivos do evento, fixa-se nos 157€, ou três parcelas de 52,33€, lembrando que a organização não disponibiliza um passe geral para a totalidade dos quatro dias.
Para quem procura outras comodidades, o bilhete Comfort Zone ascende aos 179€, ou três vezes 59,67€, oferecendo bar, zona de comida e casas de banho exclusivas, além de vista para o Palco Mundo. O bilhete VIP Diário atinge os 380€, ou três prestações de 126,67€, dando direito a bar aberto, catering, bengaleiro e serviço de shuttle até à entrada. No topo da exclusividade surge o Haier Premium Club, um camarote para dez pessoas por dia, com todas as regalias VIP, cujo valor começa nos 7995€, também elegível para fraccionamento.
Cenário oposto verifica-se no Primavera Sound Porto, que terá lugar de 11 a 14 de Junho no Parque da Cidade, e no MEO Kalorama, de 28 a 30 de Agosto no Parque da Bela Vista. Ambos delegaram a exclusividade de gestão da bilheteira na plataforma Fever, onde as taxas administrativas são somadas ao preço base. No Primavera Sound Porto, o bilhete diário de 75€ sofre um acréscimo de 7,62€ em taxas, totalizando 82,62€; o preço diário VIP passa de 135€ para 148,72€ devido aos 13,72€ de taxas; e o passe geral, anunciado a 180€, vê o custo final subir para 198,29€ devido aos 18,29€ de encargos operacionais. O passe geral VIP atinge os 302,94€ (275€ mais 27,94€ de taxas). Nota positiva para o último dia do festival (14 de Junho), com uma tarifa diária reduzida de 40€ (+ 4,06€ de taxas).
No MEO Kalorama, o passe de três dias custa 160€ mais 11,20€ de taxas (171,20€) e o bilhete diário regular fixa-se nos 65€ acrescidos de 4,55€ de taxas (69,55€).
O NOS Alive, que acontece entre 9 e 11 de Julho no Passeio Marítimo de Algés, surge como o festival com a entrada diária regular mais dispendiosa da amostra. A organização não respondeu aos contactos feitos pela Time Out, mas a consulta dos meios oficiais e da plataforma See Tickets revela que o bilhete diário, cujo valor facial definido pelo promotor é de 84,00€, atinge o custo final de 90,21€ quando somada a taxa de reserva obrigatória destinada a cobrir os custos do serviço de venda e transação. Os passes de dois dias cifram-se nos 180,43€ (168,00€ de valor facial) e o passe de três dias alcança os 213,72€ (199,00€ de valor facial) – importa notar que a esmagadora maioria destes passes e os bilhetes diários para os dias 10 e 11 de Julho já se encontram esgotados.
Para contrariar a fasquia elevada dos preços, alguns promotores têm apostado em parcerias e descontos. O MEO Kalorama disponibiliza o pagamento em três prestações sem juros através da Klarna (sendo a primeira no acto da compra). Adicionalmente, oferece vantagens directas à mobilidade e à juventude: portadores do Cartão Jovem EYCA (sub-30) pagam apenas 133,75€ pelo passe de três dias (125€ de subtotal mais 8,75€ de taxas), enquanto os utilizadores do Cartão Navegante beneficiam de um desconto substancial de 34€ no passe geral (que baixa de 160€ para 126€) e de 12€ no bilhete diário (reduzido de 65€ para 53€). Há ainda o Pack Friends (seis passes pelo preço de cinco a 854,10€) e o Pack Fnac por 160€ (mais 11,80€ de custos de operação).
No caso do Primavera Sound, destaca-se o benefício especial para clientes Revolut, com a oferta de 20€ de cashback no registo na plataforma bancária, além do acesso gratuito para crianças até aos nove anos inclusive (desde que acompanhadas e com bilhete gratuito emitido na Fever).
