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Cyndi Lauper e mais sete: os melhores concertos do Rock in Rio Lisboa 2026

O Parque Papa Francisco acolheu mais de 330 mil entradas ao longo de dois fins-de-semana de festival. Dos mais de 60 nomes em cartaz, escolhemos os oito que mais nos encheram as medidas – e dizemos-lhe porquê. Já há datas para 2028.

Hugo Torres
Hugo Geada
Escrito por
Hugo Torres
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Hugo Geada
Central Cee
Rita Seixas | Central Cee
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O Parque Papa Francisco ainda se chamava Parque Tejo quando o Rock in Rio Lisboa se mudou para lá, em 2024, deixando para trás décadas de história no Parque da Bela Vista. A primeira edição na nova localização foi conturbada: os acessos, os transportes, as filas para tudo dentro do recinto, a sensação permanente de aperto e desconforto… Desta vez foi diferente. É certo que no primeiro fim-de-semana, a 20 e 21 de Junho, com Katy Perry e Linkin Park como cabeças-de-cartaz e cerca de 100 mil pessoas em cada um dos dias, o tamanho da multidão exigiu cuidado e paciência a transitar de um palco para o outro, mas no segundo fim-de-semana, 27 e 28 de Junho, com cerca de 130 mil pessoas no conjunto dos dois dias, o recinto tornou-se muito mais confortável. Aplaudem-se os muitos pontos de água gratuita por todo o parque, a qualidade das casas-de-banho, a limpeza no geral e, talvez mais relevante para um festival, o novo posicionamento de estruturas e palcos.

O que falta? Sombras. O que mais? Sombras. Já dissemos sombras? O Rock in Rio Lisboa anunciou ao início da tarde deste domingo, o quarto e último do festival, as datas para a próxima edição: 17, 18, 24 e 25 de Junho de 2028. Se se plantarem umas árvores agora, dentro de dois anos talvez tenham um tamanhozito que se veja. Mas há mais a melhorar, desde logo a qualidade do som do Palco Mundo – por vezes sofrível. Outras têm mais a ver com sensibilidade e sentido de oportunidade. O espectáculo de fogo-de-artifício, a existir, não pode acontecer por cima dos derradeiros concertos nos palcos secundários. É uma falta de respeito pelos artistas e por quem os está a ouvir. Já “o grande espectáculo aéreo”, no qual meia dúzia de monomotores se mostram em acrobacias pelos ares, sobre o estuário do Tejo, é de uma dissonância absoluta num festival que diz pugnar “por um mundo melhor”, numa altura em que a emergência climática se está a impor com cada vez mais força.

No que diz respeito a concertos, passaram mais de 60 artistas pelos quatro palcos. Não vimos todos, mas fizemos por estar no máximo possível de espectáculos – e agora, na hora de fazer um balanço, escolhemos os oito de que mais gostámos. Sublinhamos: são aqueles de que mais gostamos, e não os únicos. Numa palavra, os melhores. Vamos a isso.

Kaiser Chiefs

O quê que esperávamos de Kaiser Chiefs em 2026? Nada. O quê que eles deram? Tudo. Quando tudo está tão redondinho, previsto, ideal, rigorosamente determinado, foi com uma grande, grande satisfação que vimos o vocalista Ricky Wilson desatar a correr pelo corredor que separa o público diante do palco e subir a estrutura que protege a mesa de som, e depois a torre de iluminação. “I predict a riot”, diz ele. Promete e cumpre, já depois de ter posto toda a gente a cantar com “Everyday I love you less and less” e “Ruby”. “Isto é ganda som, boy”, ouve-se ao nosso lado. É mesmo. Durante muitos anos, os britânicos foram presença assídua em Portugal. Não vinham cá desde 2018. Estava mal. Agora está tudo bem outra vez. HT

Sepultura

Os Sepultura mereciam outro cuidado, outro público, outro fim. A banda brasileira, que está em digressão para se despedir dos palcos, deu aqui o seu último concerto em Portugal e mostrou que ainda é um dos mais pujantes representantes do metal. Mas actuou num palco secundário, com um alinhamento cronometrado, pensado para acabar no instante em que os cabeças-de-cartaz – os Linkin Park – iriam entrar em palco no outro lado do recinto. E a debandada começou a meio do concerto. O alinhamento tocou em Schizophrenia (1987), Beneath the Remains (1989), Arise (1991), Chaos A.D. (1993), Roots (1996), Kairos (2011) e The Cloud of Unknowing (2026). Tudo certo, apesar de pouco, muito pouco. Seja como for, a assombrosa sequência final, com “Territory”, “Arise”, “Refuse/Resist”, “Ratamahatta” e “Roots Bloody Roots” garantem-lhe lugar nesta lista.

