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O regresso ao edifício do Rossio promete carreiras mais longas, projectos de continuidade e muitas criações no feminino.

O Teatro Nacional D. Maria II está encerrado para obras estruturais desde Janeiro de 2023. O projecto de intervenção envolveu o restauro, manutenção e renovação de várias zonas do edifício, com destaque para a antiga sala de cenografia, que agora abriga os escritórios e um jardim de Inverno. Esta quarta-feira, 24 de Junho, Rui Catarino, presidente do Concelho de Administração, e Pedro Penim, director artístico, abriram as portas para uma visita aos bastidores, que antecipa a reabertura em Setembro, depois dos já anunciados “ensaios de Verão”.
“Estamos entre o que está a terminar e o que começa; entre um longo período em que tivemos serviço público de cultura sem o conforto deste edifício e o regresso, em Setembro, a este monumento nacional renovado; a memória de uma casa com 180 anos e a responsabilidade de a preparar para muitas décadas mais”, afirmou Rui Catarino, que destacou a importância de pensar o papel da instituição para a democracia e a sociedade – “uma sociedade de unidades livres, justas e sustentáveis”. “Um teatro nacional sem o seu edifício não deixa de ser teatro, mas deixa de poder confundir a sua missão com a sua morada. Isso transformou-nos.”
Além da limpeza das fachadas, as cantarias foram recuperadas e foi instalada iluminação monumental com tecnologia LED no exterior do edifício. Já a zona de átrio, foi também reformulada para facilitar a entrada no edifício, com a bilheteira e a livraria num espaço único, também renovado – a livraria, por exemplo, tem agora um rendilhado de quadrados em nogueira, embutidos nas paredes e até no tecto. Mas as maiores intervenções são sobretudo ao nível das infra-estruturas, inclusive na Sala Garrett, que teve a rede eléctrica e o sistema de climatização totalmente substituídos.
Destacam-se ainda, na Sala Garrett, os novos tecidos, dos assentos às alcatifas, que vieram de Itália, enquanto as cores das paredes e do tecto foram mantidas, mas escurecidas para se aproximarem dos tons originais, realçando os dourados ornamentais. Já por cima do lustre da Sala Garrett, no que antes era a Sala de Cenografia, encontram-se agora, centralizados num único espaço, os vários serviços do teatro. Já no antigo corredor onde se encontravam escritórios em tabique, foram instaladas cinco vitrines, que vão agora servir para acolher a exposição “180 anos do Teatro Nacional D. Maria II”. Com curadoria de Paula Magalhães, apresenta momentos marcantes da vida do teatro, da sua fundação no século XIX, impulsionada por Almeida Garrett, ao protagonismo da Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro no século XX, sem esquecer, claro, o incêndio de 1964, a reconstrução do edifício e o legado de grandes intérpretes como Eunice Muñoz e Ruy de Carvalho.
O subpalco, por sua vez, foi reorganizado, para permitir um melhor funcionamento de trabalhos de carpintaria e serralharia, tendo sido criados espaços para arrecadação de equipamentos de luz, som e maquinaria. A pièce de résistance é, naturalmente, a plataforma que faz girar o palco e que se encontra mais segura, porque dotada de um sistema austríaco de rotação com precisão milimétrica.
“Parece que sempre foi assim, mas não. Metia medo quando o rotativo funcionava, fazia um ruído, que às vezes era um bocadinho assustador, e já não cumpria de todo as medidas de segurança”, explicou Rui Catarino. “É uma estrutura impressionante, com 110 toneladas e duas plataformas elevatórias, que permitem efeitos cénicos para todo um conjunto de soluções criativas.” Só aconteceu por conta de “uma dotação adicional” do PRR e ficou a cargo da empresa austríaca que montou o rotativo em 1978. “Com o pormenor absolutamente delicioso que é um dos engenheiros desta remodelação conhecer o mecanismo original.”
