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A companhia inaugura a sua mais recente casa, em Marvila, a 23 de Outubro. O ‘Jantar’ é a peça de Moira Buffini, uma estreia em Portugal, que vai “abrir caminho para uma nova vida”. Apesar de todo o trabalho que ainda está pela frente.

Não foi fácil chegar até aqui. O adeus ao Teatro da Politécnica aconteceu no Verão de 2024, dois anos depois da primeira ameaça, mas a sensação de andar sempre de mala na mão já inquietava os Artistas Unidos desde o despejo d’A Capital, em 2002. Um problema com décadas, que também os levou a temporadas no Teatro Taborda e no Convento das Mónicas, e se vê finalmente resolvido, com a inauguração do novo Teatro Paulo Claro, em Marvila. O alívio é, claro, apenas um suspiro, porque ainda há muito trabalho pela frente, a começar pela fachada que dá ar de armazém. “Numa garagem perto de si”, brinca Joana Pajuelo Alves, que faz a comunicação da companhia e nos recebe para um ensaio de Jantar, de Moira Buffini. É uma estreia em Portugal e uma estreia da casa. Que apropriado, começarmos à mesa. Vamos a isto.
“A saída da Politécnica – tal como a saída das Mónicas, tal como a saída d’A Capital, tal como a saída de certa maneira do Taborda, tal como a saída, mas bastante menos do ponto de vista emocional, da Fábrica Braço de Prata –, foi uma saída em que tivemos de unir esforços muito rapidamente para destruir. E é algo bastante doloroso, porque te tira um sentido de utilidade. De repente, tens a sensação de que não serves para nada: tens um projecto com 30 anos, com 200 peças feitas, e continuas sem entender se esse projecto tem um espaço na cidade, e se é desejado, ou se não faz sentido”, confessa o encenador Pedro Carraca. “Mas começámos imediatamente a trabalhar para conseguir arranjar um espaço novo, e a tentar entender se do ponto de vista político se achava que ainda éramos válidos. Felizmente, a recepção foi positiva, ainda que com os tempos próprios das câmaras municipais.”
Procurou-se fazer exigências que permitissem sonhar a longo prazo. Nada de contratos a dois ou três anos. Nada de “caixas de fósforos”. Tinha de ser um espaço que fizesse sentido para o trabalho desenvolvido pelos Artistas Unidos e que pudesse acolher outras companhias, porque o que existe tem condições difíceis ou tempos de representação muito pequenos: “Estão a matar o teatro em Portugal. As companhias, como nós as conhecíamos, grandes, com elementos fixos, estão a acabar”, lamenta, cheio de vontade de contrariar a tendência. A nova casa – no número 37 da Rua do Açúcar, em Marvila – poderá ser o lugar onde isso se concretiza. A entrada não é bonita, mas também não esperávamos que fosse. O contrato de cedência foi assinado há menos de uma semana e a adaptação ainda agora começou. Até há pouco tempo, o armazém onde nos encontramos guardava o espólio deixado pelo cineasta António da Cunha Telles (1935-2022).
Foi preciso esvaziar tudo, fazer limpezas, olhar para o estado das coisas. Apesar do potencial, há muito por resolver. Basta olhar para o tecto e contemplar os buracos, ou para as paredes a descascar, ou para as “casotas” que vão ser convertidas em bilheteira e livraria, ou para o andar de cima, que ainda só é acessível de escadote, ou para os “aquários”, que agora são os escritórios, mas podem vir a ser uma mezzanine. Depois pensar como trazer as pessoas para fora do centro. “Ainda não chegámos aí, apesar de já termos começado a pensar em como criar sinergias com os nossos vizinhos, a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, o Teatro Meridional e até o Teatro O Sonho. Enfim, estamos a ver, mas primeiro temos de nos instalar e descobrir como é que vamos pagar um telhado novo, e equipar uma sala, e reformular o quadro eléctrico, e garantir as condições de segurança, e pintar, e arranjar as casas de banho. Para uma companhia de teatro portuguesa, encarar um investimento que devia ser de um milhão de euros, e nunca será de menos de 300 a 400 mil, é muito dinheiro.”