Sepultura no Rock in Rio 2026
Rita SeixasSepultura

4 Non Blondes

Trinta e dois anos depois, eis um regresso tão esperado quanto merecido – e à altura das expectativas. A banda está em grande forma e Linda Perry continua uma deusa do rock. Com um alinhamento composto na maioria por canções inéditas (o sucessor de Bigger, Better, Faster, More!, de 1992, está a caminho), as 4 Non Blondes mostraram como se faz um concerto de abertura em que a plateia não conhece o grosso das canções. Com jovialidade, com garra. É claro que não faltaram clássicos como “Train” e “Spaceman”, muito menos “What’s Up”, elo de ligação intergeracional cantado a plenos pulmões por todo o recinto, com Perry a descer para junto dos fãs e a trazer a filha para o palco para cantar um refrão. Lindo. HT

Xutos & Pontapés

Imediatamente antes de Rod Stewart subir ao palco e fechar o terceiro dia, os Xutos & Pontapés deram um dos concertos da noite. Se não estivéssemos habituados a este nível de adesão nos espectáculos da banda, seríamos certamente tomados por um espanto paralisante. Com a maior enchente do Music Valley que vimos até agora neste recinto, tiveram o público na mão do princípio ao fim. Logo no arranque, “Contentores” foi cantado pela multidão como se fosse o hino num jogo da Selecção, de peito aberto e vontade férrea. “Remar, Remar”, “Direito ao Deserto” e “Circo de Feras” também foram bons momentos, mas com “Não Sou o Único”, “Para Ti Maria” e “Casinha” transformaram tudo numa grande festa. Os Xutos mostraram, pela enésima vez, por que são uma instituição nacional. HT

Xutos & Pontapés no Rock in Rio 2026
Lucas CoelhoXutos & Pontapés

Cyndi Lauper

A norte-americana de 73 anos entrou em palco de crista e chegou ao fim a cantar no chão, em “Shine”, e de punho cerrado, em “True Colors”, fechando com o inevitável “Girls Just Want to Have Fun”. Um final exuberante, feroz, terno, sedutor, contestatário, fabuloso. Cyndi Lauper tem a voz com que ouvimos nos discos? Não. Por vezes parece que a voz vai mesmo falhar-lhe, mas de forma mais ou menos airosa segura-se sempre. Isso não a tolhe. A cantora arrisca e leva-se ao limite, expõe as suas vulnerabilidades para nos dar o melhor espectáculo possível, pop experimental sem medos, atitude punk qb e luminosa, sempre luminosa. Desafinou? Sim. E no entanto deu um dos melhores concertos do Rock in Rio Lisboa, talvez de toda a temporada de festivais. E sim, estamos a medir bem as palavras. HT

Valete

O rapper português levou ao festival uma lufada de ar fresco. Enquanto muitos festivaleiros se preocupavam com os passatempos e as habituais activações de marcas, Valete apresentou uma viagem musical diferente daquilo a que tem habituado no seu percurso. Com os Jazz Swingers, transportou os fãs pela Nova Orleães dos anos 20, transformando os seus temas, como o clássico “Roleta Russa”, com influências de jazz, recordando inúmeras vezes ao longo do concerto que este estilo musical é “a memória do futuro”. Homenageou os Mind da Gap e dedicou um tema à ex-namorada Raquel, que lhe financiou o disco de estreia. Apesar de o som por vezes excessivamente alto, que abafou o rap, o concerto leva nota positiva, nem que seja por nos distrair do excesso de estímulos do festival e recordar-nos porque vamos a um festival: pela música. HG

Valete no Rock in Rio 2026
Lua NovíValete

Cee Lo Green

Uma autêntica máquina de energia que contagiou o público com um concerto feito de covers e vários clichés aos quais tivemos que nos render. O vocalista dos Gnarls Barkley e a sua banda afinadíssima revisitaram clássicos de Michael Jackson, Van Halen, Nirvana e até “Mas Que Nada” de Sérgio Mendes, quebrando um ciclo de concertos apáticos que não aqueciam nem arrefeciam. Houve muita pirotecnia, especialmente em “Fire” de Arthur Brown, e um medley de músicas rock, desde “Song 2” (Blur) e “Ace of Spades” (Motorhead) a “Smells Like Teen Spirit” (Nirvana) ou “Seven Nation Army” (White Stripes), num momento tão inesperado e bizarro que nos conquistou (e ao público por completo). O sangue na guelra do artista de 51 anos – mesmo que muitas vezes a roçar o cringe – foi a chapada na cara de que estávamos a precisar. Depois de interpretar os seus maiores êxitos, “Crazy” e “Fuck You”, parecia não querer abandonar o palco, despedindo-se com “Magalenha” de Sérgio Mendes. Ficámos confusos quando disse para nos orgulharmos da nossa cultura, apesar de ser uma música brasileira, mas achámos muito feio as várias tentativas de cortar o som à banda e ao facto de o fogo-de-artifício ter acontecido durante o concerto. HG

21 Savage

Num dia marcado por um espírito tão apático e indiferente aos concertos, foi com algum entusiasmo que vimos tantos jovens a envergar t-shirts de 21 Savage. Esperávamos que fosse um daqueles concertos de alta energia com mosh do princípio ao fim. Apesar de o início ter prometido bastante, com o DJ Marc B a aquecer o público que já estava a saltar e a abrir pits com os vários hinos de hip-hop, foi com alguma confusão que vimos o MC a actuar durante quase 30 minutos e, antes de o rapper britânico subir ao palco, dar-se um longo silêncio até uma fã ser socorrida. Retomada a música (a última ouvida no set era uma música de apoio à Selecção), a entrada em palco de 21 Savage foi um pouco anticlimática, com a energia a esmorecer. No entanto, apesar de pouco comunicativo, o músico deixou que as batidas intensas e as rimas sobre as ruas de Atlanta falassem por si, perante uma plateia jovem e enérgica desfilando grandes temas como “Redrum”, “a lot” e até “Rockstar”, faixa de Post Malone que conta com a sua colaboração. Não superou as expectativas, mas dificilmente a multidão de corpos suados e repletos de pó dirá que desapontou. HG

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