“Há momentos em que a história deixa de ser apenas uma coisa que herdámos e passa a ser uma responsabilidade que temos de assumir. A reabertura do Teatro D. Maria II é definitivamente um momento desses. Durante estes últimos anos aprendemos muito sobre o que é um teatro quando deixa de ter o seu palco principal. Regressamos com uma compreensão mais ampla do que aquilo que um teatro nacional pode e deve ser. Uma instituição vive da sua capacidade de transformar história em presente e em futuro. E é isso que procuramos fazer nesta temporada”, avançou Pedro Penim, que destacou o regresso das carreiras mais longas – “os espectáculos que permanecem são os que normalmente entram na memória colectiva” – e a criação contemporânea, com foco em projectos assinados por mulheres: “Sara Carinhas, Beatriz Batarda, Keli Freitas, Mónica Garnel, Sara Barros Leitão, Cláudia Jardim, Joana Craveiro, Àkila a.k.a. Puta da Silva, Lígia Sousa, Alice Azevedo, Cátia Terrinca, Joyce de Souza”, entre muitas outras.
A temporada 2026/2027 arranca com Macbeth, numa encenação de Pedro Penim, que ousa provocar o destino. “É a peça que estava em cena na fatídica noite de 2 de Dezembro de 1964, quando um poderoso incêndio deixou o teatro em ruínas”, relembrou na apresentação da programação, que na verdade terá início com três dias de entrada livre, entre 18 e 20 de Setembro. Além da peça de William Shakespeare, haverá um espectáculo de videomapping, actuações de DJs – aponte os nomes: ZenGxrl, Beatbombers e DJ Marfox –, visitas ao edifício e muitas outras iniciativas, incluindo o lançamento de Macbeth, numa tradução de Pedro Penim, e a apresentação do Coro do Recomeço, conduzido pela estrutura artística ondamarela.
Ainda em Setembro, Keli Freitas reinaugura a Sala Estúdio entre os dias 23 e 27, com um projecto participativo, construído a partir das experiências de vida de pessoas imigrantes que vivem em Lisboa e terão oportunidade de integrar um processo de criação que coloca as suas experiências e perspectivas no centro da cena, através de encontros, conversas e práticas artísticas. Segue-se, em Outubro, na mesma sala, Sumário: Auto da Barca do Inferno, com direcção artística de Raquel Castro, entre os dias 8 e 31; e Desver, de Joana Craveiro, que parte de uma investigação sobre a ocupação da Palestina, entre os dias 23 e 25.
Já Novembro é mês de Festa, de Gonçalo Amorim e Marcio Abreu, que nos fala de liberdade, criação colectiva e resistência, entre os dias 6 e 14, na Sala Estúdio; mas também de receber o Alkantara Festival, com a despedida da companhia Cão Solteiro, entre os dias 13 e 15, na Sala Garrett. É também na Sala Garrett que poderemos ver, nos dias 27 e 28 de Novembro, Quando vi o mar, de Ali Chahrour, que evoca as trabalhadoras domésticas migrantes no Líbano, há muito sujeitas a um sistema laboral repressivo e hoje ainda mais vulneráveis devido à guerra. Mas há mais. Com estreia a 26 de Novembro, A Cantora Careca, de Eugène Ionesco, estará em cena até dia 13 de Dezembro, numa encenação de Beatriz Batarda.
Em Dezembro, destaca-se ainda a vinda a Portugal do Kashabi Theatre Palestine, que sobe ao palco da Sala Garrett com Al-Sirah Al-Hilaliyyah, entre os dias 3 e 4, para partilhar uma das grandes epopeias da tradição oral árabe. Haverá conversa com artistas, com moderação de Segundo as Marias, conselho consultivo afecto à direcção artística do teatro, composto por Alice Azevedo, Cátia Terrinca e Joyce Souza, que também serão responsáveis por organizar A Última Sexta-feira, um evento mensal que se inspira no movimento Fridays for Future e na urgência de repensar o presente à luz da crise climática – a estreia está prevista para 25 de Setembro.