Para montar o primeiro “jantar” na nova casa, a cenografia, o som e o desenho de luz também são essenciais. Mas as condições da actual sala de espectáculos – que haverá de funcionar em regime de blackbox e eventualmente dará para se dividir em duas – também obrigaram a escolhas que não estavam previstas no início. “Aqui achámos que não devíamos revelar a sala toda, daí as cortinas, para que não se entenda a sua verdadeira dimensão. A ideia é que, na próxima peça, se possa ver mais um pouco. Mas tivemos muitos problemas. O isolamento acústico, por exemplo. A sala tem o tamanho perfeito para os graves se propagarem. Só para teres uma ideia: quando começámos a pôr as cortinas, o técnico que estava em cima do andaime, o Francisco Silva, e a cenógrafa, a Rita Lopes Alves, que estava cá em baixo a apenas dois metros e meio de distância, não se conseguiam perceber um ao outro. Portanto, como é que nós vamos conseguir secar o eco desta sala?”
Há outros problemas: o quadro do edifício – “ontem ficámos sem luz” – e a questão da saída de emergência, que actualmente dá para uma rua fechada. É por isso, aliás, que vão abrir com uma lotação bastante pequena, apenas 50 lugares por dia. Mas, se tudo correr bem, quando isso for solucionado, o espaço passará a afectar de forma positiva o trabalho da companhia. “Um dos problemas que sentimos na Politécnica ao fim de uns anos foi termos sempre o mesmo ponto de vista do público. Aqui, o espaço permite-nos fazermos o que quisermos. Ter tanto o público no meio, como nos lados, ou numa ponta só. Uma das coisas que pensámos quando entrámos foi: estes aquários servirão para termos cinco grupos novos a fazerem pequenas peças intimistas para muito menos espectadores, e ter um happening em cada sala? Temos de mudar os escritórios primeiro. Portanto, há tanta coisa em jogo que ainda nada está definido.”
A peça que estreia o novo teatro foi sugerida pela actriz Catarina Campos Costa e o actor Pedro Gil. “Está na gaveta a fermentar há cerca de três anos e achámos que agora era uma boa altura. Tivemos azar porque o Pedro Gil não conseguia, mas deu-nos toda a força para avançarmos à mesma”, conta Carraca. “Queríamos que fosse divertido, mas, de qualquer maneira, achámos que não podia ser uma comédia qualquer. Tinha de ser uma comédia negra, retorcida, que permitisse um belíssimo trabalho de actores. E depois há coisas na peça que nos interessam, claro. Interessa-nos esta forma de estar em máscara, a diferença entre o que temos de fazer e o que queremos fazer, e ainda aquilo que é possível fazer. Mas a escolha prende-se mais com a vontade de celebrar com o público do que propriamente com as razões que normalmente nos movem.”
De Titus Andronicus, de Shakespeare, a Doctor Fischer of Geneva, de Graham Greene, o jantar infernal tornou-se um clássico literário e dramático: anfitriões que, sob o pretexto de servir um banquete, se dedicam a humilhar os seus convidados com menus tão variados quanto duvidosos. É nesse registo que se inscreve a peça de Moira Buffini. Escrita nos anos 2000, tem como protagonista Paige, uma anfitriã implacável que celebra o sucesso do novo best-seller do marido, Lars, encenando um verdadeiro sacrifício moderno. À mesa, os convidados – figuras de uma elite complacente – tornam-se peões de um jogo perverso. Enquanto isso, um criado silencioso percorre a sala como um presságio sombrio e, com a chegada inesperada de um intruso que faz estalar o confronto de classes, adivinha-se que a noite só poderá terminar em desastre.