Cruzadas as portas do recinto, começa a segunda metade do investimento. A prática do copo reutilizável mantém-se uniforme. Tanto no Rock in Rio Lisboa como no Primavera Sound Porto, o copo oficial de 0,40L custa 1€ no momento da compra. No Rock in Rio, não existe sistema de devolução do dinheiro; contudo, é possível trocar gratuitamente um copo sujo por um lavado nos pontos de venda aderentes. Já o Primavera Sound permite que o público leve copos de casa, desde que de plástico e com capacidade máxima de 0,40L.
Em relação à restauração e aos bares, o Rock in Rio Lisboa foi o único promotor a fornecer dados médios concretos e tabelados, cujos preços fixos ou previsões médias apontam para uma garrafa de água PET de 0,50L a custar 2,50€, enquanto a cerveja e a sidra, ambas em copos de 0,40L, se fixam nos 5€. Os refrigerantes de 0,40L, como Coca-Cola, Fanta ou Sprite, entre outros, terão o custo de 3,50€, ao passo que o copo de vinho deverá oscilar entre os 5€ e os 6€, dependendo da referência e da medida servida pelas marcas Bacalhôa e Casa Ermelinda de Freitas. No que toca à alimentação, a tradicional bifana rondará os 7€ e uma fatia de pizza situar-se-á entre os 3,50€ e os 5€, enquanto as opções de hambúrguer variarão entre os 10€ e os 12€. As refeições servidas com mais do que um elemento têm o intervalo entre 12€ e 15€ como valores de referência.
Quanto ao Primavera Sound Porto, a organização confirmou que os valores da cerveja oficial (que este ano passa a ser a Estrella Damm) ainda se encontram em discussão. Contudo, o festival assegura uma oferta gastronómica com mais de 40 opções espalhadas pelo Parque da Cidade, englobando desde os clássicos hambúrgueres e pizzas até aos tradicionais tascos do Porto, passando por gastronomia internacional, propostas saudáveis e sugestões vegetarianas. Por sua vez, a organização do Kalorama remeteu a definição de preços dos bares e restauração para um momento posterior, não sendo possível apurar os valores exactos nesta fase.
A política oficial do Primavera Sound (retirada das suas directrizes de funcionamento) estipula que o público pode entrar com alimentos no recinto, desde que estes não se encontrem em recipientes de vidro. No que respeita a bebidas, a entrada é totalmente proibida, abrindo-se apenas uma exceção para garrafas de água de plástico sem tampa, com a capacidade máxima estrita de 0,50L.
Para um festivaleiro que adquira um bilhete diário normal e planeie passar o dia no recinto consumindo o básico – que, neste caso, corresponde a um copo reutilizável, duas águas, três cervejas (or sidras), uma bifana ao lanche e um hambúrguer ao jantar –, o custo real de um único dia de festival atinge valores consideráveis.
No Rock in Rio Lisboa, esta experiência diária fixa-se em aproximadamente 121,50€ (89,00€ do bilhete, 1€ do copo, 5€ das águas, 15€ das cervejas, 7€ da bifana, 11€ do hambúrguer). Se a opção for o Primavera Sound Porto, assumindo custos de restauração semelhantes aos do mercado de festivais, o valor total supera os 115€ (82,62€ do bilhete com taxas incluídas mais 32,50€ estimados em consumo).
No caso do MEO Kalorama, sem a aplicação de descontos Navegante ou Cartão Jovem, o dia fica por cerca de 102€ (69,55€ de entrada com taxas mais consumos). Por fim, o NOS Alive posiciona-se no topo da despesa diária, alcançando os 123,71€ mínimos por jornada (90,21€ de bilheteira acrescido dos consumos base estimados).
Numa altura em que tanto se debate o acesso à cultura, perante estes valores – mesmo que apresentados sem contexto, nomeadamente, as condições do recinto ou os artistas que protagonizam cada cartaz – é fácil perceber por que razão um festival de Verão pode demover alguém de se deslocar a estes eventos. Até porque depois ainda há o resto: a deslocação, porventura a estadia, entre outros custos fora do recinto. Se a ideia for passar um dia de música descontraidamente, sem olhar à carteira, facilmente a conta final dispara várias dezenas de euros. Por muito que o amor à música possa falar alto, o encargo financeiro acaba por ser o grande factor decisivo para mover os festivaleiros.
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