Ainda em Dezembro, entre os dias 11 e 13, estará em cena, na Sala Garrett, as Suplicantes de Sara Barros Leitão, uma revisitação contemporânea do texto de Ésquilo, que também terá publicação. É o último espectáculo programado antes do novo ano, no qual se estreia um Foco anual. A estreia faz-se com Lígia Soares, que reúne quatro espectáculos, com apresentações entre 20 e 29 de Janeiro: Memorial, Cinderela, Romance e Dressing Room. Em cena, entre os dias 28 e 30 de Janeiro, estará também Barber Shop Chronicles, de Inua Ellams, numa produção internacional que explora as masculinidades negras contemporâneas e conta com encenação de Junior Mthombeni e Michael De Cock.
Em Fevereiro, entre os dias 6 e 27, Sara Carinhas leva Pessoas, Lugares e Coisas, de Duncan Macmillan, à Sala Garrett; e, entre os dias 12 e 20, Zia Soares ocupa a Sala Estúdio com ISIN MAKEES, que nos convida a viajar no tempo e no espaço, até à costa norte de Timor-Leste, durante a Guerra de Laleia (1878-81), para nos falar sobre memória colonial e reparação histórica. Já entre os dias 27 e 6 de Março, exibe-se na Sala Estúdio Vozes do Rossio, documentário coreográfico de Vicente Antunes Ramos construído a partir das histórias de quem habita a praça do Rossio.
Em Março, O Fantasma de D. Maria II junta Hugo van der Ding e Martim Sousa Tavares, com encenação de Mónica Garnel, numa viagem pela história do próprio Teatro Nacional, que se prolonga até 17 de Abril; e Cláudia Jardim encena uma nova criação, desenvolvida com os intérpretes estagiários do D. Maria II. O projecto Boca Aberta apresenta, por sua vez, três textos de Inês Fonseca Santos e Maria João Cruz, criados em colaboração com artistas e estruturas culturais de Lagos, Ourém e Ponte de Lima; e a companhia Hotel Europa regressa ao teatro entre 9 e 30 de Abril, com Habitar, um espectáculo documental sobre a crise da habitação em Portugal e na Europa.
Maio traz-nos BLUR (7-15 Mar), uma criação de Craig Quintero e Phoebe Greenberg; Blackface (20 Mai-5 Jun), de Marco Mendonça, vencedor da sexta edição do Prémio Revelação Ageas Teatro Nacional D. Maria II; Ajoelha-te e diz-me que me amas (26 Mai-11 Jun), de Mário Coelho; e um espectáculo integrado no FIMFA – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas. Já no final, apresenta-se Navalha na Carne (18-26 Jun), criação de Àkila a.k.a. Puta da Silva, vencedora da última edição da Bolsa Amélia Rey Colaço; um espectáculo do Teatro Nacional São João, de Victor Hugo Pontes; Pândiga (1-4 Jul), de Cátia Terrinca e Santi Senso; o regresso do Festival de Almada (9-10 Jul); e os espectáculos finais da Escola Superior de Teatro e Cinema (14-17 Jul).
Fora de portas, o destaque vai para o Festival PANOS, que terá lugar em Évora, Capital Europeia da Cultura em 2027. Mas há muitos mais projectos dignos de nota, como a École des Maîtres, uma formação teatral avançada, conduzida pela encenadora francesa Nathalie Béasse, em Coimbra, no Teatro Académico Gil Vicente, a 12 de Setembro; a quarta edição do programa de arte participativa ATOS, que passará pelo Funchal, por Lamego, Loulé e São João da Madeira; oficinas de teatro; e digressão de muitos dos espectáculos que estarão em cena no teatro e que, assim, também poderão ser visto noutros pontos do país.
A programação inclui ainda Que Informação Dramática!, um novo projecto de Bárbara Branco e Vítor Silva Costa, que nos convidam a reler, revisitar e desmontar a História do Teatro em sessões que combinam leitura encenada com debate público, projecção de arquivo, glossário teatral e exposição de materiais cénicos. Haverá ainda novos títulos no catálogo editorial, incluindo os primeiros volumes de uma colecção ambiciosa dedicada a Gil Vicente, o pai do teatro português; e inaugura-se também Ocupar o Centro, um projecto trienal para fomentar a empregabilidade de artista com deficiência e surdos, e TRUST – TRUth on STage, uma colaboração europeia que explora o que acontece quando o jornalismo e o teatro se encontram em palco.
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