Discussões existenciais convivem com brigas verbais e até físicas, entre diálogos de lâmina afiada, ora mordazes, ora abertamente obscenos. Essa oscilação constante entre o elevado e o grotesco cria uma tensão que desestabiliza tanto as personagens quanto o público, forçando-o a rir e a estremecer quase ao mesmo tempo. É, em última análise, um desafio deliberado: a peça não procura conforto nem consenso, mas sim expor, com crueldade e ironia, as contradições de uma sociedade satisfeita consigo própria. “Eu acho que a Moira explora assuntos que são muito sérios e muito dolorosos, especialmente na personagem da Paige. Mas ela nunca consegue deixar de ser engraçada”, diz. “Não é fácil transpor isso para cena, primeiro porque não somos britânicos, e eles têm um humor muito peculiar, muito contido. A nossa Wynne, por exemplo, nunca passaria no teatro britânico. Tem uma fisicalidade e uma vivacidade muito mais nossas. Portanto, nós fomos discutindo bastante e tentando identificar a zona de mudança dos personagens. Como o Mike, que na verdade é um animal de jardim zoológico.”
No fim, o que os Artistas Unidos propõem – sem querer dar respostas, mas com esperança de provocar questões – não é apenas um retrato cruel de um jantar de elite, mas uma dissecação das ilusões que sustentam essa mesma elite: o consumismo sem medida, o desperdício como espectáculo, a crença quase mística de que a riqueza nasce apenas da vontade de a ter. “Essa forma de pensar é uma coisa que, dentro dos livros todos de auto-ajuda que há agora – e não só –, de repente está cada vez mais presente.” Por outro lado, não temos dúvidas que a peça de Buffini nos força a admitir, com uma precisão absolutamente desconfortável, que por baixo da mesa bem posta se acumulam os resíduos – materiais e morais – de uma sociedade que prefere a encenação da abundância à realidade da partilha. E que, por vezes, o custo é mais humano do que material.
“Temos jogado com o aspecto industrial do espaço, em comparação com a mesa posta luxuriosamente, e o veludo por trás, a cair do tecto. Tudo à volta está a cair e eles próprios estão a cair de podre. E nós próprios estamos a ver a realidade que conhecíamos a morrer. Não é uma realidade interior, é verdade, mas as máscaras do ponto de vista diplomático estão a desaparecer. Aquilo que as pessoas queriam dizer umas das outras e que não disseram, por vergonha talvez, porque não deviam dizer, de repente está tudo a sair cá para fora. É também o que a Moira tenta provocar: vamos falar com sinceridade, vamos dizer a verdade”, desafia, antes de rematar: “Há muitos anos, lembro-me de estar a falar com o meu irmão e de estarmos a dizer que no tempo do nosso avô, que era um combatente anti-fascista, e que foi morto por causa disso, a gente sabia quem era o inimigo. Era muito mais fácil tomar uma decisão sobre o que queres ser e o que é que queres combater. Nós olhávamos para esse tempo de uma forma romântica, com uma certa inveja até. Mas há uma coisa que é a maldição chinesa, que diz ‘cuidado com o que desejas, porque pode acontecer’.”
Por outro lado, a casa nova também foi muito desejada, e ainda bem. A tristeza que se sentiu com o adeus à Politécnica e sobretudo com a morte do fundador dos Artistas Unidos Jorge Silva Melo (1948-2022), permanece – talvez nunca desapareça –, mas há também muita esperança, e muita vontade de continuar. “Eu tenho que sentir que estamos a abrir caminho para uma nova vida. Apesar de estarmos assustadíssimos com todo o trabalho que temos pela frente, até porque a idade já não é a mesma, há um objectivo. E isso traz uma energia, inclusive dentro do grupo, completamente diferente. Quero acreditar que os artistas não estão condenados a andar sempre de mala na mão, que conseguem conquistar sítios, mas é preciso criar condições para que aconteça. É muito difícil estares com um pensamento criativo ao mesmo tempo que estás em modo sobrevivência. São pensamentos completamente antagónicos.”
Notícia actualizada a 7 de Outubro, às 10.09: a estreia dos Artistas Unidos no Teatro Paulo Claro, que estava prevista para dia 9 de Outubro, foi adiada para dia 23.
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